domingo, 15 de maio de 2011

BENJAMIN PÉRET e o Estranho Amor



















ESCUTA

Se me abrigasses como um besouro num armário
eriçado de campainhas-brancas coloridas pelos teus olhos
de virgens transatlânticas
segunda terça etc. não seriam nada mais do que uma mosca
sobre uma praça orlada de palácios em ruínas
donde sairia uma imensa vegetação de coral
e de xales bordados
onde se vê
árvores obliquamente abatidas
que vão se confundir com os bancos das pracinhas
onde eu dormia aguardando que chegasses
como uma floresta aguarda a passagem de um cometa
para ver claro
entre suas matas fechadas que gemem como uma
chaminé
chamando a acha de lenha que ela deseja desde que
começou a bocejar
como uma pedreira abandonada
e treparíamos como uma escada numa torre
para nos ver desaparecer
ao longe
como uma mesa levada pela inundação


(Benjamin Péret, Amor Sublime - tradução de Sérgio Lima e Pierre Clemens)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sapatos pelos céus de Porto Alegre














PARÁBOLA

A imagem daqueles salgueiros nágua é mais nítida
e pura que os próprios salgueiros. E tem também uma
tristeza toda sua, uma tristeza que não está nos primitivos
salgueiros.


INFERNO

Em suave andadura de sonho, sob uma infinita série de
arco-íris celestiais, anjos me conduziam num palanquim dourado,
entre um curioso povo de profetas e virgens, que formava alas
para me ver passar. Mas eu me debruçava inquieto a uma e outra
janela: faltava-me alguma coisa. Faltava ... Faltavam os meus desafetos.
Eu só queria ver a cara deles, ver a cara que eles fariam quando me
vissem passar, tirado por anjos, num palanquim de ouro!


EPÍLOGO

Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora
está suspenso. Nada agüenta mais nada. E sabe Deus o que é que
desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas!
Não sabe ... Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca ...
Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade.


(Sapato Florido, Mário Quintana - 1948)

domingo, 6 de março de 2011

RETRETE (O homem político)


RETRETE



Pediram-me uma retrospectiva do Brasil de 1993, mas o filósofo húngaro Max Nordau, nascido em 1849 e falecido em 1923, já fez uma retrospectiva do nosso Brasil de Sempre. E da política de “quase sempre” em vários países do Planeta Terra.

(...) Se não, vejamos:

“O que é para o deputado o interesse geral e o bem público? Mero negócio de comédia: o deputado quer subir e o eleitor tem de servir-lhe de estribo. Trabalhar para o povo? Besteira! O povo é que deve trabalhar para ele. Apelidam os eleitores ‘gado que vota’: essa metáfora é de rara exatidão... gado metafórico que no dia eleição deposita a cédula na urna.

“O político não tem outro fim nas suas ações senão o gozo de seu egoísmo. Para aí chegar, deve obter o apoio da massa. Ora, não se obtém esse apoio senão à força de promessas e das tradicionais palavras de sensação que recitam tão maquinalmente, como o mendicante o seu Paster Noster. O político submete-se a esse uso sem hesitar. Desde que eleito pelos eleitores, o seu amor-próprio fica satisfeito e a massa desaparece completamente das suas vistas para surgir de novo quando o ameaçam de lhe tirar o poder. Então fará o que for necessário para conservá-lo, como fez antes para obtê-lo. Conforme as exigências da situação, ele dobrará de novo a enfiada das promessas e das frases de sensação ou ameaçará com o punho aqueles que murmurarem.

“Os eleitores não conhecem o indivíduo, nada sabem de seu caráter, se tivessem que emprestar-lhe por algumas horas uma chaleira velha, informar-se-iam dele certamente melhor; no entanto, confiam-lhe os maiores interesses do Estado.

“Eis os homens que seguem a carreira política são conduzidos pelo egoísmo, entretanto, têm necessidade de certa popularidade, e a popularidade só é adquirida ordinariamente por aquele que auxilia a felicidade da comunidade ou finge auxiliá-la; os nossos ambiciosos terão, pois, de ocupar-se dos interesses públicos ou farão pelo menos semblante de interessar-se por eles. Devem, para ser bem-sucedidos, possuir diversas qualidades que não atraiam simpatias. Devem saber fingir e mentir, porque são constrangidos a sorrir para homens que lhe são repugnantes ou indiferentes, sob pena de criar inumeráveis inimigos; devem fazer promessas que sabem previamente não poder cumprir. Devem, enfim, lisonjear as inclinações e as paixões vulgares da multidão, fingir partilhar seus preconceitos, suas idéias tradicionais. Todos esses traços reunidos formam um personagem repulsivo ao homem de caráter firme. Em qualquer romance, semelhante personagem não atrairia nunca a simpatia do leitor; na vida, o mesmo leitor lhe dá seu voto de todas as eleições.”

“A mosca é que muda, mas a merda continua a mesma”.




(Hilda Hilst, Cascos e Carícias – Dezembro 1993)

domingo, 9 de janeiro de 2011

GIORGOS SEFÉRIS, Vento Sul




















VII



Vento sul


Funde-se o mar, no ocaso, a uma cordilheira.
A nossa esquerda sopra o vento sul e nos transtornam
essas lufadas que arrancam os ossos da carne.
Nossa casa entre pinhais e alfarrobeiras.
Grandes janelas. Grandes mesas
onde escrever as cartas que estes meses todos
te escrevemos, cartas que atiramos
por cima da distância a preencher.

Estrela da manhã, quando baixaste o olhar
foram nossas horas mais doces do que o bálsamo
na ferida, mais risonha do que a água
fria no palato, mais serena do que as asas do cisne.
Tomavas nossa vida em tua palma
Depois do amargo pão da terra estranha
se ficamos de noite frente ao muro branco
tua voz se acerca como esperança de fogo
e esse vento novamente afia
uma navalha em nossos nervos.

Cada um de nós te escreveu as mesmas coisas
e silencia cada um diante do outro
olhando, cada um, o mesmo mundo à parte
a sombra e a luz na cordilheira
e a ti.
Quem arrancará este pesar de nosso coração?

Ontem à noite uma tempestade e hoje
Pesa de novo o céu enfarruscado. Nossos pensamentos
como as agulhas de pinheiro da tempestade de ontem
se acumulam à porta da casa e em vão querem
erguer uma torre que se abate.

Em meio a esses países dizimados
sobre este cabo varrido pelo vento sul
com a cordilheira que te oculta à nossa frente,
quem levará em conta nosso empenho de esquecer?
Quem aceitará nossa oferenda, neste fim de outono?



(Giorgos Seféris – Estória Mítica 1933-1934 – Tradução José Paulo Paes)

sábado, 11 de dezembro de 2010

GULLAR e a perplexidade da finitude




















PERPLEXIDADES



a parte mais efêmera
                  de mim
é esta consciência de que existo

e todo o existir consiste nisto

é estranho!
e mais entranho
                 ainda
                 me é sabê-lo

e saber
que esta consciência dura menos
do que um fio de meu cabelo

e mais estranho ainda
                que sabê-lo

é que
          enquanto dura me é dado
          o infinito universo constelado
         de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo que umas poucas delas
posso vê-las

fulgindo no presente do passado



(Ferreira Gullar, Em alguma parte alguma)

sábado, 17 de julho de 2010

A HORA DOS ASSASSINOS




















Que retrato perfeito de nossos prezados governos! Sempre à procura de um ponto de apoio para conquistar em lugar atroz, sempre apegados a seus ganhos ilícitos, defendendo seus bens, suas colônias, com o exército e a marinha. Para os mais graúdos, o mundo não é suficientemente amplo. Para os pequenos que precisam de espaço, palavras piedosas e ameaças veladas. A terra pertence aos fortes, aos que dispõem dos maiores exércitos e marinhas, aos que brandem o grande porrete econômico. Como é irônico que o poeta solitário que fugiu para o fim do mundo com o propósito de juntar umas parcas economias tivesse que assistir de braços cruzados as grandes potências transformando na maior mixórdia todos os seus sonhos.

“Sim o fim do mundo ... avançar, avançar sempre! Agora começa a grande aventura ... “ Mas, por mais depressa que se avance, o governo sempre chega primeiro, com restrições, com grilhões e algemas, com gases venenosos, tanques e bombas sufocantes. Rimbaud, o poeta, se propõe a ensinar o Alcorão aos meninos e meninas hararis na própria língua deles. O governo preferiria vendê-los como escravos. “Tem alguma destruição que é necessária”, escreveu certa vez, e quanta poeira se levantou por causa dessa simples declaração! Referia-se apenas à destruição intrínseca à criação. Os governos, porém destroem sem a menor justificativa e certamente sem jamais pensar em criação. O que o Rimbaud poeta queria era acabar com as formas velhas, tanto na vida como na literatura. O que os governos querem é preservar a ordem estabelecida, por mais chacina e destruição que isso acarrete.

(...) quando se trata de examinar as atividades de seus prezados governos, sobretudo em relação àquelas intrigas escusas contra as quais Rimbaud se insurgia, desmancham-se em elogios e bajulações. Quando querem puni-lo como aventureiro, falam do grande poeta que foi; quando querem limitá-lo à condição de poeta, falam de seu caos e rebeldia. Mostram-se consternados quando o poeta imita os espoliadores e aproveitadores que adulam e ficam horrorizados quando não tem interesse por dinheiro ou pela vida monótona e tediosa do comum dos mortais.



(Henry Miller, A hora dos assassinos – um estudo sobre Rimbaud)

sábado, 10 de julho de 2010

AGORA TEMPO DE AMOR PARA KADOSH

















Tríplice Acrobata, agora virá um tempo de amor para Kadosh, um vívido tempo para compensar o meu de antes desviado, singradura agora para compensar outro tempo onde o casco só caminhava por caminho ardoso, onde Kadosh sedento procurava tua cara, procurava em tudo, até na corcova do que ia à frente, na sombra do capim-secura que ficava atrás, e até nas carnes onde Kadosh montava, carne de amiga, de inimiga, de muitas mal queridas, e até na pequena noz, núcula feito goma, nucela escondida de mulher, até aí te procurava porque nunca se sabe do gosto embuçado do divino,

Eu Shiva-Kadosh, a linha da cabeça imensa sumindo no dorso da mão, a ossatura perfeita, a apreciável clareza das perguntas, e a raça!aroma-amora, baba-doçura no sangue de outras raças, tudo isso te dei, e enquanto me ofertava ouvia dizer que muito longe de mim, um, de deficiente biografia, levitava sobre as cumeadas.Basta. Tempo de amor, o meu, agora, Cão de Pedra. Que eu viva carne e grandeza.E principalmente isso: que eu Te esqueça. Mais Nada.


(Hilda Hilst, in Kadosh)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

XXIII





















XXIII


                                        A Marcos Emílio, in memoriam.



Porque conheço dos humanos
Cara, Crueza,
Te batizo Ventura
Rosto de ninguém
Morte-Ventura
Quando é que vem?

Porque viver na Terra
É sangrar sem conhecer
Te batizo Prisma. Púrpura
Rosto de ninguém
Ungüento
Duna
Quando é que vem?

Porque o corpo
É tão mais vivo quanto morto
Te batizo Riso
Rosto de ninguém
Sonido
Altura
Quando é que vem?



(Hilda Hilst, da morte. odes mínimas)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

(DESDE O TEMPO EM QUE ENCONTRAMOS A LUZ)
















(DESDE O TEMPO EM QUE ENCONTRAMOS A LUZ)



“escorre do charco da rocha
           e agora descem com luzes à água
lanternas de remadores flutuam
          a garra do mar as repele


                                              jatos de água da rocha”


As bolhas rebentam em minhas mãos de mendigo.

Foi quando me prostituí nas ruas de Sodoma.
Eu me sinto só. no gelo que desce destas galerias escuras.

Fui carrasco nos tempos de artilharias e forcas. De serpes azuis.
Nas areias da consciência. nas batalhas da pátria morta.
A casa é um viveiro de aranhas. a cama um sineiro de putas.

Não só o silêncio se arrasta são pesadas as cortinas da sombra
o meu pescoço é um rio cortado de veias,
a cabeça desfaz-se num círculo de pássaros mudos de prata

Na altura das estrelas eu encontrei uma concha que ria do meu desespero
só o desespero das águas – ela me dizia – é o teu fértil e agudo e certo
arrepio de vida onde resgatas mais que uma maçã podre e uma criança
amorosa de leite e sumo-furtado; saberás roer teus medos na hora austera

agora que estás preparado de sangue e lodo, garimpeiro de álveos;
os mesmos que soprastes antes junto com Satã
                                                                 - agora ele acende na fundura

não saberei decifrar mais uma esfinge travestida de nácar

“dois rios juntos peixe brilhante e sargaços
uma ninfa solitária na lagoa.”

Agora sou eu que perfuro no mergulho o saber que me dói de alma.





(Anderson Dantas – O Amor Duplo e o Desespero das Águas – inédito
Foto: auto-retrato)

sábado, 10 de abril de 2010

ANTICRISTO



UMA MULHER CHORANDO É UMA MULHER TRAMANDO

(Lars Von Trier)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

uma casa na estação















uma casa na estação

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          (a hora do homem é a tapera dos ausentes)


aqui
      no verão rubro
                           do peito
aqui
      na chuva funda
                          que cintila
                                          na pupila
e a alegria
        infantil
                que enche
                              os campos abertos
as ruínas
           da casa
                     e dos lábios
                               que murmuram estórias


o olho azul
           coleante
                     doce e severo
                              que geme nos eucaliptos


descaminhos
             que dilaceram
                                 tua perna

trilhos
            enquanto sombras
                                 fantasmas estalam

encilham
           os cavalos
                     e desvelam os cães
                                            de nossas
                                                      memórias mortas
(aqui
        no verão fundo
                     de nossas chamas)






(Bagé (RS), 13 – 17/02/2010)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A LOUCURA, e seu gorro com guizos




















Elogio da Loucura

(trecho)
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       Não espero votos; não me enfureço; não reclamo oferendas expiatórias por um detalhe omitido num rito. Não revolto céus e terras, se convidaram os outros deuses, deixando-os em casa ou se não me deixam farejar o cheiro das vítimas. É tamanha a exigência das divindades neste ponto, que é mais vantajoso e seguro negligenciá-las do que servi-las; assim como existem homens de gênio tão ruim e tão fáceis de irritar que seria melhor ignorá-los completamente do que os ter como amigos.
       Mas ninguém, dizem, oferece sacrifícios à Loucura, nem lhe ergue templos. Exato, e essa ingratidão, já vos disse, muito me surpreende; mas sou indulgente e levo as coisas pelo lado bom. Nem mesmo ligo para isso. Por que me importaria com um pouco de incenso ou um punhado de farinha sagrada, com um bode ou uma porca, quando em todos os lugares onde existem homens obtenho um culto que até os teólogos consideram excelente? Porventura, precisaria eu sentir ciúmes de Diana porque a reverenciam com sangue humano? Eu, de minha parte, acho-me perfeitamente servida por todos e em todos os lugares, quando os corações me possuem, os costumes me refletem e a vida é a minha imagem.
       Este modo particular de um culto não é freqüente entre os cristãos. A maioria apresenta à Virgem, mãe de Deus, uma pequena vela em pleno dia, que não lhe serve para nada. Mas como são poucos os que se esforçam em imitar suas virtudes, a castidade, a modéstia, o amor das coisas divinas! Este é, entretanto, o verdadeiro culto, muito mais agradável aos habitantes do Céu. Por que ademais, iria eu desejar um templo, dispondo do mais belo de todos, já que tenho o universo?

       Só eu, a Loucura, e mais ninguém, estou sempre pronta para distribuir indistintamente favores para todos os homens.


(Elogio da Loucura, Erasmo de Rotterdam, tradução de Maria Ermantina Galvão G. Pereira para a tradução de Pierre Noillac.
Imagem: desenho de Holbein)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

BATAILLE MALDITO: o ateu místico



















A confissão de Simone

e a missa de Sir Edmond
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(trechos)

Não é difícil imaginar o meu espanto. Simone atrás da cortina, ajoelhou-se. Enquanto ela cochichava, eu aguardava com impaciência os efeitos dessa travessura. O ser sórdido, cismava eu, pularia para fora de sua caixa, precipitando-se sobre a sacrílega. Nada de semelhante aconteceu. Simone falava baixinho, sem parar, diante da janelinha gradeada.

Avancei nas pontas dos pés.

Simone realmente se masturbava, colada entre as grades, o corpo tenso, as coxas afastadas, os dedos remexendo os pentelhos. Consegui tocá-la, minha mão alcançou o buraco entre as nádegas. Nesse momento, ouvi-a claramente pronunciar:

- Padre, ainda não disse o pior.
Seguiu-se um silêncio.
- O pior, padre, é que estou me masturbando enquanto falo com o senhor.
Mais alguns segundos, agora de cochichos. Finalmente, quase em voz alta:
Se não acredita, posso lhe mostrar.
E Simone se levantou, abrindo-se diante do olho da guarita, masturbando-se em êxtase, com a mão segura e rápida.

- E então, padreco – berrou Simone golpeando violentamente o armário - , o que você está fazendo no seu barraco? Batendo punheta também?
Mas o confessionário permanecia mudo.
- Então, eu vou abrir!
Lá dentro, o visionário sentado, de cabeça baixa, enxugava a testa encharcada de suor. A moça apalpou a batina: ele não reagiu. Ela arregaçou a imunda saia preta e tirou para fora um pau comprido, rosado e duro: ele se limitou a inclinar a cabeça para trás, com um trejeito e um zunido entre os dentes. Deixou Simone agir, e esta meteu a verga bestial na boca.

Sir Edmond e eu tínhamos ficado imóveis de espanto. O assombro me paralisava. Eu não sabia o que fazer, quando o enigmático inglês se aproximou. Afastou Simone com delicadeza. Depois, segurou o verme pelo pulso, arrancou-o para fora do buraco e o estendeu nas lajes, a nossos pés: o desprezível sujeito jazia feito morto pelo chão e a baba lhe escorria pela boca. O inglês e eu o transportamos, nos braços, para a sacristia.

De braguilha aberta, pau murcho, o rosto lívido, ele não ofereceu resistência, respirando com dificuldade; nós o jogamos numa poltrona de forma arquitetural.
- Señores – proferiu o miserável - , vocês acham que sou um hipócrita!
- Não – disse Sir Edmond, num tom categórico.
Simone perguntou-lhe:
- Como é o seu nome?
- Don Aminado – respondeu.
Simone esbofeteou a carcaça sacerdotal. Com o golpe, a carcaça enrijeceu novamente. Ele foi despido; Simone, de cócoras sobre as roupas jogadas no chão, mijou feito uma cadela. Em seguida, Simone masturbou o padre e o chupou. Eu enrabei Simone.

Passados alguns minutos, o inglês voltou à sala, trazendo consigo um cibório decorado com anjinhos nus como cupidos.
Don Aminado contemplava fixamente aquele recipiente de Deus colocado no chão; o seu belo rosto idiota, contorcido pelas mordidas com que Simone lhe excitava o pau, expressava um desvario absoluto.
O inglês tinha trancado a porta. Vasculhando os armários, encontrou um cálice grande. Pediu-nos que abandonássemos o miserável por uns instantes.
- Você está vendo – disse a Simone – estas hóstias no cibório e agora este cálice onde se coloca o vinho.
- Cheira a porra – disse ela, farejando os pães ázimos.
- Justamente – continuou o inglês - , estas hóstias que você está vendo são o esperma de Cristo transformado em bolinhos. E o vinho, os eclesiásticos dizem que é o sangue. Enganam-nos. Se fosse realmente o sangue, eles beberiam vinho tinto, mas só bebem vinho branco, porque sabem perfeitamente que se trata de urina.

A demonstração era convincente. Simone agarrou o cálice e eu me apoderei do cibório: Don Aminado na sua poltrona, foi percorrido por um ligeiro tremor.
Simone começou por lhe aplicar uma grande pancada na cabeça, com a base do cálice, que o excitou mas acabou de bestializá-lo. Chupou-o de novo. Ele emitiu gemidos desprezíveis. Ela o levou aos limites da fúria dos sentidos e então:
- Isso não é tudo – disse - , é preciso mijar.
Deu-lhe outra bofetada.
Despiu-se na frente dele e eu a masturbei.
O olhar do inglês estava tão duro, cravado nos olhos do jovem bestializado, que a coisa aconteceu sem dificuldade. Don Aminado encheu ruidosamente de urina o cálice que Simone mantinha sob seu cacete.
- E agora, beba – disse Sir Edmond.
O miserável bebeu num êxtase imundo.
Simone chupou-o de novo; ele urrou tragicamente de prazer. Com um gesto demente, atirou o penico sagrado, que rachou contra a parede. Quatro braços robustos o agarraram e, de pernas abertas, corpo quebrado, berrando como um porco, cuspiu sua porra nas hóstias do cibório que Simone segurava sob ele enquanto o masturbava.


(Georges Bataille, Histoire de l´oeil)

domingo, 3 de janeiro de 2010

o que eles querem



o que eles querem



Vallejo escrevendo sobre
solidão enquanto morria de
fome;
a orelha de Van Gogh rejeitada por uma
puta;
Rimbaud correndo para a África
em busca de ouro e encontrando
um caso incurável de sífilis;
Beethoven ficou surdo;
Pound foi arrastado pelas ruas
numa gaiola;
Chatterton tomou veneno para rato;
o cérebro de Hemingway pingando dentro
do suco de laranja;
Pascal cortando os pulsos na banheira;
Artaud trancado com os loucos;
Dostoiévski de pé contra um muro;
Crane pulando na hélice de um barco;
Lorca baleado na estrada pelo exército
espanhol;
Berryman pulando de uma ponte;
Burroughs atirando na mulher;
Mailer esfaqueando a sua;
- é isso o que eles querem:
o danado dum show
uma placa luminosa
no meio do inferno.
é isso o que eles querem,
aquele bando de
estúpidos
inarticulados
tranqüilos
seguros
admiradores de
carnavais.




(Bukowski, tradução de Pedro Gonzaga)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

SER ESTRANHO



SER ESTRANHO


(Letra: Casa Branca e Gandhula
Intérprete: Jessé)


Dentro de mim aparece as vezes
Uma mulher que me vive em segredo
Um ser estranho que até tenho medo
Que algum dia me expulse de mim

É mais doida, que a própria ferida
É mais calada que o próprio silencio
E tem a idade em que nada é proibido
Vive comigo dentro de mim

Corre pra dentro de mim
Como se eu fosse uma espécie de abrigo
Fala comigo tal qual a um amigo
E me aconselha a fazer tudo aquilo que a coragem não deixa fazer
Quando eu não faço ela faz
Quando eu não quero ela é audaz

Quando se zanga consegue o que quer
Às vezes me diz que não quer ser mulher
Mas sente falta de um homem qualquer
Essa mulher grita dentro de mim quando calo
Essa mulher chora dentro de mim quando canto

Essa mulher ri do meu sofrimento se amo
Essa mulher sai de dentro mim quando sonho
Essa mulher morre dentro de mim quando grito
Essa mulher me da sua mão quando sofro

Ela é tão "eu" que as vezes não sei quem é ela
É tão só que as vezes não sei se sou eu
Ela é a vida, é a morte doida
É doída como um corte no fundo do meu coração, coração, coração

Dentro de mim aparece em segredo
Uma mulher quem me vive às vezes
Um ser estranho que até tenho medo
Algum dia me expulse de mim
E algum dia me expulse de mim

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

JULES LAFORGUE escreveu e T.S. ELIOT imitou




















MEDIOCRIDADE




No infinito coberto de eternas belezas,
Como átomo perdido, incerto, solitário,
Um planeta chamado Terra, dias contados,
Voa com os seus vermes sobre as profundezas.

Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho,
Marchando, indiferentes ao grande mistério,
E quando um dos seus é enterrado, já sérios,
Saudam-no. Do torpor não são arrancados.

Viver, morrer, sem desconfiar da história
Do globo, sua miséria em eterna glória,
Sua agonia futura, o sol moribundo.

Vertigens de universo, todo o céu só festa!
Nada, nada, terão visto. Partem do mundo
Sem visitar sequer o seu próprio planeta.




(Jules Laforgue – Litanias da Lua, tradução de Régis Bonvicino)







 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
V. O que Disse o Trovão



(trechos)



       Após a rubra luz do archote sobre as faces suadas
Após o gelado silêncio nos jardins
Após a agonia em regiões pedregosas
O clamor e a súplica
Cárcere palácio reverberação
Do trovão primaveril sobre longínquas montanhas
Aquele que vivia agora já não vive
E nós que então vivíamos agora agonizamos
Com um pouco de resignação.

      Aqui não há água, mas apenas rocha
Rocha. Água nenhuma. E o caminho arenoso
O coleante caminho que sobe entre as montanhas
Que são montanhas de rocha inaquosa
Se houvesse água por aqui, nos deteríamos a bebê-la
Não se pode parar ou pensar em meio às rochas
Seco o suor nos poros e os pés postos na areia
Se aqui houvesse água em meio às rochas
Montanha morta, boca de dentes cariados que já não pode cuspir
Aqui não se fica de pé e ninguém se deita ou senta
Nem o silêncio vibra nas montanhas
Apenas o áspero e seco trovão sem chuva
Sequer a solidão floresce nas montanhas
Apenas rubras faces taciturnas que escarnecem e rosnam
A espreitar nas portas de casebres calcinados
                                       Se houvesse água por aqui

       E não rocha
       Se aqui houvesse rocha
       Que água também fosse
       E água
       Uma nascente
       Uma poça entre as rochas
       Se ao menos aqui se ouvisse um sussurro de água




(T. S. Eliot – A Terra Desolada, tradução de Ivan Junqueira)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

o universo inteiro é um homem sentado















áspera
e nunca-espera
de barcos e pescadores

(ainda lembro
                     da tartaruga
                                      morta)

o salobro canto
engasgado na garganta
o corte feio
abrindo a carne

o universo inteiro
é um homem
sentado

via espessa e líquida
de favo escuro
e inscrito:

manhã
nada mais a completa
tudo se
repete:


(Ilha, Pântano do Sul, 05 Dez 2009, 00:36)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

OPUS INFERNAL e 2012




OPUS INFERNAL e 2012



O ANO é 2009. 19 de Novembro. Por volta das 16 horas, começam os sinais. Ventanias, trovões, intensa chuva, quedas de árvore e de postes, inundações, desabamentos, destelhamentos. Na Ilha da Magia, a terra das bruxas de Cascaes, a antiga Desterro, parece que vem abaixo.


A nova onda é a fatal inversão polar, prevista numa grande catástrofe em 2012. Pois eu a subverto. Eu reinvento a nova ordem. A revelação assintomática da INVERSÃO INFERNAL.



(Fotos do Lançamento do Livro OPUS INFERNAL e a Canção Branca, iniciado pontualmente às 19h30.
As imagens foram lindamente projetadas por Dienífer Bartnik)




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