sexta-feira, 12 de julho de 2013
Poesias Nunca: CAIO FERNANDO ABREU
CURTUME
Nenhum poema libertário
libera a tarde do gigantesco inútil
derramado em copos de cinza
sobre as paredes sujas.
Nenhum poema inflamado
desinflamaria o pus da paisagem mutilada
pelas chaminés vomitando fuligem
sem parar.
Nenhum poema possível
possibilita a transmutação do nada
curvado sobre cada uma das máquinas
em toques secos.
Nenhum poema pirado
pararia a voragem estúpida
gerando monstros coloridos
em papel couché.
Nenhum poema solto
soltaria outra vez as pandorgas perdidas.
Preso na gaveta, solto no vento: nenhum poema.
Nem mesmo este.
Caio Fernando Abreu, Poesias Nunca Publicadas
quinta-feira, 13 de junho de 2013
A Repetição do Silêncio: PAUL AUSTER
NOITES BRANCAS
Ninguém aqui,
e o corpo diz: tudo que se diga
não se deve dizer. Mas ninguém
também é corpo, e o que diz o corpo
também escuta
além de ti.
Neve e noite. A iteração
de um assassinato
entre as árvores. A pena
corre pela terra: não sabe mais
o que há de ser, e a mão que a sustém
sumiu.
Mesmo assim, escreve.
Escreve: no começo,
entre as árvores, um corpo vem andando
da noite. Escreve:
o branco do corpo
é da cor da terra. É a terra,
e a terra escreve: tudo
é da cor do silêncio.
Não estou mais aqui. Jamais disse
o que dizes
que disse. E, no entanto, o corpo é um lugar
onde nada morre. E a noite toda
dentre o silêncio das árvores, tu sabes
que minha voz
vem andando para ti.
(Paul Auster, 1971-1975, tradução Caetano W. Galindo)
sexta-feira, 15 de março de 2013
O AMOR DUPLO E O DESESPERO DAS ÁGUAS
LUNAR
Teu olho de lua
raiado de sombras.
Tua nádega branca
aureolada de lírios.
Teu beijo frio
pupila de neve.
Tua fala de harpa
mistério órfico.
Teu luzeiro verde
caracol de esmeralda.
Tua alma pesada
afugentada de estanho.
__________________________________
TRIÂNGULO
Vem. e me acompanha pela torva janela
como
um rastro sibilante e tépida correntude
carnosos
lábios que exsudam perfeita simetria
Como
as distâncias e as tatuagens ardentes de carne
que
peleiam aportam cais tremescurecidos de dentro
e
encontro ângulo ferido de si pela manhã cinzazul
Tristes
moendas que o chão varre horas afora
silencio
meus olhos na adaga do número e no gozo
das
chuvas bebem-se as joias da embriaguez
Tudo
tamanho de tato. Tateio a teia, a tirana
tigresa
que
sobe. As colinas da pele o caminho de sangue
nas
unhas as encostas da alma uma tessitura de anjos
Movem-se
as asas das águas. Elas ferem o ângulo
que ri
amor
marejado de temporais antes naufrágio
todo de mim
pelos
campônios amarelecidos em que barro e palha morrem o canto
Tive
tanto medo.
tanto.
_____________________________________
IBIZA
Três vezes açambarcante
ao ruído negro
do meu centro.
do peito
da cabeça
do sexo.
com um xale escondida
as feições antigas
as farpas embaraçadas.
três vezes revivestes
no silêncio todo
de meu sangue e rumor.
enterrada a carne no rio
a boca todos os buracos
sangrantes que fugi.
estupro molhante onda
música encarnada vasculhante
de mim
de ti das vagas frias
ferrugem a miséria da casa
as tábuas frouxas do sorriso
a tristeza do veneno na boca do pai.
viestes de novo a viver, fúlgida
água, rugas descidas das Dunas
e a mover meu tempo de menino e peixe.
________________________________________
ESTRIDOR
Vencido. Em volteios, vivo
e ao centro sempre
disposto
dos velames em ventos
vertido.
Pulsante. Eu-próprio, morto
nos flancos
disperso, ignaro
dos sexos em lençóis
amantíssimo.
Vertigem. Vasculhamos portos
encontramos moscas,
mansardas
moles mamas, mitigando
fósforos.
Obus. Homem, registro tardio
das palavras e do régio
tanque
fogo, guerra e arte
rubra do dorso.
Descanso. Fera alma arremessada
de dentro, este túnel que nunca
cavamos, este lábio que
nunca mel
E nas mãos mádidas maciez imersa,
vê o mal. Madrepérola.
Nácar.
toca-me o centro, a
friez da fronte.
Sentes. Em meio às coxas pendentes
frescos mexilhões, a idade do Tempo
em que jorra um céu puro
e deleitoso
A concha retida, o vôo da fênix o mar
as gaivotas
vulcanizadas, a flama do ar
no centro do Ser, flores,
onde serpeia o gozo.
_________________________________
SOLAR
Teu olho de sol
lançado
de luzes.
Teu
ventre dourado
alcantilado
de peixes.
Tua
língua quente
ardência
da lava.
Tua
música auriterra
revelação
do Zoroastro.
Teu
Templo de chamas
asas
marteladas do céu.
Tua
alma leve
alquimia
dos anjos.
(Anderson Dantas, do
livro inédito O Amor duplo e o Desespero das Águas
Imagem: do filme Bela
Donna de Fábio Barreto)
terça-feira, 5 de março de 2013
ANJO
ANJO
(2ª. versão)
As esculturas perderam-se na
superfície da pele e das águas que não mergulharam com suas ágeis graças.
Revisitado de cinzas que o fogo nem ardeu, pois a ausência é a verdade daqueles
sinceros espíritos cinzelados de puro desejo.
No teatro daquelas tristezas e antigas
alegrias o vento foi o branco algodão das têmporas que avançavam exauridas, ou
a falta da cabeleira que o orgulho consumiu na juventude abrasadora.
Permaneço de pé, no abismo de meu
fundo negror, tal como um grande pássaro que ostenta asas soporíferas e uma
umidade de sangue na ponta dos lábios ou bico a estraçalhar a presa, a suposta
amada que languescente desaba do degrau de seu desprezo alaranjado.
Sem cor! Retrato da dor às minhas mãos
amaldiçoado, sem seu corpo ou maciez, sem nudez às escarpas lançado para morrer
sem flautas, sem música, no vermelho do choro e na mandíbula da incerteza. Foi
quando aturdido o atirador de facas me convidou para no circo rolar sobre as feridas, a passear no
luar das geladas angústias e do poema rasgado na véspera dos dissabores.
E eu não pus nenhuma máscara e eu ria
sobre meu próprio túmulo que apodrecia dentro de mim. E na hora que Satã soprou
seu vômito negro, eu estava de saída para encontrar Aurora e ela me puxou para
si, com uma ânsia aterradora, e me beijou as axilas e cheirou minha alma de
sete facas e eu vi-me ao longo do oceano, só, com um peixe cru recitando versos
de um Teatro Perdido, e ele me jogou uma rosa de espuma e um riso de sal; daí
já era tarde para encontrar Pandora e então mais uma vez eu morri. Raiado de
espinhos eu subi. Ao monte. E nunca
acordado despi lentamente a bainha de meu jorro. Foi quando pela lateral da
galeria meu olho ficou a ver navios por cima dos marinheiros. Parti no dia
seguinte e nunca mais a vi, eu ainda lembro da primeira vez que ela confiou na
minha força; mesmo forte é meu desespero e minha travessia que desarruma pelos
vastos campos o diário dos homens, dos bois e das aves amigas.
Em verdade, somos um Teatro que falta
zarpar junto com a fome dos tubarões e livres para o vôo dos albatrozes. Lá de cima eu fui. Lá embaixo no inferno que suporto. Lá discípulo de sempre. Anjo.
(Anderson
Dantas – prosa do livro inédito Cavalos do Inferno
Foto:
do filme La Fille Sur Le Pont, 1999)
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
ALMA BEAT: Kenneth Rexroth
AS VANTAGENS DA INSTRUÇÃO
Sou um homem sem ambições,
de poucos amigos, totalmente incapaz
de ganhar minha vida ou ficar mais moço,
fugindo de uma sentença justa qualquer.
Solitário, mal vestido, que importa?
À meia-noite eu faço para mim uma jarra
de vinho branco quente com sementes de cardamomo,
com a boina velha e um roupão cinza rasgado,
sento no frio escrevendo poesias,
rabiscando nas margens nus angustiados,
copulando com as gatinhas
ninfomaníacas da minha imaginação.
(tradução de Leonardo Fróes, 2003)
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
EU NÃO DISSE A TODOS
EU NÃO DISSE A TODOS
(esboços para um livro futuro)
EU NÃO DISSE A TODOS
vida da minha vida
minha filha nasceu no mar
Minha filha nasceu no mar
Uma parte de mim
ficou naquela
suspensão de vidro
Naquelas carnes tenras e sofridas
(um arroxeado de agulhas)
naqueles sonos envenenados
naqueles bebês mortos.
Uma parte de mim
é renúncia quase
guardada para o agora
E a outra
para como um cão
guardião de pêlos
e patas e dentes
(guardar para sempre
a alma-casa)
Meus olhos atentos
nos teus olhos atentos
nos pequenos lábios rosados
- e como preconiza a mãe –
olhar vívido, olhos de jabuticaba
EU não disse a todos
minha filha nasceu no mar.
Eu renuncio a morte
até ontem.
(Ilha de SC, 21/11/2012 ).
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
HISPANISMOS: Cesar Vallejo
ESPERGÊNESE
Eu nasci um dia
em que Deus estava enfermo.
Todos sabem que vivo,
que sou mau: e não sabem
do dezembro desse janeiro.
Pois eu nasci um dia
em que Deus estava enfermo.
Existe um vazio
em meu ar metafísico
que ninguém pode tocar:
o claustro de um silêncio
que fala à flor de fogo.
Eu nasci um dia
em que Deus estava enfermo.
Irmão, escuta, escuta ...
Bem. E que eu não parta
sem levar dezembros,
sem deixar janeiros.
Pois eu nasci um dia
em que Deus estava enfermo.
Todos sabem que vivo,
que mastigo ... E não sabem
porque em meu verso gritam,
escuro ranço de féretro,
ventos esfregados,
desenroscados da Esfinge
indagadora do Deserto.
Todos sabem ... e não sabem
que a Luz é tísica
e a Sombra obesa ...
E não sabem que o Mistério sintetiza ...
que ele é o corcunda
musical e triste que à distância denuncia
a passagem meridiana dos limites aos Limites.
Eu nasci num dia
em que Deus estava enfermo,
enfermo grave.
(Tradução e notas: Thiago de Mello, 1984
Espergênese: antigo termo legal que significa a aprovação de uma condenação)
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Galeria Tátil II (Olhos da Alma)
(Galeria Tátil (Olhos da Alma) - CIC - MASC, Florianópolis, SC
Org. Juliana Hoffmann
Foto: Anderson Dantas)
Galeria Tátil (Olhos da Alma)
(Galeria Tátil (Olhos da Alma) - CIC - MASC, Florianópolis, SC
Org. Juliana Hoffmann
Foto: Anderson Dantas)
Galeria C. Ronald II
(Pã e o Jovem Poeta, em Exposição Pinturas e Esculturas C. Ronald - CIC - MASC,
Florianópolis, SC
Foto: Anderson Dantas)
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Galeria C. Ronald
(Amor, em Exposição Pinturas e Esculturas C. Ronald - CIC - MASC,
Florianópolis, SC
Foto: Anderson Dantas)
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
ORATÓRIO
Oratório
2ª. versão
Dieu des impuissants, Dieu des innocents
Dieu qui n´a plus d´occupation
Excepté celle de mourir.
Joyce Mansour
Ó Deus
lasso e do avesso
Tende piedade de mim
Com tuas imensas
mãos
Nas chagas
do meu corpo
Teu punhal
de carne
Atravessando
a origem
e o desvio
do Uno
Ó Deus
Grandioso e cruel
Tende piedade de nós
Com os teus olhares
abismosos
de carvão
Teus ouvidos -
radares da raça
Que apodrece
a campo.
Ó meu Deus
tão justo
Alça de tripa e metal
Coberto
de teus balbucios
TODA DOR
e cruz
Que nos tortura
a Todos.
Deus,
alçapão
e negror
de nossa Morte,
Dai-nos a Paz.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
HISPANISMOS: Vicente Huidobro
Canto II
(trechos)
____________________________
Eis-me
aqui perdido entre mares desertos
Só
como a pluma que cai de um pássaro na
noite
Eis-me
aqui numa torre de frio
Ao
abrigo da lembrança dos teus lábios marítimos
Da
lembrança de tuas complacências e de tua
cabeleira
Luminosa
e desatada como os rios de montanha
Irias
ser cega para que Deus te desse as mãos?
Pergunto-te
outra vez
O
arco de teus supercílios estendido para as armas
dos olhos
Na
ofensiva alada vencedora segura com
orgulhos de flor
Falam-te
por mim as pedras espancadas
Falam-te
por mim as ondas de pássaros sem céu
Fala-te
por mim a cor das paisagens sem vento
Fala-te
por mim o rebanho de ovelhas taciturnas
Adormecido
em tua memória
Fala-te
por mim o arroio descoberto
A
erva sobrevivente atada à aventura
A
aventura de luz e sangue de horizonte
Sem
mais abrigo que uma flor que se apaga
Se
há um pouco de vento
Eis-me
aqui tua estrela que passa
Com
tua respiração de fadigas distantes
Com
teus gestos e teu modo de andar
Com
o espaço magnetizado que te saúda
Que
nos separa com léguas de noite
No
entanto te advirto que estamos costurados
À
mesma estrela
Estamos
costurados pela mesma música estendida
De
um a outro
Pela
mesma sombra gigante agitada como árvore
Sejamos
este pedaço de céu
Este
trecho em que se passa a aventura misteriosa
A
aventura do planeta que estala em pétalas de
sonho
(Altazor, tradução de
Antonio Risério e Paulo César Souza, 1991)
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
A Poética do Silêncio
A Poética do Silêncio
___________________________________
UMA NOITE, assolado pela solidão e melancolia, comecei a assistir um filme, que era este, OPIUM, e coincidentemente, vinha ao meu encontro naquele momento, o mesmo sentimento do protagonista, que era a aridez para escrever. Algumas imagens do filme levaram-me a pressentir alguns poemas de Trakl, como se eu estivesse em Grodek, nas camas sujas improvisadas dos feridos de guerra, mutilados tanto na carne quanto psiquicamente.
Também lembrei da entrevista que Cioran concedeu a Sylvie Jaudeau, e que transcrevo aqui algumas passagens:
- Essa nostalgia precisamente é o fundamento da sua visão de mundo. Como o senhor a define?
- Esse sentimento está, em parte, ligado às minhas origens romenas. Lá, ele impregna toda a poesia popular. É um dilaceramento indefinível que se chama, em romeno, “dor”, próximo do “sehsucht” dos alemães, mas sobretudo da “saudade” dos portugueses.
- O senhor escreveu: "Existem três tipos de melancolia: russa, portuguesa e húngara".
- O povo mais melancólico que eu conheço é o húngaro; a música cigana serve de prova disso. Brahms, na juventude, fascinou-se por ela, de onde o charme insinuante de sua obra.
- Por que o senhor rompeu com a poesia?
- Por esgotamento interior, por enfraquecimento da minha capacidade de emoção. Chega um tempo em que se fica ressecado. O interesse pela poesia está ligado a essa frescura do espírito sem a qual rapidamente os artifícios são percebidos. O mesmo vale para a prosa. Na medida em que fico mais velho, escrever não me parece essencial. Livre de um ciclo de tormentos, descubro enfim a dor da capitulação. A rendição é a pior das superstições; sinto-me feliz de não ter sucumbido. Tenho imenso respeito pelos desistentes, os que tiveram coragem para apagar-se, sem deixar rastros.
- O senhor escreveu: "Existem três tipos de melancolia: russa, portuguesa e húngara".
- O povo mais melancólico que eu conheço é o húngaro; a música cigana serve de prova disso. Brahms, na juventude, fascinou-se por ela, de onde o charme insinuante de sua obra.
- Por que o senhor rompeu com a poesia?
- Por esgotamento interior, por enfraquecimento da minha capacidade de emoção. Chega um tempo em que se fica ressecado. O interesse pela poesia está ligado a essa frescura do espírito sem a qual rapidamente os artifícios são percebidos. O mesmo vale para a prosa. Na medida em que fico mais velho, escrever não me parece essencial. Livre de um ciclo de tormentos, descubro enfim a dor da capitulação. A rendição é a pior das superstições; sinto-me feliz de não ter sucumbido. Tenho imenso respeito pelos desistentes, os que tiveram coragem para apagar-se, sem deixar rastros.
- A sua verdade não reside no silêncio oposto hoje aos que ainda esperam livros do senhor?
- Talvez; mas se não escrevo mais, é por estar farto de caluniar o universo. Sou vítima de uma espécie de desgaste. A lucidez e a fadiga venceram-me – falo de uma fadiga filosófica tanto quanto biológica - , algo se rompeu em mim. Escreve-se por necessidade, e a lassitude elimina essa necessidade. Chega um tempo em que nada disso interessa mais. Em outras palavras, freqüentei pessoas em demasia que escreveram em excesso, obstinadas pela produção (...) Mas me parece que eu também escrevi demais. Um único livro teria bastado.
UMA NOITE em todas as noites, paira esse monstro da dúvida:
- Calar de vez ou escrever ainda?
Anderson Dantas - 2012
Eu moro numa Ilha.
sábado, 25 de agosto de 2012
HISPANISMOS: Juan Larrea
O MAR EM
PESSOA
Eis aqui o mar erguido em um abrir e
fechar de olhos
[
de pastor.
Eis aqui o mar sem sonho com um
grande medo de
[
trevos em flor.
E em postura de terra submissa ao
parecer
vão com suas lãs de evidência, sua
nuvem e seu labor.
Sob a sombra de um olmo nunca há
tempo a perder.
Crédula, esquisita, a escuridão sai
ao meu encontro.
Meu semblante abriga a casa do pão
que trago dentro
Cortado a golpe sobre um pássaro
inseguro.
E assim me afasto sob a ação do piano
que me costura nas plantas
precursoras do mar.
Um cervo do outono começa a lamber a
lua da tua
[
mão.
E agora à minha volta o mundo começa
a se desnudar
Para morrer de árvores ao fundo dos
meus olhos.
Meus cabelos se enchem de peixes de
penumbra
e de esqueletos de navios forçados
Sem ir mais longe,
tu és fria como o machado que abate o
silêncio
na luta entre a paisagem e seu golpe
de vista.
Mas quando o céu exporta seus
célebres pianistas
e a chuva o odor da minha pessoa,
como teu formoso coração se atraiçoa.
(Juan Larrea, tradução de C. Ronald)
sábado, 3 de março de 2012
Meus Melhores Fragmentos - Hilda Hilst (parte quatro)
I
Porque há desejo em mim tudo é cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.
(Hilda Hilst, Do Desejo, 1992)
IX
Amor chagado, de púrpura, de desejo
Pontilhado. Volto à seiva de cordas
Da guitarra, e recheio de sons o teu jazigo.
Volto empoeirada de vestígios, arvoredo de ouro
Do que fomos, gotas de sal na planície do olvido
Para reacender a tua fome.
Amor de sombras de ocasos e de ovelhas.
Volto como quem soma a vida inteira
A todos os outonos. Volto novíssima, incoerente
Cógnita
Como quem vê e escuta o cerne da semente
E da altura de dentro já lhe sabe o nome.
E reverdeço
No rosa de umas tangerinas
E nos azuis de todos os começos.
(Hilda Hilst, Amavisse, 1989)
XXXV
Ah, se eu soubesse de nuvens
Como te sei no hoje, morte minha,
Diria que me perseguem
Para escurecer
Essas caras de neve.
Diria que se detêm
Sobre a minha casa
Para ensombrar a alma. A minha.
E espalhadas
Diria que se avizinha
O cerco. A paliçada.
Que estou muda no além
Num sofrido perfil.
Nítida. Sozinha.
Se eu soubesse de nuvens
Como te sei
Não diria o que disse
Nem faria o poema. Olhava apenas.
(Hilda Hilst, Da Morte, Odes mínimas, 1980)
sábado, 28 de janeiro de 2012
Meus Melhores Fragmentos - Hilda Hilst (parte três)
Enrodilhado. Capa.
E ao mesmo tempo
Úmida carapaça.
Enrodilhado
Silvando
À espera da graça.
À espera, Senhor
Da tua mordedura.
Perseguido
E perseguidor
Ando colado à terra.
Mas num salto, Senhor,
(a tua mão aberta
à minha espera)
Posso chegar ao alto.
Se me sei perseguido
Posso te amar, buscando.
Se não te sei comigo
(só sabendo longe)
Não saberia buscar
Esse que só se esconde.
Grande Perseguidor
Foge comigo.
E gozosos gozaremos
Uma única viagem.
O ouro de Kadosh
Se não te sabe amigo
Se esfarela nos ares.
O ouro de Kadosh
É ouro dividido.
(Porque se vem à minha mão
Antes de mim, é teu)
Grande Perseguidor
Me faz teu perseguido.
Sorver
Tua rutilante intimidade.
E Kadosh prisioneiro
Contente de seu cárcere.
Amar seu tempo derradeiro.
Kadosh, rútilo brilhante
Meeiro da tua linguagem.
Arder para a eternidade.
Kadosh, búzio-bandeira
Espiralada eloqüência
No topo da tua cidade.
Reinventar o Sem-Nome
Cem mil dias debruçado
No teu passo e travessia.
E ser
Muito mais do que o vento
À volta do teu segredo.
E ser muito mais do que o mar:
Ser inteiro chamamento
Ser convés e marinheiro.
Dentro de ti navegar.
Não ser livre. Repousar
Na tua garra
E madrugada certa de saber
Parte
De tua rara medula.
E não ser triste
Porque tua luz demora.
Ser quase o impossível:
Sobra clara, esquiva
Do mundo permissível
(Esse mundo de luto
Lucidez sem aurora
Lusfer e aparência
Sombra escura)
Ser de Kadosh contente.
Larva
Que a si mesmo se elabora.
E desejar tua asa
Teu sopro fremente, teu gozo
Se se fizer a hora.
(Hilda Hilst, Kadosh – 1973)
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Meus Melhores Fragmentos - Hilda Hilst (parte dois)
IV
_____________________
A Federico Garcia Lorca
Companheiro, morto desassombrado, rosácea ensolarada
Quem senão eu, te cantará primeiro. Quem senão eu
Pontilhada de chagas, eu que tanto te amei, eu
Que bebi da tua boca a fúria de umas águas
Eu, que mastiguei tuas conquistas e que depois chorei
Porque dizias: “amor de mis entrañas, viva muerte”.
Ah, se soubesses como ficou difícil a Poesia.
Triste garganta o nosso tempo, TRISTE TRISTE
E mais um tempo, nem será licito ao poeta ter memória
E cantar de repente: “os arados van e vên
dende a Santiago a Belén”.
Os cardos, companheiro, a aspereza, o luto
A tua morte outra vez, a nossa morte, assim o mundo:
Deglutindo a palavra cada vez e cada vez mais fundo.
Que dor de te saber tão morto. Alguns dirão:
Mas está vivo, não vês? Está vivo! Se todos o celebram
Se tu cantas! ESTÁS MORTO. Sabes por quê?
“El passado se pone
su coraza de hierro
y tapa sus oídos
con algodón del viento.
Nunca podrá arrancársele
un secreto.”
E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos
Azuis, brancos e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!
Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados
De infância, o plexo aberto, exposto aos lobos. Irmão.
Companheiro. Que dor de te saber tão morto.
(Hilda Hilst, Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão – Poemas aos homens de nosso tempo – 1974)
XVII
____________________
Os juncos afogados
Um cão ferido
As altas paliçadas
Devo achar a palavra
Companheira do grito.
Um risco n´água
Um pássaro aturdido
Entre o capim e a estrada
Um grande girassol
Explodindo entre as rodas
Imagens de mim
Na caminhada.
(Hilda Hilst, Cantares de Perda e Predileção – 1983)
I
_____________________
Pés burilados
Luz-alabastro
Mandou seu filho
Ser trespassado
Nos pés de carne
Nas mãos de carne
No peito vivo. De carne.
Pés burilados
Fino formão
Dedo alongado agarrando homens
Galáxias. Corpo de homem?
Não sei. Cuidado.
Vive do grito
De seus animais feridos
Vive do sangue
De poetas, de crianças
E do martírio de homens
Mulheres santas.
Temo que se aperceba
De umas misérias de mim
Ou de veladas grandezas.
Soberbas
De alguns neurônios que tenho
Tão ricos, tão carmesins.
Tem esfaimada fome
Do teu lado que lateja.
Se tenho a pedir, não peço.
Contente, eu mais lhe agradeço
Quanto maior a distância.
E só porisso uma dança, vezenquando
Se faz nos meus ossos velhos.
Cantando e dançando, digo:
Meu Deus, por tamanho esquecimento
Desta que sou, fiapo, da terra um cisco
Beijo-te pés e artelhos.
Pés burilados
Luz-alabastro
Mandou seu filho
Ser trespassado
Nos pés de carne
Nas mãos de carne
No peito vivo. De carne.
Cuidado.
(Hilda Hilst, Poemas Malditos, gozosos e devotos – 1984)
domingo, 15 de janeiro de 2012
Meus Melhores Fragmentos - Hilda Hilst (parte um)
XII
_____________________
Dia doze ... e eu não suportarei
o estado normal das cousas.
O ano que vem, não vou desejar
Felicidades a ninguém.
Nem bom natal, nem boas entradas.
Meus amigos sabem de tudo o que eu sei.
E continuam a viver sem interrupção,
apressadamente como no ato de amor.
São doidos e não percebem que amanhã
Cristina não virá.
Que amanhã Cristina vai morrer
porque ama a vida.
Amanhã serei corajosamente Cristina
Eu, amando todos os que sofrem.
Eu ... essência.
Mas os meus amigos, coitados,
não percebem.
Fazem filhos nascer, fazem tragédia.
Não sabem que o amor não é amor
e a natureza é um mito.
Não sabem de nada os meus amigos.
E não vou explicar
porque podem ficar sentidos.
São puros, vão morrer como anjos.
Vão morrer sem nada saber
daqueles dias perdidos.
Vão morrer sem saber que estão morrendo.
(Hilda Hilst, Presságios – 1950)
I
_____________________
Eu cantarei os humildes
os de língua travada
e olhos cegos
aqueles a quem o amor feriu
sem derrubar.
Cantarei o gesto
dos que pedem e não alcançam
a resignação dos santos
o sorriso velado e inútil
dos homens conformados.
Eu cantarei os humildes
o homem sem amigos
o amante sem esperança
de retorno.
Cantarei o grito
de escuta universal
e de mistério nunca desvendado.
Serei o caminho
a boca aberta
os braços em cruz
a forma.
Para mim
virão os homens desconhecidos.
(Hilda Hilst, Balada de Alzira – 1951)
XI
_____________________
Tenho pena
das mulheres que riem com os braços
e choram de mentira para os homens.
E descobrem o seio antes do convite
e morrem no prazer ... olhos fechados.
Tenho pena
do poeta feito para só ser pai ... e ser poeta.
E daqueles que dormem sobre o papel
à espera do vocábulo
e dos que fazem filhos por acaso
e dos doidos e do cão que passa
E de mim ... que espero a morte
na confusão e no medo.
(Hilda Hilst, Balada do Festival – 1955)
Assinar:
Postagens (Atom)

















