domingo, 6 de janeiro de 2008

Outros Palimpsestos (O Amor Duplo)


OUTROS PALIMPSESTOS



Inventei umas asas para voar, e vôo.
Enxofre e rosa em meus lábios
.

Chuva de flechas e violinos.

Tarde-caída arroxeada e enlutada na praia,
os meus olhos ainda claros mirando serenos.

Noite. Insuportável de me ver. Olhos profundos
e selváticos, pêlos eriçados e um rugido n´alma.

O que me fascina é este espírito livre de lobo.
E nos madrigais cintilo coberto de sangue das caçadas.

Chuva de orvalhos e uivos. Pavor.

Carne aberta e quente, vulvas úmidas e olorosas,
azulidades e sombras, amor às duas amantes morenas.

E um rastro de límpido rio guarda as cavernas
rubro-róseas das voracidades gementes das feras.

No meu coração mora um sol morto. E um cavalo
sem ginete que me espera nas verdes tranças.

Enredado de recifes também lobo do mar eu sou,
triste em vão, às vezes mergulhado de estrelas.

E quando saem as duas pombas negras a cravarem-se
no meu peito, nunca me acham, nunca me têm.

E nesta taça brindada de cismas, que os cílios do bosque
são-me cúmplices, estraçalho os seus nus pescoços.

Àquela que se ergue com suas grandes tetas escuras
e a que mostra o caminho de pérola da nuca ao ventre.

Chuva sem vontade. Sem dor nem orquestra. Alheia.

E o que me persegue são borboletas malhadas de fogos,
minha eterna solidão de mar e lobo. Rosa e enxofre nos lábios.


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SERMO



Do que recrudesce da grama
úmida. morta.

Um cão azul lambe
o grosso filete
que inunda a visão dos umbrais.

Eu nunca-nascido-de-mim
com as chamas púrpuras em túmulos
doridos, ancião.

Eu senti o corte da lâmina anterior
a fronte se ergueu da seiva
de sangue da árvore agonizante.

Dintéis de ferro adormecidos
de pálpebras. As mãos desnudas
escorrendo pelo bosque violento
da cabeleira. Uma palavra metralhada
sem amor, arrancada da fina boca.

A asa molhada o sol esvoaçante
recolheram-se dentro da pelepenumbra
espessas grades até onde o coração
percebe, e treme. Apoiado nos joelhos
polimeria trovões eu-menino-desterrado

alquimista. vivo.
(Anderson Dantas, in O Amor Duplo e o desespero das águas, inédito)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Bertolt Brecht: combativo!



AOS QUE HESITAM



Você diz:
Nossa causa vai mal.
A escuridão aumenta. As forças diminuem.
Agora, depois que trabalhamos por tanto tempo
Estamos em situação pior que no início.

Mas o inimigo está aí, mais forte do que nunca.
Sua força parece ter crescido. Ficou com aparência de invencível.
Mas nós cometemos erros, não há como negar.
Nosso número se reduz. Nossas palavras de ordem
Estão em desordem. O inimigo
Distorceu muitas de nossas palavras
Até ficarem irreconhecíveis.

Daquilo que dissemos, o que é agora falso:
Tudo ou alguma coisa?
Com quem contamos ainda? Somos o que restou, lançados fora
Da corrente viva? Ficaremos para trás
Por ninguém compreendidos e a ninguém compreendendo?

Precisamos ter sorte?

Isto você pergunta. Não espere
Nenhuma resposta senão a sua.




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A QUEIMA DE LIVROS



Quando o regime ordenou que fossem queimados publicamente
Os livros que continham saber pernicioso, e em toda parte
Fizeram bois arrastarem carros de livros
Para as pilhas em fogo, um poeta perseguido
Um dos melhores, estudando a lista dos livros queimados
Descobriu, horrorizado, que os seus
Haviam sido esquecidos. A cólera o fez correr
Célere até sua mesa, e escrever uma carta aos donos do poder.
Queimem-me! Escreveu com pena veloz. Queimem-me!
Não me façam uma coisa dessas! Não me deixem de lado! Eu não
Relatei sempre a verdade em meus livros? E agora tratam-me
Como um mentiroso! Eu lhes ordeno:
Queimem-me!




(Bertolt Brecht, tradução de Paulo César de Souza)

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

e.e. cummings: o mais vivo de todos nós





o ódio sopra uma bolha de desespero na
vastidão do sistema do mundo do universo e explode
- o medo enterra um amanhã sob o desgosto
e o ontem chega mais verde e jovem

o prazer e a dor são apenas aparências
(um a si se mostrando,a si se escondendo outro)
o único e verdadeiro valor da vida nenhum é
o amor faz a pequena diferença das coisas

e se aqui vier um homem para receber da senhora morte
o agora sem nunca e a primavera sem inverno?
ela tecerá esse espírito com os seus próprios dedos
e dar-lhe-á nada(se ele não cantar)

como há tanto mais do que o suficiente para nós os dois
querida. E se eu cantar tu és a minha voz,



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da mentira do não
ergue-se a verdade do sim
(apenas ela e quem
ilimitavelmente é)

fazendo os loucos compreender
(como um invernoso eu)que todos
os afazeres da mente não
se comparam a uma violeta



(e.e. cummings, tradução de Cecília Rego Pinheiro)





29


por que haverá de em cada de um parque

ânus se erguer alguma aspas estátua aspas para
provar que um herói é igual a qualquer basbaque
que teve medo de ousar responder “não?”

aspas cidadãos aspas poderiam em vez dis
so esquecer (errar é humano; perdoar,
divino)que se aspas o estado aspas diz
“mate” matar é um ato de amor cristão.

“Nada”, em 1944 D C

“pode se contrapor ao argumento da ne
cessidade militar” (generalíssimo e)
e o eco responde “não há defesa

contra a razão” (freud) – a gente paga a despesa
mas não abre a boca. A liberdade não é uma beleza?




(e.e. cummings, tradução de augusto de campos)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

da idéia original sobre: uma carta talvez


A chuva
não tem pecado.

mas apunhala
as vidraças
pelas vidra_
ças

e onde quieta
debruça seu pranto
molhante

o que temos de original para hoje?
engasga-se nos becos
as lamas de sempre
e depois chega
o sol
um ator fanfarrão

que abafa um sopro

e depois mais um.

e uma criança queda no lavatório.

babujado pela baba
asquerosa de
deus.

no pulso não mais trago
o relógio retardante
pois as rodas correram léguas
e só para encontrar um rosto desconhecido

e ausente

não eram mais pássaros
no dia seguinte

e nem chovia
e nem fazia sol

o vento lambeu pele e mais
vento

deitou seu murmúrio
como uma música

acariciada.

Deu para avistar

um arco que divisava
a cidade

e depois um arco

que parecia ser de um
violino

de um negro e suas notas

nesse espelho ainda havia
um cavalo febril
que embalava seus cascos

e ainda o mar

para que não falte esse
salgado gosto
na garganta

pelos telhados
lavou-se o pó

e a bosta dos pássaros

a bendita chuva.

a lã era um vasto velo
entre rebanho
e campos de algodão

e o arco
e uma miséria sem blues.

E depois, se bem
me
lembro

não houve depois

tudo estava perto,
molhado,

em poças, em cadafalsos
em poços

sem ajustes de corda, sem pecado.


Anderson Dantas, Ilha, 27 Dezembro 2007 (chove na cidade)_

domingo, 11 de novembro de 2007

PAUL ÉLUARD, Algumas das palavras (trechos)


Tristeza de ondas de pedra.


Lâminas apunhalam lâminas
Vidros quebram vidros
Lâmpadas apagam lâmpadas.

Tantos laços quebrados.

A flecha e a ferida
O olho e a luz
A ascensão e a cabeça.

Invisível no silêncio.


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Vi o meu melhor amigo
Abrir nas ruas da cidade
Em todas as ruas uma noite
O extenso túnel do seu desgosto
E oferecer a
Todas as mulheres
Uma rosa privilegiada
Uma rosa de orvalho
Igual à embriaguez de ter sede
Humildemente lhes pedia
Que aceitassem
Esse pequeno miosótis
Rosa resplandecente e ridícula
Na sua mão inteligente
Na sua mão em flor
O medo a opressão a miséria


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14.

Párias a morte a terra e a fealdade
Dos nossos inimigos tem a cor
Monótona da nossa noite
Havemos de vencer.


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Pour donner à la femme
Méditative et seule
La forme dês caresses
Qu´elle a rêvées


_________________________________


Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trêmulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que me pesa
Torna a minha força suave e dura

Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.


(Paul Éluard, tradução de Antonio Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge)


sexta-feira, 9 de novembro de 2007

eu, monolito





sou-tenso

fincado, dura raíz.
e, como uma
fera,
reteso e estaco.

em pegada
estranha
sulco e terra

ágil e pesado
passo
e silêncio

não é pesar
não
me saber

pois
rito, grito
em nada explico

não
me saberás
nunca a contento

e muito menos
mão à petala

mas,
garra

mãos de pedra.
Anderson Dantas, Nov/07, Ilha.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

GENEALOGIA




mãos:
intenção

boca:
espanto

olhos:
lente

pés:
vôo

anjos:
homens

prisão:
mundo

deus:
mistério

grandeza:
todo

baixeza:
ato

espírito:
matéria

(Anderson Dantas, Ilha, Julho 2007)


domingo, 10 de junho de 2007

Ivan (Angelo), o Terrível




Transparências:
Transparências:
Transparências:
Transparências:

vitral vivo
visões triplexas
a forma informa
o choc do choque

vitríolo no vértice
verso e anverso
a força deforma
o ai do pai

vertigem
o olho deságua
o bago do olho
a face desfaz-se

no ventre da filha
na coxa na concha
o fio desfia
o pã da pancada

vislumbres
no cocho das coxas
(o pai desespai)
a uva da vulva

vitral decúbito
reflexos de flechas
o peito desfeito
o oh do homem

vara a vidragem
na racha roxa
o fecho desfecho
o hi do hímen

viragem
debaixo do cóccix
a filha desfolha
a fila do falo

vértice vertigem
nas duas feridas
a fila desfila
a fala do falo

volta voltagem
no basso no braço
a mama desmama
o tim do tímpano

ventríloquo informe
e daí o complexo
o preso desprezo
o nome da mãe

vislumbres dos idos
de lasso cabaço
o torque retorce
o au do pau

nos vidros e vividos
na baça vidraça
o laço desenlace
o rito do grito




Ivan Angelo, in A Casa de Vidro

quinta-feira, 7 de junho de 2007

QUANDO LYA ESCREVIA








Se te pareço ausente, não creias:
hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.



Lya Luft, A Sentinela

sexta-feira, 25 de maio de 2007

TUA CARA


Não cresci

para os arbustos

da tua cara.

sábado, 17 de março de 2007

WILLIAM BLAKE: Visionário e Satanista



Ah, Girassol

Ah, Girassol! giras no tédio do tempo
Do sol contando os passos
Buscas o dourado e doce campo
Luminoso rumo dos peregrinos



Tradução de Alberto Marsicano.



Manhã

Para achar a estrada do oeste
E ir pelos portais da ira
Eu me apresso.
Suave clemência me guia.
Com doce e penitente lamento
Vejo o romper do dia.

A guerra de sabres e espadas
Em lágrimas orvalhadas
Dissolve-se.
O sol, livre do medo,
Em pranto grato e meigo
Sobe no céu.



Tradução de Regina de Barros Carvalho



Uma Árvore de Veneno


Zanguei-me com meu amigo:
A ira cessou, eu a digo.
Com o inimigo zanguei-me:
A ira cresceu, eu calei-me.

E a reguei de alma sombria
Com meu pranto noite e dia;
E a expus ao sol de gentis
Risos e falsos ardis.

E cresceu noite e manhã,
Dando luzente maçã;
Ao ver o brilho que tinha,
E sabendo que era minha,

Veio o inimigo ao pomar
Após a noite tombar.
Bem cedo o vi, com agrado,
Ao pé da árvore estirado.



Tradução de Paulo Vizioli

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Suicídio


Gérard, Georg, Gogh,

dizei-me que há no paladar

deste doce alívio


intrincada dádiva

a agulha, a bala, a forca


rilham os dentes rubifulgentes

do Inferno, merencório Dante


escarificado em febre

a coragem me abandona


fruem colmadas

as árias nos penedos.

domingo, 21 de janeiro de 2007

Anna Akhmátova (Caderno Russo III)



RÉQUIEM: UM CICLO DE POEMAS
(1935-1940)


RÉQUIEM

Não, não foi sob um céu estrangeiro,
nem ao abrigo de asas estrangeiras –
eu estava bem no meio de meu povo,
lá onde o meu povo infelizmente estava.




PRÓLOGO

Houve um tempo em que só sorriam
os mortos, felizes em seu repouso.
E como um apêndice supérfluo, balançava
Leningrado, pendurada às suas prisões.
E quando, enlouquecidos pelo sofrimento,
os regimentos de condenados iam embora,
para eles as locomotivas cantavam
sua aguda canção de despedida.
As estrelas da morte pairavam sobe nós
e a Rússia inocente torcia-se de dor
sob as botas ensangüentadas
e os pneus das Marias Pretas.



EPÍLOGO


Aprendi como os rostos se desfazem,
como o pavor dardeja sob as pálpebras,
como a dor sulca a tabuinha do rosto
como seus rugosos caracteres cuneiformes,
como os cachos negros ou cinzentos
de um dia para o outro se prateiam,
como em lábios submissos o sorriso fenece
e, com um risinho seco, como se treme de medo.
E não é só por mim que rezo,
mas por todas as que estiveram lá comigo,
no frio selvagem, no tórrido mês de julho,
em frente à muralha rubra e cega.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Aleksandr Púchkin (Caderno Russo II)



INVOCAÇÃO



Ah! se é que, quando a repousar
À noite se acham os viventes.
E escorrem raios de luar
Nos túmulos dos mortos entes,
Ah! se é que, então, de fato, ali
Se esgota cada sepultura,
Minha voz Leila ora conjura:
A mim, amada, estou aqui!

Surge, visão do meu amor,
Como eras antes da partida:
Dia hibernal, frio e palor,
Mudada pela última lida.
Vem como estrela, imploro a ti,
Ou sopro, ou som mal perceptível,
Ou como aparição terrível,
Tanto me faz: estou aqui!

Invoco-te, mas não por ver
Vituperar quem, desumano,
Causou a amada me morrer,
Ou por alçar da morte o arcano,
Ou por que, alguma vez, senti
Dúvida ... mas, saudoso estando,
Digo que estou te amando,
Que sou teu todo: estou aqui!


1830

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Marina Tsvetáieva (Caderno Russo I)



Negra como pupila, como pupila sugando


Negra como pupila, como pupila sugando
Luz – amo-te, noite aguçada.

Dá-me voz para cantar-te, ó promadre
Das canções, em cuja palma há a brida dos quatro ventos.

Clamando-te, glorificando-te, sou apenas
A concha, onde ainda não calou o oceano.

Noite! Já gastei meus olhos nas pupilas do homem!
Encinera-me, negro sol – noite!



9 de agosto de 1916

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Do Ciclo Versos a Blok


Na mão, um pássaro que cala


Na mão, um pássaro que cala,
Teu nome – pedra de gelo na fala.
Um movimento de lábios, só.
Teu nome – quatro sons.
Uma bola em vôo apanhada,
Um guizo na boca, de prata.

Um seixo, atirado num lago calmo,
soluça assim, como te aclamo.
Ao leve tropel de casco noturno
Alto teu nome responde.
E o gatilho a estalar soturno
Lembra-o, em nossa fonte.

Teu nome – ah, não consigo! –
Teu nome – um beijo no ouvido.
No gelo terno de pálpebras rígidas,
Da neve é o beijo no mundo.
É um gole de fonte, azul e frígido.
Em teu nome – o sono é profundo.



15 de abril de 1916

(traduções de Aurora Bernardini)

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Encontro


Vou chegar tarde ao encontro marcado,
cabelos já grisalhos. Sim, suponho
ter-me agarrado à primavera, enquanto
via você subir de sonho em sonho.

Vou carregar esse amargo – por largo
tempo e muitos lugares, de penedos
a praças (como Ofélia – sem lámurias)
por corpos e almas – e sem medos!

A mim, digo que viva; à terra, gire
com sangue no bosque e sangue corrente,
mesmo que o rosto de Ofélia me espie
por entre as relvas de cada corrente,

e, amorosa sedenta, encha a boca
de lodo – oh, haste de luz no metal!
Não chega este amor à altura do seu
amor ... Então, enterre-me no céu!

(tradução de Décio Pignatari)

domingo, 26 de novembro de 2006

Ambiente Poético VI



a vantagem
dos homens ocos

é que não são ruidosos

aquilo que rói
é a verborragia

encerrada na poeira

guardar o silêncio
para o
futuro

geração destruída

sem sol.

vomitar estrelas
ruminando

os tempos.


(Anderson Dantas, inédito, 26 Novembro 2006)

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Ambiente Poético V

(FÉTICHE)

Vestiu apenas os pés

com uma fina pele negra

e embrenhou-se no bosque noctívago

entrecortada por nus impulsos

e flamando suas mazelas & vergastas

malsãs voragens de SANGUE

(Anderson Dantas, do livro Cavalos do Inferno)

domingo, 12 de novembro de 2006

Ambiente Poético IV



BARCOS ANCORADOS

(no momento da visão de um quadro)

Ó flecha marinha que no murmúrio se assenta!
É qual um arco distendido, adormecido sobre uma voz
onírica, clamante, embebida de sutil lume se ornamenta!...
É como um festejo de cores que o esgrimista pule
com um marejo nos olhos, faróis intensos e silentes
que vem despejar espelhos calmos e límpidos
em nossas dores, adeja à sala estreita em brancor
de nossa fronte, esta sabedoria inflamada, contente,
este fluxo latejante purpúreo e soberano e ah!
Gloriosas e voluptuosas crinas ondeantes!...


(Anderson Dantas, do livro O Amor Duplo e o Desespero das Águas)

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Ambiente Poético III



ANJO

(extrato)


Sem seu corpo ou maciez
Fui lançado às escarpas, sem mudez
Sem música, no vermelho das lágrimas

Foi quando o atirador de facas
me convidou para no circo
rolar sobre as feridas

E eu não pus nenhuma máscara
eu ria sobre meu túmulo
que apodrecia dentro de mim

E quando Satã soprou
seu vômito negro, eu estava
de saída para encontrar Pandora

E ela me puxou pra si
e me beijou as axilas
e cheirou minha alma de sete facas

Cravado de espinhos eu subi -
Ao monte. e morri. e nunca acordado
despi a bainha de meu jorro

Lá de cima eu fui.
Lá embaixo no inferno que suporto
Lá discípulo de sempre. ANJO.


Anderson Dantas, escritos esparsos, 2006.
Location:Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.

sábado, 4 de novembro de 2006

Ambiente Poético II




deita água na minha fronte.
e bebe.
desta fonte aqui onde
a carne molhada são papoulas.
isso.
papoulas mergulhadas.

veja isto. um poema.
se parece conosco minha criança querida
THE SLEEPERS ELM

AH, NÃO. NÃO.
parece assim que a vida é uma porcaria.
Sylvia Plath então, que horror. que horror.
deita água em minha fronte.
e deita.
isso.

não entendes? LAUTRÉAMONT-LOHENGRIN-LAFORGUE?
lábio língua labor.
que abismo de lábios que alar de línguas?
não entendes? escute

esquece isto.
vem. matar a sede das madrugadas.
passar o toque da seda
nas reentrâncias insabidas
olhos transidos êxtases coloridos
trator das unhas viajadas de carne

acompanha meus passos, não os do homem.
os do menino. do caprídeo. do longe.
que ao final deste percorrido, mundéu.
vasta sentinela de cabeleiras douradas
que poço eu sou que fundura tanta
que fundo eu sou poçura quanta
meu amor, diga-me sopre-me uns versos ...

eu não sei. não sei.
destas tuas cousas assim de poço.
água imunda eu acho.
cacho de frutas podres. às vezes doce?
doçura triste posso cantar?
miar? acho que minhas dores a Ti
parecem miados?
oh, como me deixas? traste, arraste
que vida! que vida!

(aperta as mãozinhas delicadas
de encontro ao rosto e chora
demoradamente)

devia ser uma blasfêmia MESMO
o pranto da mulher
que altura que baixeza
estas lágrimas de lodo & ouro
estas pupilas de rubi & vidro

estás zangado comigo não estás?
juro, te farei o melhor,
o que quiseres, me arrastarei
serei o mosaico e a cor buscada
a rajadas de vento furioso & grito
juro, te darei o meu pior,
os meus negrumes pintalgados
de açoite e lama-monstra
mas não te afastas e não te alastras
como o mar poesiatua NUNCAMAIS
POESIATUA assim é que me MATAS
ficaremos os dois em silêncio, que tal?
cataremos conchinhas arrancaremos
asinhas e anteninhas de rouxinol e besouro
mas, não mais cousas de dentro, te peço
deita água em minha fronte.
me come.
Te deleita.
amanhã carne molhada.
isso. bebe.
papoulas de sangue.
menino ...
mundéu. olhos de seda. poço.


Anderson Dantas, escritos esparsos, 2006.
Location:Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.


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