quinta-feira, 15 de novembro de 2012
HISPANISMOS: Cesar Vallejo
ESPERGÊNESE
Eu nasci um dia
em que Deus estava enfermo.
Todos sabem que vivo,
que sou mau: e não sabem
do dezembro desse janeiro.
Pois eu nasci um dia
em que Deus estava enfermo.
Existe um vazio
em meu ar metafísico
que ninguém pode tocar:
o claustro de um silêncio
que fala à flor de fogo.
Eu nasci um dia
em que Deus estava enfermo.
Irmão, escuta, escuta ...
Bem. E que eu não parta
sem levar dezembros,
sem deixar janeiros.
Pois eu nasci um dia
em que Deus estava enfermo.
Todos sabem que vivo,
que mastigo ... E não sabem
porque em meu verso gritam,
escuro ranço de féretro,
ventos esfregados,
desenroscados da Esfinge
indagadora do Deserto.
Todos sabem ... e não sabem
que a Luz é tísica
e a Sombra obesa ...
E não sabem que o Mistério sintetiza ...
que ele é o corcunda
musical e triste que à distância denuncia
a passagem meridiana dos limites aos Limites.
Eu nasci num dia
em que Deus estava enfermo,
enfermo grave.
(Tradução e notas: Thiago de Mello, 1984
Espergênese: antigo termo legal que significa a aprovação de uma condenação)
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Galeria Tátil II (Olhos da Alma)
(Galeria Tátil (Olhos da Alma) - CIC - MASC, Florianópolis, SC
Org. Juliana Hoffmann
Foto: Anderson Dantas)
Galeria Tátil (Olhos da Alma)
(Galeria Tátil (Olhos da Alma) - CIC - MASC, Florianópolis, SC
Org. Juliana Hoffmann
Foto: Anderson Dantas)
Galeria C. Ronald II
(Pã e o Jovem Poeta, em Exposição Pinturas e Esculturas C. Ronald - CIC - MASC,
Florianópolis, SC
Foto: Anderson Dantas)
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Galeria C. Ronald
(Amor, em Exposição Pinturas e Esculturas C. Ronald - CIC - MASC,
Florianópolis, SC
Foto: Anderson Dantas)
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
ORATÓRIO
Oratório
2ª. versão
Dieu des impuissants, Dieu des innocents
Dieu qui n´a plus d´occupation
Excepté celle de mourir.
Joyce Mansour
Ó Deus
lasso e do avesso
Tende piedade de mim
Com tuas imensas
mãos
Nas chagas
do meu corpo
Teu punhal
de carne
Atravessando
a origem
e o desvio
do Uno
Ó Deus
Grandioso e cruel
Tende piedade de nós
Com os teus olhares
abismosos
de carvão
Teus ouvidos -
radares da raça
Que apodrece
a campo.
Ó meu Deus
tão justo
Alça de tripa e metal
Coberto
de teus balbucios
TODA DOR
e cruz
Que nos tortura
a Todos.
Deus,
alçapão
e negror
de nossa Morte,
Dai-nos a Paz.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
HISPANISMOS: Vicente Huidobro
Canto II
(trechos)
____________________________
Eis-me
aqui perdido entre mares desertos
Só
como a pluma que cai de um pássaro na
noite
Eis-me
aqui numa torre de frio
Ao
abrigo da lembrança dos teus lábios marítimos
Da
lembrança de tuas complacências e de tua
cabeleira
Luminosa
e desatada como os rios de montanha
Irias
ser cega para que Deus te desse as mãos?
Pergunto-te
outra vez
O
arco de teus supercílios estendido para as armas
dos olhos
Na
ofensiva alada vencedora segura com
orgulhos de flor
Falam-te
por mim as pedras espancadas
Falam-te
por mim as ondas de pássaros sem céu
Fala-te
por mim a cor das paisagens sem vento
Fala-te
por mim o rebanho de ovelhas taciturnas
Adormecido
em tua memória
Fala-te
por mim o arroio descoberto
A
erva sobrevivente atada à aventura
A
aventura de luz e sangue de horizonte
Sem
mais abrigo que uma flor que se apaga
Se
há um pouco de vento
Eis-me
aqui tua estrela que passa
Com
tua respiração de fadigas distantes
Com
teus gestos e teu modo de andar
Com
o espaço magnetizado que te saúda
Que
nos separa com léguas de noite
No
entanto te advirto que estamos costurados
À
mesma estrela
Estamos
costurados pela mesma música estendida
De
um a outro
Pela
mesma sombra gigante agitada como árvore
Sejamos
este pedaço de céu
Este
trecho em que se passa a aventura misteriosa
A
aventura do planeta que estala em pétalas de
sonho
(Altazor, tradução de
Antonio Risério e Paulo César Souza, 1991)
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
A Poética do Silêncio
A Poética do Silêncio
___________________________________
UMA NOITE, assolado pela solidão e melancolia, comecei a assistir um filme, que era este, OPIUM, e coincidentemente, vinha ao meu encontro naquele momento, o mesmo sentimento do protagonista, que era a aridez para escrever. Algumas imagens do filme levaram-me a pressentir alguns poemas de Trakl, como se eu estivesse em Grodek, nas camas sujas improvisadas dos feridos de guerra, mutilados tanto na carne quanto psiquicamente.
Também lembrei da entrevista que Cioran concedeu a Sylvie Jaudeau, e que transcrevo aqui algumas passagens:
- Essa nostalgia precisamente é o fundamento da sua visão de mundo. Como o senhor a define?
- Esse sentimento está, em parte, ligado às minhas origens romenas. Lá, ele impregna toda a poesia popular. É um dilaceramento indefinível que se chama, em romeno, “dor”, próximo do “sehsucht” dos alemães, mas sobretudo da “saudade” dos portugueses.
- O senhor escreveu: "Existem três tipos de melancolia: russa, portuguesa e húngara".
- O povo mais melancólico que eu conheço é o húngaro; a música cigana serve de prova disso. Brahms, na juventude, fascinou-se por ela, de onde o charme insinuante de sua obra.
- Por que o senhor rompeu com a poesia?
- Por esgotamento interior, por enfraquecimento da minha capacidade de emoção. Chega um tempo em que se fica ressecado. O interesse pela poesia está ligado a essa frescura do espírito sem a qual rapidamente os artifícios são percebidos. O mesmo vale para a prosa. Na medida em que fico mais velho, escrever não me parece essencial. Livre de um ciclo de tormentos, descubro enfim a dor da capitulação. A rendição é a pior das superstições; sinto-me feliz de não ter sucumbido. Tenho imenso respeito pelos desistentes, os que tiveram coragem para apagar-se, sem deixar rastros.
- O senhor escreveu: "Existem três tipos de melancolia: russa, portuguesa e húngara".
- O povo mais melancólico que eu conheço é o húngaro; a música cigana serve de prova disso. Brahms, na juventude, fascinou-se por ela, de onde o charme insinuante de sua obra.
- Por que o senhor rompeu com a poesia?
- Por esgotamento interior, por enfraquecimento da minha capacidade de emoção. Chega um tempo em que se fica ressecado. O interesse pela poesia está ligado a essa frescura do espírito sem a qual rapidamente os artifícios são percebidos. O mesmo vale para a prosa. Na medida em que fico mais velho, escrever não me parece essencial. Livre de um ciclo de tormentos, descubro enfim a dor da capitulação. A rendição é a pior das superstições; sinto-me feliz de não ter sucumbido. Tenho imenso respeito pelos desistentes, os que tiveram coragem para apagar-se, sem deixar rastros.
- A sua verdade não reside no silêncio oposto hoje aos que ainda esperam livros do senhor?
- Talvez; mas se não escrevo mais, é por estar farto de caluniar o universo. Sou vítima de uma espécie de desgaste. A lucidez e a fadiga venceram-me – falo de uma fadiga filosófica tanto quanto biológica - , algo se rompeu em mim. Escreve-se por necessidade, e a lassitude elimina essa necessidade. Chega um tempo em que nada disso interessa mais. Em outras palavras, freqüentei pessoas em demasia que escreveram em excesso, obstinadas pela produção (...) Mas me parece que eu também escrevi demais. Um único livro teria bastado.
UMA NOITE em todas as noites, paira esse monstro da dúvida:
- Calar de vez ou escrever ainda?
Anderson Dantas - 2012
Eu moro numa Ilha.
sábado, 25 de agosto de 2012
HISPANISMOS: Juan Larrea
O MAR EM
PESSOA
Eis aqui o mar erguido em um abrir e
fechar de olhos
[
de pastor.
Eis aqui o mar sem sonho com um
grande medo de
[
trevos em flor.
E em postura de terra submissa ao
parecer
vão com suas lãs de evidência, sua
nuvem e seu labor.
Sob a sombra de um olmo nunca há
tempo a perder.
Crédula, esquisita, a escuridão sai
ao meu encontro.
Meu semblante abriga a casa do pão
que trago dentro
Cortado a golpe sobre um pássaro
inseguro.
E assim me afasto sob a ação do piano
que me costura nas plantas
precursoras do mar.
Um cervo do outono começa a lamber a
lua da tua
[
mão.
E agora à minha volta o mundo começa
a se desnudar
Para morrer de árvores ao fundo dos
meus olhos.
Meus cabelos se enchem de peixes de
penumbra
e de esqueletos de navios forçados
Sem ir mais longe,
tu és fria como o machado que abate o
silêncio
na luta entre a paisagem e seu golpe
de vista.
Mas quando o céu exporta seus
célebres pianistas
e a chuva o odor da minha pessoa,
como teu formoso coração se atraiçoa.
(Juan Larrea, tradução de C. Ronald)
sábado, 3 de março de 2012
Meus Melhores Fragmentos - Hilda Hilst (parte quatro)
I
Porque há desejo em mim tudo é cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.
(Hilda Hilst, Do Desejo, 1992)
IX
Amor chagado, de púrpura, de desejo
Pontilhado. Volto à seiva de cordas
Da guitarra, e recheio de sons o teu jazigo.
Volto empoeirada de vestígios, arvoredo de ouro
Do que fomos, gotas de sal na planície do olvido
Para reacender a tua fome.
Amor de sombras de ocasos e de ovelhas.
Volto como quem soma a vida inteira
A todos os outonos. Volto novíssima, incoerente
Cógnita
Como quem vê e escuta o cerne da semente
E da altura de dentro já lhe sabe o nome.
E reverdeço
No rosa de umas tangerinas
E nos azuis de todos os começos.
(Hilda Hilst, Amavisse, 1989)
XXXV
Ah, se eu soubesse de nuvens
Como te sei no hoje, morte minha,
Diria que me perseguem
Para escurecer
Essas caras de neve.
Diria que se detêm
Sobre a minha casa
Para ensombrar a alma. A minha.
E espalhadas
Diria que se avizinha
O cerco. A paliçada.
Que estou muda no além
Num sofrido perfil.
Nítida. Sozinha.
Se eu soubesse de nuvens
Como te sei
Não diria o que disse
Nem faria o poema. Olhava apenas.
(Hilda Hilst, Da Morte, Odes mínimas, 1980)
sábado, 28 de janeiro de 2012
Meus Melhores Fragmentos - Hilda Hilst (parte três)
Enrodilhado. Capa.
E ao mesmo tempo
Úmida carapaça.
Enrodilhado
Silvando
À espera da graça.
À espera, Senhor
Da tua mordedura.
Perseguido
E perseguidor
Ando colado à terra.
Mas num salto, Senhor,
(a tua mão aberta
à minha espera)
Posso chegar ao alto.
Se me sei perseguido
Posso te amar, buscando.
Se não te sei comigo
(só sabendo longe)
Não saberia buscar
Esse que só se esconde.
Grande Perseguidor
Foge comigo.
E gozosos gozaremos
Uma única viagem.
O ouro de Kadosh
Se não te sabe amigo
Se esfarela nos ares.
O ouro de Kadosh
É ouro dividido.
(Porque se vem à minha mão
Antes de mim, é teu)
Grande Perseguidor
Me faz teu perseguido.
Sorver
Tua rutilante intimidade.
E Kadosh prisioneiro
Contente de seu cárcere.
Amar seu tempo derradeiro.
Kadosh, rútilo brilhante
Meeiro da tua linguagem.
Arder para a eternidade.
Kadosh, búzio-bandeira
Espiralada eloqüência
No topo da tua cidade.
Reinventar o Sem-Nome
Cem mil dias debruçado
No teu passo e travessia.
E ser
Muito mais do que o vento
À volta do teu segredo.
E ser muito mais do que o mar:
Ser inteiro chamamento
Ser convés e marinheiro.
Dentro de ti navegar.
Não ser livre. Repousar
Na tua garra
E madrugada certa de saber
Parte
De tua rara medula.
E não ser triste
Porque tua luz demora.
Ser quase o impossível:
Sobra clara, esquiva
Do mundo permissível
(Esse mundo de luto
Lucidez sem aurora
Lusfer e aparência
Sombra escura)
Ser de Kadosh contente.
Larva
Que a si mesmo se elabora.
E desejar tua asa
Teu sopro fremente, teu gozo
Se se fizer a hora.
(Hilda Hilst, Kadosh – 1973)
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Meus Melhores Fragmentos - Hilda Hilst (parte dois)
IV
_____________________
A Federico Garcia Lorca
Companheiro, morto desassombrado, rosácea ensolarada
Quem senão eu, te cantará primeiro. Quem senão eu
Pontilhada de chagas, eu que tanto te amei, eu
Que bebi da tua boca a fúria de umas águas
Eu, que mastiguei tuas conquistas e que depois chorei
Porque dizias: “amor de mis entrañas, viva muerte”.
Ah, se soubesses como ficou difícil a Poesia.
Triste garganta o nosso tempo, TRISTE TRISTE
E mais um tempo, nem será licito ao poeta ter memória
E cantar de repente: “os arados van e vên
dende a Santiago a Belén”.
Os cardos, companheiro, a aspereza, o luto
A tua morte outra vez, a nossa morte, assim o mundo:
Deglutindo a palavra cada vez e cada vez mais fundo.
Que dor de te saber tão morto. Alguns dirão:
Mas está vivo, não vês? Está vivo! Se todos o celebram
Se tu cantas! ESTÁS MORTO. Sabes por quê?
“El passado se pone
su coraza de hierro
y tapa sus oídos
con algodón del viento.
Nunca podrá arrancársele
un secreto.”
E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos
Azuis, brancos e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!
Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados
De infância, o plexo aberto, exposto aos lobos. Irmão.
Companheiro. Que dor de te saber tão morto.
(Hilda Hilst, Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão – Poemas aos homens de nosso tempo – 1974)
XVII
____________________
Os juncos afogados
Um cão ferido
As altas paliçadas
Devo achar a palavra
Companheira do grito.
Um risco n´água
Um pássaro aturdido
Entre o capim e a estrada
Um grande girassol
Explodindo entre as rodas
Imagens de mim
Na caminhada.
(Hilda Hilst, Cantares de Perda e Predileção – 1983)
I
_____________________
Pés burilados
Luz-alabastro
Mandou seu filho
Ser trespassado
Nos pés de carne
Nas mãos de carne
No peito vivo. De carne.
Pés burilados
Fino formão
Dedo alongado agarrando homens
Galáxias. Corpo de homem?
Não sei. Cuidado.
Vive do grito
De seus animais feridos
Vive do sangue
De poetas, de crianças
E do martírio de homens
Mulheres santas.
Temo que se aperceba
De umas misérias de mim
Ou de veladas grandezas.
Soberbas
De alguns neurônios que tenho
Tão ricos, tão carmesins.
Tem esfaimada fome
Do teu lado que lateja.
Se tenho a pedir, não peço.
Contente, eu mais lhe agradeço
Quanto maior a distância.
E só porisso uma dança, vezenquando
Se faz nos meus ossos velhos.
Cantando e dançando, digo:
Meu Deus, por tamanho esquecimento
Desta que sou, fiapo, da terra um cisco
Beijo-te pés e artelhos.
Pés burilados
Luz-alabastro
Mandou seu filho
Ser trespassado
Nos pés de carne
Nas mãos de carne
No peito vivo. De carne.
Cuidado.
(Hilda Hilst, Poemas Malditos, gozosos e devotos – 1984)
domingo, 15 de janeiro de 2012
Meus Melhores Fragmentos - Hilda Hilst (parte um)
XII
_____________________
Dia doze ... e eu não suportarei
o estado normal das cousas.
O ano que vem, não vou desejar
Felicidades a ninguém.
Nem bom natal, nem boas entradas.
Meus amigos sabem de tudo o que eu sei.
E continuam a viver sem interrupção,
apressadamente como no ato de amor.
São doidos e não percebem que amanhã
Cristina não virá.
Que amanhã Cristina vai morrer
porque ama a vida.
Amanhã serei corajosamente Cristina
Eu, amando todos os que sofrem.
Eu ... essência.
Mas os meus amigos, coitados,
não percebem.
Fazem filhos nascer, fazem tragédia.
Não sabem que o amor não é amor
e a natureza é um mito.
Não sabem de nada os meus amigos.
E não vou explicar
porque podem ficar sentidos.
São puros, vão morrer como anjos.
Vão morrer sem nada saber
daqueles dias perdidos.
Vão morrer sem saber que estão morrendo.
(Hilda Hilst, Presságios – 1950)
I
_____________________
Eu cantarei os humildes
os de língua travada
e olhos cegos
aqueles a quem o amor feriu
sem derrubar.
Cantarei o gesto
dos que pedem e não alcançam
a resignação dos santos
o sorriso velado e inútil
dos homens conformados.
Eu cantarei os humildes
o homem sem amigos
o amante sem esperança
de retorno.
Cantarei o grito
de escuta universal
e de mistério nunca desvendado.
Serei o caminho
a boca aberta
os braços em cruz
a forma.
Para mim
virão os homens desconhecidos.
(Hilda Hilst, Balada de Alzira – 1951)
XI
_____________________
Tenho pena
das mulheres que riem com os braços
e choram de mentira para os homens.
E descobrem o seio antes do convite
e morrem no prazer ... olhos fechados.
Tenho pena
do poeta feito para só ser pai ... e ser poeta.
E daqueles que dormem sobre o papel
à espera do vocábulo
e dos que fazem filhos por acaso
e dos doidos e do cão que passa
E de mim ... que espero a morte
na confusão e no medo.
(Hilda Hilst, Balada do Festival – 1955)
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Nova Lei dos Dias
pisado e remontado
de pedra
uma após outra
e outra
comer o barro
das horas
a cimentura dos dias
É tudo.
(Anderson Dantas, 27/12/2011)
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
sábado, 5 de novembro de 2011
Renata Pallottini e o Cantar do Povo
ESSE TRABALHO LIMPO
Esse trabalho limpo de aprontar
as verduras e os caldos
e as carnes nos pratos
esse trabalho limpo de afastar
o capim do pé das árvores
esse esforço contínuo de tratar
as feridas das aves
e de juntar os ovos e contá-los
e de se preocupar porque não chove
isso arreda as loucuras aninhadas
na raiz dos cabelos e na nuca
e desfaz as canseiras do fundo dos olhos
e a dor tortuosa que há nas rugas
isso faz com que a gente não urine cianeto
e não cuspa mercúrio e não chore bromato
mas sim que tenha fome. Suspire, e tenha fome
e um macio cansaço na polpa do braço.
___________________________________________
NÃO É VERDADE
Não é verdade
não se pode ser que o Bem e o Mal
se equivalham.
Esta vontade áspera
de entender o passado
deve ter qualquer forma
qualquer significado.
Não gosto de sofrer
prefiro as festas.
Mas a vida é também o sangue
e a merda.
Não gosto de ver morrer
os agonizantes
mas a verdade é que eles só morreram
antes.
Não pode ser que tudo seja igual
que tanto faça.
Também eu gostaria de andar sobre as plumas,
mas este chão me queima as patas.
(Renata Pallottini - Reflexões sobre a Arte - livro Cantar Meu Povo, Massao Ohno, 1980)
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Aos escritores de blogs, por C. Ronald
Pra mim, o virtual é o esgoto onde ratos intelectuais trafegam. Portanto, o que escrevem (e como escrevem) é um sintoma grave de fim da humanidade doente, pois não entenderam o passado e querem abortar um presente que não chegará ao futuro. O mundo continuará. O humano sobrevivente será transformado em SER que será a salvação pra tudo que produzimos de verdadeiro. Na virtualidade, qualquer imbecil (e como existem e resistem) poderá dizer que o queijo foi feito de pneu estourado, mas nunca falará do chiclete que sairá da sua boca para grudar em nosso sentido humano.
(C. Ronald, em Agulhadas - livro Bichos Procuram buracos em paredes brancas, 2011)
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Carlos Nejar e a Árvore do Mundo
Mudei de não mudar
(fragmento III)
Se perguntas onde fui,
devo dizer: o mar.
Estive sempre ali,
mesmo estando a mudar.
Foi ali que escrevi
tua pele, teu suor.
Ao tempo, seus faróis.
Não mudei de mudar.
2
O que mudou em mim
senão andar mudando
sem nunca mais mudar?
Quem mudará em mim,
se não sei mudar?
3
Ou me mudei. Sou outro.
Outra ventura, outra
virtude, cadência,
remota criatura.
Então que se apresente.
Seja tenaz, plausível
esse rosto invisível e áspero
Mudei. Soprava o mar.
Mudei de não mudar.
(Carlos Nejar, Breve História do Mundo)
(minha definição de poesia)
a pedrapoesia
é matéria
não apreendida
de imediato
é o escuro mosto
d´oiro do vento
no rangido estriado
carne do sol
em pampa verde
e espírito luzido
nunca caçada à noite
é a ave muda
esbatendo no símbolo
jóia viva
enterrada em dia claro.
pelo fogo. pelo tempo.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
visão sete
visão sete
disse: dado acaso
um passo
a outro
caminhando sobre
um jardim de espinhos
eterno retorno
a uma chaga antiga
sinal perdido
entre pétalas sonhadas
disse: ressonância & dor
agonia consumada
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