sexta-feira, 25 de junho de 2010
XXIII
XXIII
A Marcos Emílio, in memoriam.
Porque conheço dos humanos
Cara, Crueza,
Te batizo Ventura
Rosto de ninguém
Morte-Ventura
Quando é que vem?
Porque viver na Terra
É sangrar sem conhecer
Te batizo Prisma. Púrpura
Rosto de ninguém
Ungüento
Duna
Quando é que vem?
Porque o corpo
É tão mais vivo quanto morto
Te batizo Riso
Rosto de ninguém
Sonido
Altura
Quando é que vem?
(Hilda Hilst, da morte. odes mínimas)
quarta-feira, 21 de abril de 2010
(DESDE O TEMPO EM QUE ENCONTRAMOS A LUZ)
(DESDE O TEMPO EM QUE ENCONTRAMOS A LUZ)
“escorre do charco da rocha
e agora descem com luzes à água
lanternas de remadores flutuam
a garra do mar as repele
jatos de água da rocha”
As bolhas rebentam em minhas mãos de mendigo.
Foi quando me prostituí nas ruas de Sodoma.
Eu me sinto só. no gelo que desce destas galerias escuras.
Fui carrasco nos tempos de artilharias e forcas. De serpes azuis.
Nas areias da consciência. nas batalhas da pátria morta.
A casa é um viveiro de aranhas. a cama um sineiro de putas.
Não só o silêncio se arrasta são pesadas as cortinas da sombra
o meu pescoço é um rio cortado de veias,
a cabeça desfaz-se num círculo de pássaros mudos de prata
Na altura das estrelas eu encontrei uma concha que ria do meu desespero
só o desespero das águas – ela me dizia – é o teu fértil e agudo e certo
arrepio de vida onde resgatas mais que uma maçã podre e uma criança
amorosa de leite e sumo-furtado; saberás roer teus medos na hora austera
agora que estás preparado de sangue e lodo, garimpeiro de álveos;
os mesmos que soprastes antes junto com Satã
- agora ele acende na fundura
não saberei decifrar mais uma esfinge travestida de nácar
“dois rios juntos peixe brilhante e sargaços
uma ninfa solitária na lagoa.”
Agora sou eu que perfuro no mergulho o saber que me dói de alma.
(Anderson Dantas – O Amor Duplo e o Desespero das Águas – inédito
Foto: auto-retrato)
sábado, 10 de abril de 2010
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
uma casa na estação
uma casa na estação
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(a hora do homem é a tapera dos ausentes)
aqui
no verão rubro
do peito
aqui
na chuva funda
que cintila
na pupila
e a alegria
infantil
que enche
os campos abertos
as ruínas
da casa
e dos lábios
que murmuram estórias
o olho azul
coleante
doce e severo
que geme nos eucaliptos
descaminhos
que dilaceram
tua perna
trilhos
enquanto sombras
fantasmas estalam
encilham
os cavalos
e desvelam os cães
de nossas
memórias mortas
(aqui
no verão fundo
de nossas chamas)
(Bagé (RS), 13 – 17/02/2010)
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
A LOUCURA, e seu gorro com guizos
Elogio da Loucura
(trecho)
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Não espero votos; não me enfureço; não reclamo oferendas expiatórias por um detalhe omitido num rito. Não revolto céus e terras, se convidaram os outros deuses, deixando-os em casa ou se não me deixam farejar o cheiro das vítimas. É tamanha a exigência das divindades neste ponto, que é mais vantajoso e seguro negligenciá-las do que servi-las; assim como existem homens de gênio tão ruim e tão fáceis de irritar que seria melhor ignorá-los completamente do que os ter como amigos.
Mas ninguém, dizem, oferece sacrifícios à Loucura, nem lhe ergue templos. Exato, e essa ingratidão, já vos disse, muito me surpreende; mas sou indulgente e levo as coisas pelo lado bom. Nem mesmo ligo para isso. Por que me importaria com um pouco de incenso ou um punhado de farinha sagrada, com um bode ou uma porca, quando em todos os lugares onde existem homens obtenho um culto que até os teólogos consideram excelente? Porventura, precisaria eu sentir ciúmes de Diana porque a reverenciam com sangue humano? Eu, de minha parte, acho-me perfeitamente servida por todos e em todos os lugares, quando os corações me possuem, os costumes me refletem e a vida é a minha imagem.
Este modo particular de um culto não é freqüente entre os cristãos. A maioria apresenta à Virgem, mãe de Deus, uma pequena vela em pleno dia, que não lhe serve para nada. Mas como são poucos os que se esforçam em imitar suas virtudes, a castidade, a modéstia, o amor das coisas divinas! Este é, entretanto, o verdadeiro culto, muito mais agradável aos habitantes do Céu. Por que ademais, iria eu desejar um templo, dispondo do mais belo de todos, já que tenho o universo?
Só eu, a Loucura, e mais ninguém, estou sempre pronta para distribuir indistintamente favores para todos os homens.
(Elogio da Loucura, Erasmo de Rotterdam, tradução de Maria Ermantina Galvão G. Pereira para a tradução de Pierre Noillac.
Imagem: desenho de Holbein)
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
BATAILLE MALDITO: o ateu místico
A confissão de Simone
e a missa de Sir Edmond
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(trechos)
Não é difícil imaginar o meu espanto. Simone atrás da cortina, ajoelhou-se. Enquanto ela cochichava, eu aguardava com impaciência os efeitos dessa travessura. O ser sórdido, cismava eu, pularia para fora de sua caixa, precipitando-se sobre a sacrílega. Nada de semelhante aconteceu. Simone falava baixinho, sem parar, diante da janelinha gradeada.
Avancei nas pontas dos pés.
Simone realmente se masturbava, colada entre as grades, o corpo tenso, as coxas afastadas, os dedos remexendo os pentelhos. Consegui tocá-la, minha mão alcançou o buraco entre as nádegas. Nesse momento, ouvi-a claramente pronunciar:
- Padre, ainda não disse o pior.
Seguiu-se um silêncio.
- O pior, padre, é que estou me masturbando enquanto falo com o senhor.
Mais alguns segundos, agora de cochichos. Finalmente, quase em voz alta:
Se não acredita, posso lhe mostrar.
E Simone se levantou, abrindo-se diante do olho da guarita, masturbando-se em êxtase, com a mão segura e rápida.
- E então, padreco – berrou Simone golpeando violentamente o armário - , o que você está fazendo no seu barraco? Batendo punheta também?
Mas o confessionário permanecia mudo.
- Então, eu vou abrir!
Lá dentro, o visionário sentado, de cabeça baixa, enxugava a testa encharcada de suor. A moça apalpou a batina: ele não reagiu. Ela arregaçou a imunda saia preta e tirou para fora um pau comprido, rosado e duro: ele se limitou a inclinar a cabeça para trás, com um trejeito e um zunido entre os dentes. Deixou Simone agir, e esta meteu a verga bestial na boca.
Sir Edmond e eu tínhamos ficado imóveis de espanto. O assombro me paralisava. Eu não sabia o que fazer, quando o enigmático inglês se aproximou. Afastou Simone com delicadeza. Depois, segurou o verme pelo pulso, arrancou-o para fora do buraco e o estendeu nas lajes, a nossos pés: o desprezível sujeito jazia feito morto pelo chão e a baba lhe escorria pela boca. O inglês e eu o transportamos, nos braços, para a sacristia.
De braguilha aberta, pau murcho, o rosto lívido, ele não ofereceu resistência, respirando com dificuldade; nós o jogamos numa poltrona de forma arquitetural.
- Señores – proferiu o miserável - , vocês acham que sou um hipócrita!
- Não – disse Sir Edmond, num tom categórico.
Simone perguntou-lhe:
- Como é o seu nome?
- Don Aminado – respondeu.
Simone esbofeteou a carcaça sacerdotal. Com o golpe, a carcaça enrijeceu novamente. Ele foi despido; Simone, de cócoras sobre as roupas jogadas no chão, mijou feito uma cadela. Em seguida, Simone masturbou o padre e o chupou. Eu enrabei Simone.
Passados alguns minutos, o inglês voltou à sala, trazendo consigo um cibório decorado com anjinhos nus como cupidos.
Don Aminado contemplava fixamente aquele recipiente de Deus colocado no chão; o seu belo rosto idiota, contorcido pelas mordidas com que Simone lhe excitava o pau, expressava um desvario absoluto.
O inglês tinha trancado a porta. Vasculhando os armários, encontrou um cálice grande. Pediu-nos que abandonássemos o miserável por uns instantes.
- Você está vendo – disse a Simone – estas hóstias no cibório e agora este cálice onde se coloca o vinho.
- Cheira a porra – disse ela, farejando os pães ázimos.
- Justamente – continuou o inglês - , estas hóstias que você está vendo são o esperma de Cristo transformado em bolinhos. E o vinho, os eclesiásticos dizem que é o sangue. Enganam-nos. Se fosse realmente o sangue, eles beberiam vinho tinto, mas só bebem vinho branco, porque sabem perfeitamente que se trata de urina.
A demonstração era convincente. Simone agarrou o cálice e eu me apoderei do cibório: Don Aminado na sua poltrona, foi percorrido por um ligeiro tremor.
Simone começou por lhe aplicar uma grande pancada na cabeça, com a base do cálice, que o excitou mas acabou de bestializá-lo. Chupou-o de novo. Ele emitiu gemidos desprezíveis. Ela o levou aos limites da fúria dos sentidos e então:
- Isso não é tudo – disse - , é preciso mijar.
Deu-lhe outra bofetada.
Despiu-se na frente dele e eu a masturbei.
O olhar do inglês estava tão duro, cravado nos olhos do jovem bestializado, que a coisa aconteceu sem dificuldade. Don Aminado encheu ruidosamente de urina o cálice que Simone mantinha sob seu cacete.
- E agora, beba – disse Sir Edmond.
O miserável bebeu num êxtase imundo.
Simone chupou-o de novo; ele urrou tragicamente de prazer. Com um gesto demente, atirou o penico sagrado, que rachou contra a parede. Quatro braços robustos o agarraram e, de pernas abertas, corpo quebrado, berrando como um porco, cuspiu sua porra nas hóstias do cibório que Simone segurava sob ele enquanto o masturbava.
(Georges Bataille, Histoire de l´oeil)
domingo, 3 de janeiro de 2010
o que eles querem
Vallejo escrevendo sobre
solidão enquanto morria de
fome;
a orelha de Van Gogh rejeitada por uma
puta;
Rimbaud correndo para a África
em busca de ouro e encontrando
um caso incurável de sífilis;
Beethoven ficou surdo;
Pound foi arrastado pelas ruas
numa gaiola;
Chatterton tomou veneno para rato;
o cérebro de Hemingway pingando dentro
do suco de laranja;
Pascal cortando os pulsos na banheira;
Artaud trancado com os loucos;
Dostoiévski de pé contra um muro;
Crane pulando na hélice de um barco;
Lorca baleado na estrada pelo exército
espanhol;
Berryman pulando de uma ponte;
Burroughs atirando na mulher;
Mailer esfaqueando a sua;
- é isso o que eles querem:
o danado dum show
uma placa luminosa
no meio do inferno.
é isso o que eles querem,
aquele bando de
estúpidos
inarticulados
tranqüilos
seguros
admiradores de
carnavais.
(Bukowski, tradução de Pedro Gonzaga)
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
SER ESTRANHO
SER ESTRANHO
(Letra: Casa Branca e Gandhula
Intérprete: Jessé)
Dentro de mim aparece as vezes
Uma mulher que me vive em segredo
Um ser estranho que até tenho medo
Que algum dia me expulse de mim
É mais doida, que a própria ferida
É mais calada que o próprio silencio
E tem a idade em que nada é proibido
Vive comigo dentro de mim
Corre pra dentro de mim
Como se eu fosse uma espécie de abrigo
Fala comigo tal qual a um amigo
E me aconselha a fazer tudo aquilo que a coragem não deixa fazer
Quando eu não faço ela faz
Quando eu não quero ela é audaz
Quando se zanga consegue o que quer
Às vezes me diz que não quer ser mulher
Mas sente falta de um homem qualquer
Essa mulher grita dentro de mim quando calo
Essa mulher chora dentro de mim quando canto
Essa mulher ri do meu sofrimento se amo
Essa mulher sai de dentro mim quando sonho
Essa mulher morre dentro de mim quando grito
Essa mulher me da sua mão quando sofro
Ela é tão "eu" que as vezes não sei quem é ela
É tão só que as vezes não sei se sou eu
Ela é a vida, é a morte doida
É doída como um corte no fundo do meu coração, coração, coração
Dentro de mim aparece em segredo
Uma mulher quem me vive às vezes
Um ser estranho que até tenho medo
Algum dia me expulse de mim
E algum dia me expulse de mim
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
JULES LAFORGUE escreveu e T.S. ELIOT imitou
MEDIOCRIDADE
No infinito coberto de eternas belezas,
Como átomo perdido, incerto, solitário,
Um planeta chamado Terra, dias contados,
Voa com os seus vermes sobre as profundezas.
Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho,
Marchando, indiferentes ao grande mistério,
E quando um dos seus é enterrado, já sérios,
Saudam-no. Do torpor não são arrancados.
Viver, morrer, sem desconfiar da história
Do globo, sua miséria em eterna glória,
Sua agonia futura, o sol moribundo.
Vertigens de universo, todo o céu só festa!
Nada, nada, terão visto. Partem do mundo
Sem visitar sequer o seu próprio planeta.
(Jules Laforgue – Litanias da Lua, tradução de Régis Bonvicino)
V. O que Disse o Trovão
(trechos)
Após a rubra luz do archote sobre as faces suadas
Após o gelado silêncio nos jardins
Após a agonia em regiões pedregosas
O clamor e a súplica
Cárcere palácio reverberação
Do trovão primaveril sobre longínquas montanhas
Aquele que vivia agora já não vive
E nós que então vivíamos agora agonizamos
Com um pouco de resignação.
Aqui não há água, mas apenas rocha
Rocha. Água nenhuma. E o caminho arenoso
O coleante caminho que sobe entre as montanhas
Que são montanhas de rocha inaquosa
Se houvesse água por aqui, nos deteríamos a bebê-la
Não se pode parar ou pensar em meio às rochas
Seco o suor nos poros e os pés postos na areia
Se aqui houvesse água em meio às rochas
Montanha morta, boca de dentes cariados que já não pode cuspir
Aqui não se fica de pé e ninguém se deita ou senta
Nem o silêncio vibra nas montanhas
Apenas o áspero e seco trovão sem chuva
Sequer a solidão floresce nas montanhas
Apenas rubras faces taciturnas que escarnecem e rosnam
A espreitar nas portas de casebres calcinados
Se houvesse água por aqui
E não rocha
Se aqui houvesse rocha
Que água também fosse
E água
Uma nascente
Uma poça entre as rochas
Se ao menos aqui se ouvisse um sussurro de água
(T. S. Eliot – A Terra Desolada, tradução de Ivan Junqueira)
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
o universo inteiro é um homem sentado
áspera
e nunca-espera
de barcos e pescadores
(ainda lembro
da tartaruga
morta)
o salobro canto
engasgado na garganta
o corte feio
abrindo a carne
o universo inteiro
é um homem
sentado
via espessa e líquida
de favo escuro
e inscrito:
manhã
nada mais a completa
tudo se
repete:
(Ilha, Pântano do Sul, 05 Dez 2009, 00:36)
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
OPUS INFERNAL e 2012
OPUS INFERNAL e 2012
O ANO é 2009. 19 de Novembro. Por volta das 16 horas, começam os sinais. Ventanias, trovões, intensa chuva, quedas de árvore e de postes, inundações, desabamentos, destelhamentos. Na Ilha da Magia, a terra das bruxas de Cascaes, a antiga Desterro, parece que vem abaixo.
A nova onda é a fatal inversão polar, prevista numa grande catástrofe em 2012. Pois eu a subverto. Eu reinvento a nova ordem. A revelação assintomática da INVERSÃO INFERNAL.
(Fotos do Lançamento do Livro OPUS INFERNAL e a Canção Branca, iniciado pontualmente às 19h30.
As imagens foram lindamente projetadas por Dienífer Bartnik)
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
terça-feira, 13 de outubro de 2009
TRÊS ANGÚSTIAS (à Francesa)
ANGOISSE
Não vim domar teu corpo esta noite, ó cadela
Que encerras os pecados de um povo, ou cavar
Em teus cabelos torpes a triste procela
No incurável fastio em meu beijo a vazar:
Busco em teu leito o sono atroz sem devaneios
Pairando sob ignotas telas do remorso,
E que possas gozar após negros enleios,
Tu que acima do nada sabes mais que os mortos:
Pois o Vício, a roer minha nata nobreza,
Tal como a ti marcou-me de esterilidade,
Mas enquanto teu seio de pedra é cidade
De um coração que crime algum fere como presas,
Pálido, fujo, nulo, envolto em meu sudário,
Com medo de morrer pois durmo solitário.
(Mallarmé, tradução de José Lino Grünewald)
L´ANGOISSE
Nada em ti me comove, Natureza, nem
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,
Nem pastorais do Sul, com o seu eco tão rubro,
A solene dolência dos poentes, além.
Eu rio-me da Arte, do Homem, das canções,
Da poesia, dos templos e das espirais
Lançadas para o céu vazio pelas catedrais.
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.
Não creio em Deus, abjuro e renego qualquer
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar
Dessa velha ironia a quem chamam Amor.
Já farta de existir, com medo de morrer,
Como um brigue perdido entre as ondas do mar,
A minha alma persegue um naufrágio maior.
(Verlaine, tradução de Fernando Pinto do Amaral)
ANGOISSE
Será possível que Ela me faça perdoar as ambições
continuamente esmagadas, - que um fim cômodo compense
as idades da indigência, - que um dia de êxito nos adormeça
sobre a vergonha de nossa fatal inabilidade.
(Ó palmas! diamante! – Amor! força! – mais alto que
todas as alegrias e glórias! – de qualquer modo, em toda parte,
- demônio, deus – Juventude desta criatura; eu!)
Que acidentes de magia científica e movimentos de
fraternidade social sejam prezados como restituição progressiva
da franqueza primeira? ...
Mas a Vampiro que nos torna gentis ordena que nos divirtamos
com o que ela nos deixa, ou que então sejamos mais esquisitos.
Rolar até as feridas, no ar fatigante e no mar; até os
suplícios, no silêncio das águas e do ar assassinos; até as torturas
que riem em seu silêncio atrozmente encapelado.
(Rimbaud, tradução de Ledo Ivo)
terça-feira, 22 de setembro de 2009
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
aqueles dias
aqueles dias
Ao irmão.
aqueles dias
de luta
de luto
(de vinho e chá escuro)
eu poderia te dizer um único verso:
fumo de tabaco rói o ar.
antes eu,
e dentro batia
no peito a rugir; filhote
de leão manso
dizem a cabeça pende
e hoje, irmão,
na caçada leão de juba
(juba grisalha e rala)
um poema, uma navalha
em lugar de uma carta
um sonho mesmo às escuras
e o som das metralhas
onde somente a rugir
ventania sul implacável
intermináveis chuvas a molhar os caminhos
tigre cerúleo
e quando a me lembrar
de ti, irmão, vinha-me
ira, Rússia, camponeses, vermelho.
meu irmão,
nossos irmãos, irmão de sangue
irmãos russos se esvaindo
como sementes leves
Maiakóvski, Marina, Iessiênin
suicidados poetas na margem dos melífluos enxurros
tu me dissestes: - esta noite eu corri
com os animais pela madrugada
me salvastes a vida, irmão.
...............................................................................
aqueles dias de luta
de luto
de pó e sangue escuro
diziam leão e tigre
rugidos esquecidos, extintos.
Anos
de servidão e de miséria
comandavam
nossa bandeira vermelha.
aqueles dias, irmão
Neve dos tempos.
(Ilha, 18/09/09, 14h10 e chove muito)
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Aleksiéi Krutchônikh (caderno russo IV)
FOME
Lavouras trigosas viraram lenda antiga ...
Tulhas de cereal estalam ressecadas
Campoentos madeireses transformados em tílias
Em lascas as maçãs das faces – magras ...
..........................................................
Na isbá, teto de furos e fumaça,
Cinco filhotes louro-palha
Esgazeiam olhos de pássaro,
Hoje sobre a mesa fumegam tigelas fartas! ...
- Comam deste guisado macio,
Mas comam tudo, sem deixar vestígio,
Senão aquele Silvano ruivo
(Cochila como um carneiro junto à porta do vizinho)
Vai carregar mamãe de mansinho ...
A mãe falou e saiu pé ante pé ...
As crianças rilhavam famintas.
De repente no caldeirão de viés
Viram braços boiando com tripas.
- Uh! Oh! – berram todas para a porta,
E agora em coro fazem: Ah!
A mãe lá estava – morta,
Pescoço azul enroscado em estopa!...
As crianças correram até a escarpa
- Carcaça semi-rota atrás chuchava sopa –
Sinal-da-cruz, e como lebres na água
Se atiram para braços que abraçam ...
O fato se passou perto da Páscoa ...
O sangue do assassinado voltado para cima
Pedia aos homens penitência e prece.
Junto ao muro do reino celeste
A alma da enforcada se reclina ...
(Aleksiéi Krutchônikh, 1920 – tradução de Haroldo de Campos e
Boris Schnaiderman)
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
PERSE e a Parede
A PAREDE
O laço da parede está em frente, para conjurar o círculo de
teu sonho.
Mas a imagem solta um grito.
A cabeça contra o descanso da poltrona gorda, examinas os
dentes com a língua: o gosto de gorduras e molhos infecciona-te as
gengivas.
E sonhas com as nuvens puras sobre tua ilha, quando a
aurora verde se elucida no seio das águas misteriosas.
... É o suor das seivas em exílio, o unto amargo das plantas
de síliquas, a acre insinuação das mangueiras carnudas e o ácido
deleite de certa substância negra nas vagens.
É o mel silvestre das formigas nas galerias da árvore morta.
É um sabor de fruto verde, que acidula a aurora que bebes; o
ar leitoso enriquecido com o sal dos alísios ...
Alegria! ó alegria desatada nas alturas do céu! Os panos
puros resplandecem, os adros invisíveis estão semeados de ervas e
as verdes delícias da terra penteiam-se ao século de um longo dia.
(Saint-John Perse, Imagens a Crusoé)
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