quarta-feira, 26 de novembro de 2008

GARCIA LORCA: O Poeta contra a tirania



[O CANTO QUER SER LUZ]


O canto quer ser luz.
No escuro o canto tem
fios de fósforo e lua.
A luz não sabe o que quer.
Em seus limites de opala,
encontra-se consigo mesma
e volta.



BACO


VERDE rumor intacto.
A figueira me estende os braços.

Como uma pantera, sua sombra
espreita a minha lírica sombra

A lua conta os cachorros
Equivoca-se e começa de novo.

Ontem, amanhã, negro e verde,
rondas meu cerco de lauréis.

Quem como eu te quereria,
se me mudasse o coração?

... E a figueira grita para mim e avança
terrível e multiplicada.




VÊNUS

Assim te vi


A jovem morta
na concha da cama,
despida de flor e brisa
surgia na luz perene.

Ficava o mundo,
lírio de algodão e sombra,
assomado às vidraças,
vendo o trânsito infinito.

A jovem morta
surcava o amor por dentro.
Entre a espuma dos lençóis
perdia-se a sua cabeleira.




DESPEDIDA


Se eu morrer,
deixai o balcão aberto.

O menino chupa laranjas.
(Do meu balcão eu o vejo.)

O segador sega o trigo.
(Do meu balcão eu o sinto.)

Se eu morrer,
deixai o balcão aberto!




Federico GARCIA LORCA – Canções

domingo, 26 de outubro de 2008

TODA MULHER



82.

nós que nos amávamos tanto
hoje estamos tão longe
sem rima, sem sono
nem lembro
de como eu te achava estranho

_________________________


165.


ele prefere as nórdicas
as ricas, as putas
as filhas das tias
letradas, peitudas
alunas da puc
solteiras, taradas
mulheres pudicas
peludas, escravas
as boas de cama
mulatas, mineiras
as freiras da itália
escocesas, peladas
as bem mal-amadas
aquelas que dizem te amo
e mais nada

________________________


178.

toda mulher tem um homem que se foi
um homem que a deixou por outra
um homem que a deixou por um câncer
um homem que nem mesmo a notou
um homem que a deixou por um ideal
um homem que sumiu num temporal
um homem que não passou de dois drinques
toda mulher tem um homem que se foi
um homem que foi pego em flagrante
um homem que prometeu um brilhante
um homem que saiu para jogar
toda mulher tem um homem
que esqueceu de voltar


(Martha Medeiros)


sexta-feira, 11 de julho de 2008

O velho Buk e o amor



como ser um grande escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil -
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada -

um gosto precoce de morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente -
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela
bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque

e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.


(Charles Bukowski, in O amor é um cão dos diabos)

sábado, 14 de junho de 2008

O objeto-fetiche




Em vez de auditivo ou cinestésico, o suporte de trabalho pode ser visual ou tátil. Neste caso, as possiblidades são infinitas.


Posso, por exemplo, começar com um objeto, natural ou artificial, que me represente ou "me interpele" e, depois, entrar em relação direta, visual, tátil ou verbal com este símbolo exterior de meu ser interior.


Posso falar com uma flor, um raminho, uma pedra, ou ainda com um ancinho ou uma terrina e expressar-lhe o que sinto ... e, depois, eventualmente, responder em seu lugar.


Joceline: - Escolhi esta velha roda de carrinho de mão que encontrei no galpão porque ela me lembrou imediatamente a liberdade, mas também a solidez ... Gosto de sua madeira marcada pelo tempo.


Terapeuta: - Você pode falar-lhe diretamente, em vez de falar dela para mim ou descrevê-la?


Joceline: - Eu gosto de você porque você teve uma vida bem cheia ... Você enfrentou obstáculos, sofreu, um dos seus raios está quebrado ... mas seu cubo central continua inteiro!... Sua madeira está apodrecendo ... e, no entanto, dá vida ao musgo ...


Terapeuta: - A roda poderia responder e falar?


Joceline - Sim! É verdade, já estou velha. Não sou mais rutilante como antes ... Mas esta pintura com que me cobriram em minha juventude não era eu verdadeiramente ... Me pintaram para atrair o jardineiro ... Mas isso não o impediu de me negligenciar! Ele acabou por me trocar por um carrinho mais moderno ... com um pneu oco, todo estufado de ar ... e se foi com ele ... (ela chora) ... Não importa! Segui meu caminho ... Ele me usou, mas não me amava verdadeiramente ... Agora sou livre ... Estou separada do corpo do carrinho, mas posso viajar sem parar" E, apesar da minha idade, ainda posso interessar as pessoas (ela chora de novo).



(Gestalt, Serge e Anne Ginger)

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Caio: pescador de sentidos



Mergulho II


Na primeira noite, ele sonhou que o navio começara a afundar. As pessoas corriam desorientadas de um lado para outro no tombadilho, sem lhe dar atenção. Finalmente conseguiu segurar o braço de um marinheiro e disse que não sabia nadar. O marinheiro olhou bem para ele antes de responder, sacudindo os ombros: “Ou você aprende ou morre”. Acordou quando a água chegava a seus tornozelos.
Na segunda noite, ele sonhou que o navio continuava afundando. As pessoas corriam de outro para um lado, e depois o braço, e depois o olhar, o marinheiro repetindo que ele ou aprendia a nadar ou morria. Quando a água alcançava quase a sua cintura, ele pensou que talvez pudesse a aprender a nadar. Mas acordou antes de descobrir.
Na terceira noite, o navio afundou.



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Nos poços


Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.



(Caio Fernando Abreu, in Pedras de Calcutá e O Ovo Apunhalado)

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

CADERNO EXPRESSIONISTA três





FIM DO MUNDO



O chapéu voa da cabeça do cidadão
Em todos os ares retumba-se gritaria.
Caem os telhadores e se despedaçam
E nas costas – lê-se – sobe a maré.

A tempestade chegou, saltam à terra
Mares selvagens que esmagam largos diques.
A maioria das pessoas tem coriza.
Os trens precipitam-se das pontes.



(Jakob Van Hoddis, 1911)





PROGRAMA



Não queremos poesia,
Queremos mágicas, artifícios,
Procuramos tapar na existência fatais vazios
E apesar de imenso esforço, uma atrofia.

Mas o que sabem vocês outros da secreta elevação,

Dos sagrados e histéricos soluços da garganta a chorar,
Quando, consumidos pelo haxixe da alma em imersão,
Beijamos o primeiro degrau, para além de cujo limiar
Os deuses moram?



(Wilhelm Klemm, 1915)





O PASSEIO



Tu, esses quartos
Fixos e as áridas ruas
E o rubro sol das casas,
A infame repugnância de todos
Os livros há muito já folheados –
Não os agüento mais.

Vem, precisamos sair da cidade
Para muito longe.
Vamos deitar-nos em
Suave gramado.
Ameaçadores e tão abandonados,
Contra o absurdamente grande,
Mortalmente azul, brilhante céu,
Levantaremos mãos choradas
E encantados,
Descarnados, apáticos olhos.



(Alfred Lichtenstein, 1913)





* Traduções de Claudia Cavalcanti.




domingo, 27 de janeiro de 2008

CADERNO EXPRESSIONISTA dois: Gottfried Benn


BELA JUVENTUDE



A boca de uma moça que há muito jazia em meio aos juncos
parecia toda ruída.
Quando abriram o peito, o esôfago era só buracos.
Acabaram achando num recanto embaixo do diafragma
um ninho de ratos jovens.
Uma das irmãzinhas pequenas morrera.
Os outros viviam do fígado e dos rins,
bebiam sangue frio e tinham
passado ali uma bela juventude.
E bela e pronta foi também a morte deles:
foram jogados todos juntos na água.
Ah, como os focinhinhos guinchavam!



(Gottfried Benn, tradução de Mario Luiz Frungillo e Luís Gonçales de Camargo)




NOIVA DE NEGRO



A nuca loura de uma mulher branca
repousava sobre uma almofada de sangue escuro.
O sol lhe maltratava os cabelos,
lambera longamente as coxas claras
e se ajoelhara junto dos seios, mais escuros,
ainda não desfigurados por vícios e partos.
Um negro ao seu lado: olhos e fronte
arrebentados por um coice de um cavalo. Havia
enfiado dois de seu imundo pé esquerdo
dentro da orelha branca e pequena dela.
Mas ela estava deitada e dormia como uma noiva:
às portas da felicidade do primeiro amor
o sangue quente e jovem na expectativa
de muitas viagens ao céu.

Até que lhe
afundassem o escalpelo na garganta branca,
e lhe atirassem um avental púrpura de sangue morto
à volta dos quadris.


(tradução de Mario Luiz Frungillo)





REQUIEM



Em cada mesa dois. Mulheres e homens entre-
cruzados. Sem tormento. E próximos e nus.
O peito esquartejado. O crânio aberto. O ventre
pela última vez agora a dar à luz.

Do cérebro aos testículos, cada um três malgas rentes.
E o templo de Deus e o estábulo infernal
agora peito a peito no chão da cuba, os dentes
a arreganhar prò Gólgota e a queda original.

O resto nos caixões. Tantos recém-nascidos:
cabelos de mulher, um peito de miúdo,
pernas de homem. De dois amantes prostituídos,
qual vindo de um só ventre, vi que ali estava tudo.



(tradução de Vasco Graça Moura)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

CADERNO EXPRESSIONISTA: Georg Trakl


IM DUNKEL



A alma silencia o azul da primavera.
Entre a úmida ramagem do ocaso,
freme a fronte dos amantes.

A cruz verdeja! Em escuro colóquio
conheceram-se homem e mulher.
No muro esquálido
o solitário vaga com seus astros.

Nas sendas do bosque, ao clarão da lua,
afundou na mata
de esquecidas caças; olhar do azul
irrompe das rochas em ruínas.


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DER SCHLAF


Malditos venenos escuros,
sono branco!
Este insólito jardim
de árvores crepusculares
cheio de cobras, borboletas noturnas,
aranhas, morcegos.
Forasteiro! Tua sombra errante
na tarde rubra,
um negro corsário
em mar de aflição e sargaço.
Esvoaçam brancas aves na beira da noite,
sobre cidades cindidas
de aço.


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KLAGE


Sono e morte, as águias sombrias
rondam-me a fronte a noite inteira:
a áurea imagem do homem
engole-a a onda fria
da eternidade. Em recifes medonhos
rompe-se o corpo purpúreo.
E queixa-se a voz escura
sobre o mar.
Irmã de imensa melancolia,
olha: um barco assustado naufraga
sob estrelas,
na face calada da noite.



(Georg Trakl, tradução de Marco Lucchesi, 1990)

sábado, 12 de janeiro de 2008

Non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere





1. não rir, não lamentar,
nem amaldiçoar, mas compreender.
(SPINOZA)

2. links.
linkar Lourenço, o cheiro do ralo.
Ernest Becker, Nietzsche,
Kierkegaard, eu
e outros jogos de armar.

3. Lourenço não gosta da noiva, nem dele, nem de ninguém.
presume-se que, quem não gosta de ninguém, não teme a
morte, nem mesmo se for uma facada no coração.
perdeu. dois balaços no peito.

4. sinto-me livre para fracassar.

5. mas, se não teme morrer, o que o torna
tão angustiado? a ausência? solidão?
talvez o nervo da angústia seja a perda do pai
morto na guerra (duvidosa e fantasiosa)
sua tentativa patética e simbólica
de reconstruí-lo.

6. Muitos morrem demasiado tarde e alguns
demasiado cedo. Ainda soa estranha a doutrina:
“Morre a tempo”!
Morre a tempo: é o que ensina Zaratustra.
Sem dúvida, quem nunca vive a tempo, como iria
morrer a tempo? Antes não tivesse nascido! – É assim
que aconselho os supérfluos.

7. Quem é Paula Braun? (que bela bunda!)

8. A INVEJA DO PÊNIS
A verdadeira ameaça que a mãe representa passa a ser
vinculada à sua evidente corporalidade. Seus órgãos genitais são
usados como um conveniente foco para a obsessão da criança
com o problema da corporalidade. Se a mãe é uma deusa da luz,
é também uma bruxa das trevas. A criança vê a ligação da mãe
com a terra, seus secretos processos corporais que a prendem à
natureza: o seio com seu misterioso leite viscoso, os odores e o
sangue menstruais, a quase contínua imersão da mãe produtiva
em sua corporalidade, e não menos – algo a que a criança é
muito sensível – o caráter muitas vezes neurótico e irremediável
dessa imersão.

9. A inveja do pênis, então, surge do fato de que os órgãos genitais
da mãe foram separados de seu corpo com uma focalização do
problema de degradação e vulnerabilidade. Bernard Brodsky
observa, sobre sua paciente: “Sua concepção da mulher como
fecal estimulara enormemente a sua inveja do pênis, já que o
pênis vigorosamente ereto era o antônimo das fezes mortas,
inertes”.

10. HUMANOS TOTAIS E HUMANOS PARCIAIS
É simplesmente o seguinte: de que adianta falar de “desfrutar
a nossa plena humanidade”, - como insiste Maslow,
acompanhado de tantos outros – se a “plena humanidade”
significa o desajuste primário em relação ao mundo? Se você se
livrar de sua couraça neurótica de quatro camadas, a armadura
que cobre a mentira caracterológica sobre a vida, como poderá
falar de “desfrutar” essa vitória de Pirro? A pessoa abre mão
de algo restritivo e ilusório, é verdade, mas apenas para se ver
face a face com algo ainda mais horrível: o desespero
autêntico. Plena humanidade significa pleno medo e pleno
tremor, pelo menos uma parte das horas em que o indivíduo
está acordado. Quando você faz com que uma pessoa surja
para a vida, longe de suas dependências, de sua segurança
automática, obtida ao abrigo do poder de outrem, que alegria
poderá prometer a essa pessoa, portadora do fardo de sua
solidão?

11. O tormento de Kierkegaard era o resultado direto de ver o
mundo tal como é na realidade em relação à sua situação
como criatura. A prisão do caráter da pessoa é
trabalhosamente construída para negar uma coisa, e apenas
uma coisa: a sua condição de criatura. Isso é o terror. Uma
vez admitido que é uma criatura que defeca, você convida o
oceano primitivo da angústia animal a desaguar sobre você.
Mas isso é mais que do que angústia da criatura, é também a
angústia do homem, a angústia que resulta do paradoxo
humano de que o homem é um animal cônscio de sua
limitação animal. A angústia é o resultado da percepção da
verdade de nossa condição. O que significa ser um animal
consciente de si mesmo? A idéia é absurda, se não for
monstruosa. Significa saber que se é alimento para os vermes.
Este é o terror: ter surgido do nada, ter um nome, consciência
de si mesmo, profundos sentimentos íntimos, uma torturante
ânsia íntima pela vida e pela auto-expressão – e, apesar de
tudo isso, morrer. Parece uma mistificação, que é o motivo
pelo qual certo tipo de homem cultural se rebela abertamente
contra a idéia de Deus. Que tipo de divindade iria criar um
alimento para vermes tão complexo e caprichoso? Divindades
cínicas, diziam os gregos, divindades que usam os tormentos
do homem para se divertirem.

12. Aquele que é educado pelo pavor (angústia) é educado pela
possibilidade (...) Quando essa pessoa, portanto, sai da escola
da possibilidade e sabe, com uma perfeição maior do que
aquela com que uma criança sabe o alfabeto, que não exige da
vida absolutamente nada e que o terror, a perdição e o
aniquilamento são vizinhos de todos os homens, e aprendeu a
lucrativa lição que cada terror que cause alarme poderá, no
momento seguinte, tornar-se uma realidade, irá interpretar a
realidade de maneira diferente. (...)

13. a vida é dura.


domingo, 6 de janeiro de 2008

Outros Palimpsestos (O Amor Duplo)


OUTROS PALIMPSESTOS



Inventei umas asas para voar, e vôo.
Enxofre e rosa em meus lábios
.

Chuva de flechas e violinos.

Tarde-caída arroxeada e enlutada na praia,
os meus olhos ainda claros mirando serenos.

Noite. Insuportável de me ver. Olhos profundos
e selváticos, pêlos eriçados e um rugido n´alma.

O que me fascina é este espírito livre de lobo.
E nos madrigais cintilo coberto de sangue das caçadas.

Chuva de orvalhos e uivos. Pavor.

Carne aberta e quente, vulvas úmidas e olorosas,
azulidades e sombras, amor às duas amantes morenas.

E um rastro de límpido rio guarda as cavernas
rubro-róseas das voracidades gementes das feras.

No meu coração mora um sol morto. E um cavalo
sem ginete que me espera nas verdes tranças.

Enredado de recifes também lobo do mar eu sou,
triste em vão, às vezes mergulhado de estrelas.

E quando saem as duas pombas negras a cravarem-se
no meu peito, nunca me acham, nunca me têm.

E nesta taça brindada de cismas, que os cílios do bosque
são-me cúmplices, estraçalho os seus nus pescoços.

Àquela que se ergue com suas grandes tetas escuras
e a que mostra o caminho de pérola da nuca ao ventre.

Chuva sem vontade. Sem dor nem orquestra. Alheia.

E o que me persegue são borboletas malhadas de fogos,
minha eterna solidão de mar e lobo. Rosa e enxofre nos lábios.


__________________________________________



SERMO



Do que recrudesce da grama
úmida. morta.

Um cão azul lambe
o grosso filete
que inunda a visão dos umbrais.

Eu nunca-nascido-de-mim
com as chamas púrpuras em túmulos
doridos, ancião.

Eu senti o corte da lâmina anterior
a fronte se ergueu da seiva
de sangue da árvore agonizante.

Dintéis de ferro adormecidos
de pálpebras. As mãos desnudas
escorrendo pelo bosque violento
da cabeleira. Uma palavra metralhada
sem amor, arrancada da fina boca.

A asa molhada o sol esvoaçante
recolheram-se dentro da pelepenumbra
espessas grades até onde o coração
percebe, e treme. Apoiado nos joelhos
polimeria trovões eu-menino-desterrado

alquimista. vivo.
(Anderson Dantas, in O Amor Duplo e o desespero das águas, inédito)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Bertolt Brecht: combativo!



AOS QUE HESITAM



Você diz:
Nossa causa vai mal.
A escuridão aumenta. As forças diminuem.
Agora, depois que trabalhamos por tanto tempo
Estamos em situação pior que no início.

Mas o inimigo está aí, mais forte do que nunca.
Sua força parece ter crescido. Ficou com aparência de invencível.
Mas nós cometemos erros, não há como negar.
Nosso número se reduz. Nossas palavras de ordem
Estão em desordem. O inimigo
Distorceu muitas de nossas palavras
Até ficarem irreconhecíveis.

Daquilo que dissemos, o que é agora falso:
Tudo ou alguma coisa?
Com quem contamos ainda? Somos o que restou, lançados fora
Da corrente viva? Ficaremos para trás
Por ninguém compreendidos e a ninguém compreendendo?

Precisamos ter sorte?

Isto você pergunta. Não espere
Nenhuma resposta senão a sua.




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A QUEIMA DE LIVROS



Quando o regime ordenou que fossem queimados publicamente
Os livros que continham saber pernicioso, e em toda parte
Fizeram bois arrastarem carros de livros
Para as pilhas em fogo, um poeta perseguido
Um dos melhores, estudando a lista dos livros queimados
Descobriu, horrorizado, que os seus
Haviam sido esquecidos. A cólera o fez correr
Célere até sua mesa, e escrever uma carta aos donos do poder.
Queimem-me! Escreveu com pena veloz. Queimem-me!
Não me façam uma coisa dessas! Não me deixem de lado! Eu não
Relatei sempre a verdade em meus livros? E agora tratam-me
Como um mentiroso! Eu lhes ordeno:
Queimem-me!




(Bertolt Brecht, tradução de Paulo César de Souza)

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

e.e. cummings: o mais vivo de todos nós





o ódio sopra uma bolha de desespero na
vastidão do sistema do mundo do universo e explode
- o medo enterra um amanhã sob o desgosto
e o ontem chega mais verde e jovem

o prazer e a dor são apenas aparências
(um a si se mostrando,a si se escondendo outro)
o único e verdadeiro valor da vida nenhum é
o amor faz a pequena diferença das coisas

e se aqui vier um homem para receber da senhora morte
o agora sem nunca e a primavera sem inverno?
ela tecerá esse espírito com os seus próprios dedos
e dar-lhe-á nada(se ele não cantar)

como há tanto mais do que o suficiente para nós os dois
querida. E se eu cantar tu és a minha voz,



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da mentira do não
ergue-se a verdade do sim
(apenas ela e quem
ilimitavelmente é)

fazendo os loucos compreender
(como um invernoso eu)que todos
os afazeres da mente não
se comparam a uma violeta



(e.e. cummings, tradução de Cecília Rego Pinheiro)





29


por que haverá de em cada de um parque

ânus se erguer alguma aspas estátua aspas para
provar que um herói é igual a qualquer basbaque
que teve medo de ousar responder “não?”

aspas cidadãos aspas poderiam em vez dis
so esquecer (errar é humano; perdoar,
divino)que se aspas o estado aspas diz
“mate” matar é um ato de amor cristão.

“Nada”, em 1944 D C

“pode se contrapor ao argumento da ne
cessidade militar” (generalíssimo e)
e o eco responde “não há defesa

contra a razão” (freud) – a gente paga a despesa
mas não abre a boca. A liberdade não é uma beleza?




(e.e. cummings, tradução de augusto de campos)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

da idéia original sobre: uma carta talvez


A chuva
não tem pecado.

mas apunhala
as vidraças
pelas vidra_
ças

e onde quieta
debruça seu pranto
molhante

o que temos de original para hoje?
engasga-se nos becos
as lamas de sempre
e depois chega
o sol
um ator fanfarrão

que abafa um sopro

e depois mais um.

e uma criança queda no lavatório.

babujado pela baba
asquerosa de
deus.

no pulso não mais trago
o relógio retardante
pois as rodas correram léguas
e só para encontrar um rosto desconhecido

e ausente

não eram mais pássaros
no dia seguinte

e nem chovia
e nem fazia sol

o vento lambeu pele e mais
vento

deitou seu murmúrio
como uma música

acariciada.

Deu para avistar

um arco que divisava
a cidade

e depois um arco

que parecia ser de um
violino

de um negro e suas notas

nesse espelho ainda havia
um cavalo febril
que embalava seus cascos

e ainda o mar

para que não falte esse
salgado gosto
na garganta

pelos telhados
lavou-se o pó

e a bosta dos pássaros

a bendita chuva.

a lã era um vasto velo
entre rebanho
e campos de algodão

e o arco
e uma miséria sem blues.

E depois, se bem
me
lembro

não houve depois

tudo estava perto,
molhado,

em poças, em cadafalsos
em poços

sem ajustes de corda, sem pecado.


Anderson Dantas, Ilha, 27 Dezembro 2007 (chove na cidade)_

domingo, 11 de novembro de 2007

PAUL ÉLUARD, Algumas das palavras (trechos)


Tristeza de ondas de pedra.


Lâminas apunhalam lâminas
Vidros quebram vidros
Lâmpadas apagam lâmpadas.

Tantos laços quebrados.

A flecha e a ferida
O olho e a luz
A ascensão e a cabeça.

Invisível no silêncio.


_________________________________


Vi o meu melhor amigo
Abrir nas ruas da cidade
Em todas as ruas uma noite
O extenso túnel do seu desgosto
E oferecer a
Todas as mulheres
Uma rosa privilegiada
Uma rosa de orvalho
Igual à embriaguez de ter sede
Humildemente lhes pedia
Que aceitassem
Esse pequeno miosótis
Rosa resplandecente e ridícula
Na sua mão inteligente
Na sua mão em flor
O medo a opressão a miséria


__________________________________



14.

Párias a morte a terra e a fealdade
Dos nossos inimigos tem a cor
Monótona da nossa noite
Havemos de vencer.


__________________________________
Pour donner à la femme
Méditative et seule
La forme dês caresses
Qu´elle a rêvées


_________________________________


Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trêmulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que me pesa
Torna a minha força suave e dura

Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.


(Paul Éluard, tradução de Antonio Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge)


sexta-feira, 9 de novembro de 2007

eu, monolito





sou-tenso

fincado, dura raíz.
e, como uma
fera,
reteso e estaco.

em pegada
estranha
sulco e terra

ágil e pesado
passo
e silêncio

não é pesar
não
me saber

pois
rito, grito
em nada explico

não
me saberás
nunca a contento

e muito menos
mão à petala

mas,
garra

mãos de pedra.
Anderson Dantas, Nov/07, Ilha.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

GENEALOGIA




mãos:
intenção

boca:
espanto

olhos:
lente

pés:
vôo

anjos:
homens

prisão:
mundo

deus:
mistério

grandeza:
todo

baixeza:
ato

espírito:
matéria

(Anderson Dantas, Ilha, Julho 2007)


domingo, 10 de junho de 2007

Ivan (Angelo), o Terrível




Transparências:
Transparências:
Transparências:
Transparências:

vitral vivo
visões triplexas
a forma informa
o choc do choque

vitríolo no vértice
verso e anverso
a força deforma
o ai do pai

vertigem
o olho deságua
o bago do olho
a face desfaz-se

no ventre da filha
na coxa na concha
o fio desfia
o pã da pancada

vislumbres
no cocho das coxas
(o pai desespai)
a uva da vulva

vitral decúbito
reflexos de flechas
o peito desfeito
o oh do homem

vara a vidragem
na racha roxa
o fecho desfecho
o hi do hímen

viragem
debaixo do cóccix
a filha desfolha
a fila do falo

vértice vertigem
nas duas feridas
a fila desfila
a fala do falo

volta voltagem
no basso no braço
a mama desmama
o tim do tímpano

ventríloquo informe
e daí o complexo
o preso desprezo
o nome da mãe

vislumbres dos idos
de lasso cabaço
o torque retorce
o au do pau

nos vidros e vividos
na baça vidraça
o laço desenlace
o rito do grito




Ivan Angelo, in A Casa de Vidro

quinta-feira, 7 de junho de 2007

QUANDO LYA ESCREVIA








Se te pareço ausente, não creias:
hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.



Lya Luft, A Sentinela

sexta-feira, 25 de maio de 2007

TUA CARA


Não cresci

para os arbustos

da tua cara.

sábado, 17 de março de 2007

WILLIAM BLAKE: Visionário e Satanista



Ah, Girassol

Ah, Girassol! giras no tédio do tempo
Do sol contando os passos
Buscas o dourado e doce campo
Luminoso rumo dos peregrinos



Tradução de Alberto Marsicano.



Manhã

Para achar a estrada do oeste
E ir pelos portais da ira
Eu me apresso.
Suave clemência me guia.
Com doce e penitente lamento
Vejo o romper do dia.

A guerra de sabres e espadas
Em lágrimas orvalhadas
Dissolve-se.
O sol, livre do medo,
Em pranto grato e meigo
Sobe no céu.



Tradução de Regina de Barros Carvalho



Uma Árvore de Veneno


Zanguei-me com meu amigo:
A ira cessou, eu a digo.
Com o inimigo zanguei-me:
A ira cresceu, eu calei-me.

E a reguei de alma sombria
Com meu pranto noite e dia;
E a expus ao sol de gentis
Risos e falsos ardis.

E cresceu noite e manhã,
Dando luzente maçã;
Ao ver o brilho que tinha,
E sabendo que era minha,

Veio o inimigo ao pomar
Após a noite tombar.
Bem cedo o vi, com agrado,
Ao pé da árvore estirado.



Tradução de Paulo Vizioli

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Suicídio


Gérard, Georg, Gogh,

dizei-me que há no paladar

deste doce alívio


intrincada dádiva

a agulha, a bala, a forca


rilham os dentes rubifulgentes

do Inferno, merencório Dante


escarificado em febre

a coragem me abandona


fruem colmadas

as árias nos penedos.

domingo, 21 de janeiro de 2007

Anna Akhmátova (Caderno Russo III)



RÉQUIEM: UM CICLO DE POEMAS
(1935-1940)


RÉQUIEM

Não, não foi sob um céu estrangeiro,
nem ao abrigo de asas estrangeiras –
eu estava bem no meio de meu povo,
lá onde o meu povo infelizmente estava.




PRÓLOGO

Houve um tempo em que só sorriam
os mortos, felizes em seu repouso.
E como um apêndice supérfluo, balançava
Leningrado, pendurada às suas prisões.
E quando, enlouquecidos pelo sofrimento,
os regimentos de condenados iam embora,
para eles as locomotivas cantavam
sua aguda canção de despedida.
As estrelas da morte pairavam sobe nós
e a Rússia inocente torcia-se de dor
sob as botas ensangüentadas
e os pneus das Marias Pretas.



EPÍLOGO


Aprendi como os rostos se desfazem,
como o pavor dardeja sob as pálpebras,
como a dor sulca a tabuinha do rosto
como seus rugosos caracteres cuneiformes,
como os cachos negros ou cinzentos
de um dia para o outro se prateiam,
como em lábios submissos o sorriso fenece
e, com um risinho seco, como se treme de medo.
E não é só por mim que rezo,
mas por todas as que estiveram lá comigo,
no frio selvagem, no tórrido mês de julho,
em frente à muralha rubra e cega.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Aleksandr Púchkin (Caderno Russo II)



INVOCAÇÃO



Ah! se é que, quando a repousar
À noite se acham os viventes.
E escorrem raios de luar
Nos túmulos dos mortos entes,
Ah! se é que, então, de fato, ali
Se esgota cada sepultura,
Minha voz Leila ora conjura:
A mim, amada, estou aqui!

Surge, visão do meu amor,
Como eras antes da partida:
Dia hibernal, frio e palor,
Mudada pela última lida.
Vem como estrela, imploro a ti,
Ou sopro, ou som mal perceptível,
Ou como aparição terrível,
Tanto me faz: estou aqui!

Invoco-te, mas não por ver
Vituperar quem, desumano,
Causou a amada me morrer,
Ou por alçar da morte o arcano,
Ou por que, alguma vez, senti
Dúvida ... mas, saudoso estando,
Digo que estou te amando,
Que sou teu todo: estou aqui!


1830

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Marina Tsvetáieva (Caderno Russo I)



Negra como pupila, como pupila sugando


Negra como pupila, como pupila sugando
Luz – amo-te, noite aguçada.

Dá-me voz para cantar-te, ó promadre
Das canções, em cuja palma há a brida dos quatro ventos.

Clamando-te, glorificando-te, sou apenas
A concha, onde ainda não calou o oceano.

Noite! Já gastei meus olhos nas pupilas do homem!
Encinera-me, negro sol – noite!



9 de agosto de 1916

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Do Ciclo Versos a Blok


Na mão, um pássaro que cala


Na mão, um pássaro que cala,
Teu nome – pedra de gelo na fala.
Um movimento de lábios, só.
Teu nome – quatro sons.
Uma bola em vôo apanhada,
Um guizo na boca, de prata.

Um seixo, atirado num lago calmo,
soluça assim, como te aclamo.
Ao leve tropel de casco noturno
Alto teu nome responde.
E o gatilho a estalar soturno
Lembra-o, em nossa fonte.

Teu nome – ah, não consigo! –
Teu nome – um beijo no ouvido.
No gelo terno de pálpebras rígidas,
Da neve é o beijo no mundo.
É um gole de fonte, azul e frígido.
Em teu nome – o sono é profundo.



15 de abril de 1916

(traduções de Aurora Bernardini)

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Encontro


Vou chegar tarde ao encontro marcado,
cabelos já grisalhos. Sim, suponho
ter-me agarrado à primavera, enquanto
via você subir de sonho em sonho.

Vou carregar esse amargo – por largo
tempo e muitos lugares, de penedos
a praças (como Ofélia – sem lámurias)
por corpos e almas – e sem medos!

A mim, digo que viva; à terra, gire
com sangue no bosque e sangue corrente,
mesmo que o rosto de Ofélia me espie
por entre as relvas de cada corrente,

e, amorosa sedenta, encha a boca
de lodo – oh, haste de luz no metal!
Não chega este amor à altura do seu
amor ... Então, enterre-me no céu!

(tradução de Décio Pignatari)

domingo, 26 de novembro de 2006

Ambiente Poético VI



a vantagem
dos homens ocos

é que não são ruidosos

aquilo que rói
é a verborragia

encerrada na poeira

guardar o silêncio
para o
futuro

geração destruída

sem sol.

vomitar estrelas
ruminando

os tempos.


(Anderson Dantas, inédito, 26 Novembro 2006)

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Ambiente Poético V

(FÉTICHE)

Vestiu apenas os pés

com uma fina pele negra

e embrenhou-se no bosque noctívago

entrecortada por nus impulsos

e flamando suas mazelas & vergastas

malsãs voragens de SANGUE

(Anderson Dantas, do livro Cavalos do Inferno)

domingo, 12 de novembro de 2006

Ambiente Poético IV



BARCOS ANCORADOS

(no momento da visão de um quadro)

Ó flecha marinha que no murmúrio se assenta!
É qual um arco distendido, adormecido sobre uma voz
onírica, clamante, embebida de sutil lume se ornamenta!...
É como um festejo de cores que o esgrimista pule
com um marejo nos olhos, faróis intensos e silentes
que vem despejar espelhos calmos e límpidos
em nossas dores, adeja à sala estreita em brancor
de nossa fronte, esta sabedoria inflamada, contente,
este fluxo latejante purpúreo e soberano e ah!
Gloriosas e voluptuosas crinas ondeantes!...


(Anderson Dantas, do livro O Amor Duplo e o Desespero das Águas)

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Ambiente Poético III



ANJO

(extrato)


Sem seu corpo ou maciez
Fui lançado às escarpas, sem mudez
Sem música, no vermelho das lágrimas

Foi quando o atirador de facas
me convidou para no circo
rolar sobre as feridas

E eu não pus nenhuma máscara
eu ria sobre meu túmulo
que apodrecia dentro de mim

E quando Satã soprou
seu vômito negro, eu estava
de saída para encontrar Pandora

E ela me puxou pra si
e me beijou as axilas
e cheirou minha alma de sete facas

Cravado de espinhos eu subi -
Ao monte. e morri. e nunca acordado
despi a bainha de meu jorro

Lá de cima eu fui.
Lá embaixo no inferno que suporto
Lá discípulo de sempre. ANJO.


Anderson Dantas, escritos esparsos, 2006.
Location:Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.

sábado, 4 de novembro de 2006

Ambiente Poético II




deita água na minha fronte.
e bebe.
desta fonte aqui onde
a carne molhada são papoulas.
isso.
papoulas mergulhadas.

veja isto. um poema.
se parece conosco minha criança querida
THE SLEEPERS ELM

AH, NÃO. NÃO.
parece assim que a vida é uma porcaria.
Sylvia Plath então, que horror. que horror.
deita água em minha fronte.
e deita.
isso.

não entendes? LAUTRÉAMONT-LOHENGRIN-LAFORGUE?
lábio língua labor.
que abismo de lábios que alar de línguas?
não entendes? escute

esquece isto.
vem. matar a sede das madrugadas.
passar o toque da seda
nas reentrâncias insabidas
olhos transidos êxtases coloridos
trator das unhas viajadas de carne

acompanha meus passos, não os do homem.
os do menino. do caprídeo. do longe.
que ao final deste percorrido, mundéu.
vasta sentinela de cabeleiras douradas
que poço eu sou que fundura tanta
que fundo eu sou poçura quanta
meu amor, diga-me sopre-me uns versos ...

eu não sei. não sei.
destas tuas cousas assim de poço.
água imunda eu acho.
cacho de frutas podres. às vezes doce?
doçura triste posso cantar?
miar? acho que minhas dores a Ti
parecem miados?
oh, como me deixas? traste, arraste
que vida! que vida!

(aperta as mãozinhas delicadas
de encontro ao rosto e chora
demoradamente)

devia ser uma blasfêmia MESMO
o pranto da mulher
que altura que baixeza
estas lágrimas de lodo & ouro
estas pupilas de rubi & vidro

estás zangado comigo não estás?
juro, te farei o melhor,
o que quiseres, me arrastarei
serei o mosaico e a cor buscada
a rajadas de vento furioso & grito
juro, te darei o meu pior,
os meus negrumes pintalgados
de açoite e lama-monstra
mas não te afastas e não te alastras
como o mar poesiatua NUNCAMAIS
POESIATUA assim é que me MATAS
ficaremos os dois em silêncio, que tal?
cataremos conchinhas arrancaremos
asinhas e anteninhas de rouxinol e besouro
mas, não mais cousas de dentro, te peço
deita água em minha fronte.
me come.
Te deleita.
amanhã carne molhada.
isso. bebe.
papoulas de sangue.
menino ...
mundéu. olhos de seda. poço.


Anderson Dantas, escritos esparsos, 2006.
Location:Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.


quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Ambiente Poético I


tantas jóias tontas tonturas tonterias
já rubi sangue vivo vermelhidão sim, jaspe e olhar
negro e escuridão tundras travas trevas troando
e olhar-réptil-esverdeado esmeralda até na garganta
girafas de ouro peixes de prata barcos de bronze
uns lábios de cobre acobreadas visões de deus doido
e abaixo umas pétalas de turmalina e vidro encerado
todas elas já falei muito que lumes pérfidos que.
e muito. cheio do saco. dos minerais. das gentes.

mas topázio?
topázio não.
vês?!
que jóia de palavra
topázio.

e agora que alegria em minhas
vísceras
topázio.
e agora
topázio isto topázio aquilo
topázio
que sonoridade! que som libera
que tigre libertário!

com as garras arranhando
as orquídeas e a oquidão

topázio tigre tantálico titã touro torneado que altura teu nome teu som vejam ouçam T-O-P-Á-Z-I-O separem seus quartos suas coalhadas leitosas-amarelentas nada NADA MAIS será como antes umas feridentas pintinhas nos olhos oleosos NADA como TOPÁZIO e topázio para salvar o mundo sem chances sem rumos sem beiras sem estradas e a cegueira do verme por baixo beijando beijando nada nada no esgoto sem riqueza somente a santidade topázio topázio negro topázio branco topázio de janelas feridas de dentes circunvoantes nas orelhas do lince lince (outra grande santidade!) vem vai voa cai quebra topázio terrume torrada carne e pesado afã vai vem para os tentáculos de titânio tensão brutal carne de pedra e raridade. bela palavra.

Anderson Dantas, escritos esparsos, 2006.
Location:Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

CORTÁZAR, O esmagamento das gotas



O esmagamento das gotas

Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore. Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada do cair e aniquilar-se. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.

domingo, 22 de outubro de 2006

ARTAUD, Carta ao Papa



Carta ao Papa

O confessionário não é você, oh Papa, somos nós; entenda-nos e que os católicos nos entendam.
Em nome da Pátria, em nome da Família, você promove a venda das almas, a livre trituração dos corpos.
Temos, entre nós e nossas almas, suficientes caminhos para percorrer, suficientes distâncias para que neles se interponham os teus sacerdotes vacilantes e esse amontoado de doutrinas afoitas das quais se nutrem todos os castrados do liberalismo mundial.
Teu Deus católico e cristão que, como todos os demais deuses, concebeu todo o mal:
1º. Você o enfiou no bolso.
2º. Nada temos a fazer com teus cânones, índex, pecado, confessionário, padralhada, nós pensamos em outra guerra, guerra contra você, Papa, cachorro.
Aqui o espírito se confessa para o espírito.
De ponta a ponta do teu carnaval romano, o que triunfa é o ódio sobre as verdades imediatas da alma, sobre estas chamas que chegam a consumir o espírito. Não existem Deus, Bíblia. Evangelho; não existem palavras que possam deter o espírito.
Nós não estamos no mundo, oh Papa confinado no mundo; nem a terra nem Deus falam de você.
O mundo é o abismo da alma. Papa caquético. Papa alheio à alma, deixe-nos nadar em nossos corpos, deixe nossas almas em nossas almas, não precisamos do teu facão de claridades.


(Antonin Artaud, tradução de Cláudio Willer)

Mais dos BEATS (uivos, de repente)



ESTOU FAZENDO MINETE NUMA BELEZA de mulher; é verão, estamos num quarto de sobrado que-não-sei-onde-fica, mas é perto da rua de Bunker Hill do Corcel Branco Indo para o Leste, onde, na noite anterior, andamos procurando um lugar escondido e escuro para trepar, na sombra enluarada de uma casa que puxava a nossa cama aberta, ou veículo; mas, depois de começar, percebendo que não era tão escuro assim e lá dentro da casa das tristes e quase imperceptíveis janelas vermelhas talvez nos estivessem vendo (alusões a Pauline Cole e eu, rindo na macia escuridão oral) – não sou rico, nem pobre ou feliz em matéria de amores. Agora estamos num quarto, de dia, e ela está sentada num banquinho que lembra o de ferro vermelho de Irene; e eu, de joelhos, gemendo diante dela, que retesa o corpo para trás, em êxtase, enquanto chupo e fodo – de repente me dou conta que um grupo de homens aglomerados no telhado da casa vizinha pode enxergar tudo, mas eles fingem que nem estão olhando no momento (passada a paixão, terminada a cegueira) em que levanto os olhos: no quarto há grandes janelas duplas que dão para todo o telhado – além disso, do outro lado do beco, uma mulher ficou dando risadas toda a manhã – vagamente, durante o ato, cheguei a pensar que fosse porque tinha nos visto, mas não me importei – No entanto, agora, ela ri enquanto me viro com malícia para todos os lados, em busca de possíveis observadores suspeitos, ali no quarto da eternidade com minha beldade nua –

(Book of dreams, Jack Kerouac)

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PARA JACK KEROUAC

Há alguns anos atrás, eu sonhava com panquecas em um lugar onde não havia nem papel higiênico.
Eu me queixei disso a Jack Kerouac por escrito.
Em resposta recebi uma carta falando de uma nova receita para panquecas conhecida, por coincidência, como HUNGRY JACK.
Ele não estava zombando de mim porque acabo de ver na TV um comercial que anuncia justamente esta marca, HUNGRY JACK.
Gostaria de aproveitar a ocasião para louvar este homem por sua honestidade e grande capacidade de observação.

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VIDE


O buraco negro vazio
Onde mamãe fala do frio
E eu não rio

Meu corpo vibrava
Um elefante dormia
Levaram minha mala e disseram que eu não girava

O que é que há com o meu rabo
Em Paris, eu tinha um rabo sem igual
Quando judeu me achava um intelectual


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TEORIAS NOTURNAS


Teorias noturnas desaparecem em atos de adultério.
A luz do dia se infiltra e os malabaristas filipinos
[somem.
O amigo do dia substitui o bandido da noite.
Nenhum papel a desempenhar. Aqui atos de
[de bravura valem pouco.
Vendo o obelisco em plena luz do dia.
Nenhum punho pela janela.


(Carl Solomon, em De repente, acidentes)


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Estão sentados numa cama baixa, coberta de seda branca. A garota abre as calças dele com dedos delicados e puxa fora seu peru, que é pequeno e duro. Como uma pérola, uma gota de lubrificante brilha em sua ponta. Ela acaricia a cabeça gentilmente: - Tire as roupas, Johnny! – Ele se despe com movimentos rápidos e seguros e fica nu de frente para ela, com o pau pulsando. Ela faz um gesto para que ele se vire, e ele pirueta pelo quarto, parodiando uma modelo, com a mão na cintura. Ela tira a blusa. Os seios são altos e pequenos, com bicos eretos. Tira suas calcinhas. Os pêlos púbicos são negros e brilhantes. Ele se senta a seu lado e estende a mão em direção ao seio. Ela detém as mãos dele.
- Querido, eu quero rodear você – sussurra ela.
- Não. Agora não.
- Por favor, eu quero.
- Está bem. Vou lavar a bunda!
- Não, deixe que eu lavo!
- Oh, esqueça, não está suja.
- Está, sim. Vamos, Johnny, venha!
Ela o leva até o banheiro. – Tudo bem, abaixe-se. – Ele cai de joelhos e se inclina para a frente, com o queixo no tapete do banheiro. – Por Alá – diz ele. Olha para trás e sorri para ela. Ela lava o cu dele com sabonete e água quente, enfiando o dedo bem dentro.
- Dói?
- Nãããããããão.
- Vamos, meu bem. – Ela o guia até o quarto de dormir. Ele se deita na cama de costas e joga as pernas por cima da cabeça, apertando os cotovelos por trás dos joelhos. Ela se ajoelha e acaricia a base de suas coxas, as bolas, correndo o dedo pela fenda eterna. Afasta as nádegas, inclina-se e começa a lamber o ânus, movendo a cabeça em círculos lentos. Pressiona as bordas do cu, lambendo mais fundo e mais fundo. Ele fecha os olhos e grunhe. Ela lambe a fenda eterna. As bolas pequenas e tesas... uma grande pérola aparece na ponta de seu pau circuncidado. Sua boca se fecha sobre a cabeça. Ela chupa ritmadamente para cima e para baixo, parando na subida e movendo a cabeça em volta num círculo. A garota brinca gentilmente com as bolas dele e desliza o dedo médio dentro do seu cu. Quando desce chupando até a raiz do membro, ela belisca sua próstata zombeteiramente. E o jovem sorri e peida. Ela está chupando o pau dele freneticamente. O corpo do garoto começa a se contrair, dobra-se em direção ao queixo. E cada vez a contração é mais prolongada. – Uiiiiii! grita ele, com todos os músculos tensos e o corpo inteiro, se esforçando para descarregar-se através do pau. Ela engole o esperma, que lhe enche a boca em jatos grandes e quentes. Ele deixa os pés caírem sobre a cama. Arqueia as costas e boceja.


(William Burroughs, in The naked lunch, trecho do texto A festa anual de A. J.)

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

BAUDELAIRE: O Patrono do Mal



A DESTRUIÇÃO

Sem cessar ao meu lado o Demônio se agita,
E nada ao meu redor como um ar impalpável;
Eu o levo aos meus pulmões, onde ele arde e crepita,
Inflando-os de um desejo eterno e condenável.

Às vezes, ao saber do amor que a Arte me inspira,
Assume a forma da mulher que eu vejo em sonhos,
E, qual Tartufo afeito às tramas da mentira,
Acostuma-me a boca aos seus filtros medonhos.

Ele assim me conduz, alquebrado e ofegante,
Já dos olhos de Deus afinal tão distante,
Às planícies do Tédio, infindas e desertas,

E lança-me ao olhar imerso em confusão
Trajes imundos e feridas entreabertas
- O aparato sangrento e atroz da Destruição!

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PROJÉTEIS E MEU CORAÇÃO A NU

O que é criado pelo espírito é mais vivo que a matéria.

O amor é o gosto de prostituir-se. Mesmo o prazer mais puro pode sempre conduzir a isso.

Que é a arte? Prostituição.

O amor pode provir de um sentimento generoso - o gosto de prostituir-se - mas logo é corrompido pelo gosto de propriedade.

O caráter profundo de algumas expressões vulgares: buracos que gerações sucessivas de formigas escavaram.

PROJÉTEIS, SUGESTÕES

O homem de letras também movimenta capitais e faz-nos desfrutar de uma certa ginástica do intelecto.

Amamos tanto mais as mulheres quanto mais estranhas elas nos parecem. Gostar de mulheres inteligentes e um prazer de pederasta. Por isso que a bestialidade exclui a pederastia.

O sentido do ridículo pode não excluir a caridade, mas isso é raro.

Da mulher. Ares.

Ares encantadores, que são fonte de beleza:

o ar saturado, o ar dominador

0 ar aborrecido, o ar voluntarioso,

o ar esgazeado, o ar perverso,

o ar indecente, o ar doentio,

o ar frio, o ar felino, misto de infantilidade,

o ar introvertido, de langor e de malícia.

MEU CORAÇÃO A NU

A mulher e o oposto do Dândi.

Deve pois nos causar repulsa.

A mulher tem fome e quer comer - sede, e quer beber.

No cio, quer ser comida.

Que glória!

A mulher é natural, isto é abominável.

Por isso mesmo ela é sempre vulgar, ou seja o contrário do Dândi.

Tornar-se um homem útil sempre me pareceu algo de muito detestável.

POLÍTICA

É por não ser ambicioso que não tenho convicções, como as entendem as pessoas do meu século.

Não há em mim qualquer base para uma convicção.

Há sempre uma certa covardia ou moleza nas pessoas de bem.

Só os aventureiros em convicções. De quê - De que têm de vencer. Por isso, vencem.

Por que eu venceria, se não tenho vontade de tentar?

Impérios esplendorosos podem assentar no crime, e nobres religiões em imposturas.

É preciso trabalhar, e se não for por gosto pelo menos por desespero; até porque, bem vistas as coisas, trabalhar é menos tedioso do que se divertir.

Imenso nojo dos cartazes.

O poeta, o padre e o soldado são a única coisa que ainda há de grandioso entre os homens: O homem que entoa o seu canto, o que abençoa, o que sacrifica e se sacrifica. O resto é feito para o chicote.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Orides Fontela: A Teia do Silêncio



PEDRA

A pedra é transparente:
o silêncio se vê
em sua densidade.

(Clara textura e verbo
definitivo e íntegro
a pedra silencia).

O verbo é transparente:
o silêncio o contém
em pura eternidade.

(Transposição, 1966-1967)

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O GATO

Na casa
inefavelmente
circulam olhos
de ouro

vibre ( em ouro) a
volúpia
o escuro tenso
vulto do deus sutil
indecifrado

na casa
o imperecível mito
se aconchega

quente (macio) ei-lo
em nossos braços:
visitante de um tempo sacro (ou de um não tempo).


(Helianto, 1973)

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NUDEZ


Ainda há maior nudez: barreira
ininterrupta do silêncio
guardando em si a evidência das formas.

Ainda há maior nudez: evidência
sem mais sinais
exata em sua luz interna.

Ainda há maior nudez: a luz
infinda simplicidade
sem apoio além de si mesma.


(Alba, 1983)

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ÁGUAS


amargas
cobrem o
barco

as águas
salobras
trazem
o dilúvio, o naufrágio, o necessário
batismo.


Através do
silêncio
cai a
água

filtra-se
através do ser
a inextinguível
água
do silêncio.


(Rosácea, 1986)

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Ezra Pound: scabrous arse-hole



(fragmentos do Canto XV)

O melífluo, deitado em glucose,
o pomposo em rama de algodão
com um pivete como as gorduras em Grasse,
o eminente escabroso olho do cu, cagando moscas,
retumbando com imperialismo,
urinol último, estrumeira, charco de mijo sem cloaca,
...... r menos tumultuoso, ....... Episcopus
...... sis,
de cabeça para baixo, atarraxada na lavadura,
as pernas oscilando e postulentas,
um protector de partes clerical suspenso para trás sobre
[o umbigo

o preservativo cheio de baratas,
tatuagens em volta do ânus,
e um círculo de damas jogadoras de golfe em roda dele.
os violentos corajosos
cortando-se com facas,
os covardes incitadores à violência
..... n e ....... h comidos por gorgulhos,
........ ll como um aborto inchado,
a besta das cem patas, USURA
e a lavadura cheia de mesureiros,
fazendo vénias aos senhores do sítio,
explicando as vantagens dele,
e os laudatores temporis acti
raclamando que a me ... costumava ser mais preta e mais rica
e os fabianos exigindo a petrificação da putrefação,
por uma caca nova em losangos,
os conservadores cavaqueando,
distinguiam-se por polainas de carne humana de bairro de lata.
e os apadrinhados num grandioso círculo,
lamentando-se de insuficiente atenção,
a procura sem fim, contraprotesto pelo folar que não veio
o litigioso,
um suor verde de fel, os proprietários das notícias, ... s
o anónimo

(tradução de Luísa MLQ Campos e Daniel Pearlman)

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FIGURA DE DANÇA

- para as bodas em Cananéia -

De olhos escuros,
Ó mulher de meus sonhos,
De sândalo e marfim,
Não há nenhuma igual entre as dançarinas,
Nenhuma com pés rápidos.

Não te encontrarei nas tendas
Na escuridão amortecida.
Não te encontrarei junto à nascente
Entre as mulheres com seus cântaros.

Como um renovo sob a cortiça são teus braços;
Tua face é como um rio com luzes.

Alvas como a amêndoa são tuas espáduas;
Como amêndoas recentes desnudadas da casca.
Não te defendem com eunucos
Nem com barras de cobre.

Ouro-turquesa e prata estão no lugar do teu repouso.
Uma escura veste, com fios de ouro em frisos
Colheste ao teu redor,
Ó Nathat-Ikanaie, "Árvore-ao-pé-do-rio."

Como um regato entre o junco são tuas mãos sobre mim;
Teus dedos ma gélida corrente.

Tuas servas são tão alvas como seixos.
Ah! sua música ao teu redor.

Não há nenhuma igual entre as dançarinas,
Nenhuma com pés rápidos.

(tradução de Augusto de Campos)



segunda-feira, 25 de setembro de 2006

Haroldo de Campos: entre Vênus e Minerva



poema qohelético 2: elogio da térmita

os cupins se apoderaram da biblioteca
ouço o seu áfono rumor
o canto zero das térmitas
os homens desertaram a biblioteca
palavras transformadas em papel
os cupins ocupam o lugar dos homens
gulosos de papel peritos em celulose
o orgulho dos homens se abate madeira roída

tudo é vão

a lepra dos cupins corrói o papel os livros
o gorgulho mina o orgulho
assim ficaremos cadáveres verminosos

escrevo este elogio da térmita

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o poeta ezra pound desce aos infernos


não para o limbo
dos que jamais foram vivos
nem mesmo
para o purgatório dos que esperam
mas para o inferno
dos que perseveram no erro
apesar de alguma contrição
tardia e da silente senectude
- diretamente com retitude -
o velho ez
já fantasma de si mesmo

e em tanta danação
quanto fulgor de paraíso

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mimnermo
tís dè bíos ...


que vida sem o consolo
de afrodite - ouro e crisólitos!
melhor morrer quando não mais
o mel do prazer a cripta
do amor furtivo a cama
me disserem: ama!

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a verdade


a verdade é o
delírio báquico:
nela nenhum elo
escapa à embriaguez
e como cada
um deles
ao se-
parar-se i-
mediatamente já se dis-
solve
ela é
igualmente a
paz
translúcida e
singela

sábado, 16 de setembro de 2006

SAMUEL BECKETT, A Companhia do Vazio


Quando estás perturbado, as contas simples são um conforto para ti. Um refúgio. No fim, chegas a sete metros cúbicos, aproximadamente. Mesmo imobilizado na escuridão intemporal, achas consolo nos números. Partes de um certo ritmo cardíaco e calculas quantas batidas por dia. Por semana. Por mês. Por ano. E calculando um certo tempo de vida, por toda a vida. Até a última batida. Mas, naquele momento, com pouco mais de setenta bilhões de batidas para trás, sentas-te na pequena cabana de verão, avaliando a cubagem. Sete metros cúbicos, aproximadamente. Por qualquer razão, isso te parece improvável e refazes as contas. Mas não tinhas ido muito longe, quando ouves seus passos leves. Leves para uma mulher daquela altura. Com o pulso acelerado abres os olhos e após um momento que parece uma eternidade, seu rosto surge à janela. Nessa posição, a palidez natural que tanto admiras quase toda azul, como, sem dúvida, tua palidez deve parecer-lhe completamente azul. Pois a palidez natural é uma característica que ambos têm em comum. Os lábios violeta não retribuem teu sorriso. Como essa janela está à altura de teus olhos, do lugar onde te sentas, e o chão, de qualquer forma, quase no mesmo nível do terreno do lado de fora, não podes deixar de imaginar se ela terá caído de joelhos. Sabendo, por experiência, que a altura e comprimento que têm em comum é a soma de segmentos iguais. Pois, quando de pé ou deitados, colam rosto com rosto, depois os joelhos se encontram, os púbis, e os cabelos das duas cabeças se misturam. Pode-se deduzir daí que a perda de altura do corpo sentado é a mesma que a daquele que se ajoelha? Nesse ponto, partindo do princípio de que a altura do assento é regulável, como no caso de certos tamboretes de piano, fechas os olhos para medir com uma medida mental e comparar o primeiro e segundo segmentos, isto é, da sola dos pés à rótula e dali à bacia. Como te entregavas, em movimento ou repouso, com os olhos cerrados em tuas horas de vigília! De dia e de noite. Àquela escuridão perfeita. Àquela luz sem sombras. Simplesmente partir. Ou ficar como agora. Surge uma única perna. Vista de cima. Separas os segmentos e os colocas lado a lado. É como quase presumiste. A parte superior é mais longa e a perda de altura de uma pessoa sentada é maior quando o assento está ao nível dos joelhos. Deixas os pedaços jogados por ali e abres os olhos, para encontrá-la sentada diante de ti. Tudo absolutamente imóvel. Os lábios rubros não retribuem teu sorriso. Teu olhar desce a seus seios. Não os recordavas tão grandes. Ao ventre. A mesma impressão. Que se mistura com a do ventre de teu pai forçando o cós desabotoado. Será possível que esteja grávida sem que tenhas, ao menos, pedido sua mão? Voltas-te para ti mesmo. Ela também fechou os olhos, advinhas. Assim ficam, sentados face a face, na pequena casa de verão. Com os olhos fechados e as mãos tocando o púbis um do outro. Naquela luz irisada. Naquele silêncio total


(Samuel Beckett, in The Company)

Állex Leila, a Herdeira


















Baile
por Állex Leilla

As coisas brincavam na sala
e eu não sabia o que eram;
dançavam na copa,
também na varanda,
no telhado também.
Uma coisa eu podia: ver.
E não havia outras dimensões.
Eram formas e movimentos,
sons, circunferências.
Só não tinha ali uma coisa: o saber.

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Vísceras [1]


Do pouco que me lembro da vida, não há muito o que destacar.
De madrugada a cidade ficava mais estranha ainda e da janela do meu quarto, na mais absurda solidão, eu podia ver uma claridade piscando atrás dos prédios e mesmo sabendo se tratar de uma antena de rádio ou de estação de TV, pensava desconexo: uma nave espacial por certo quer descer.
Porque talvez me fizesse bem pensar assim , não sei. Que mais poderia ser?
A dor incontrolável da perda de dentes. Os meus dentes cediam à uma força desconhecida e caíam ou inchavam sem piedade. O nariz sangrava, catarro grosso e complicado me saía pela boca, havia não sei quantos vírus nos pulmões.
Os lençóis imundos e suados, ocultando pra sempre os doces cheiros do tempo em que eram lavados: de lavanda e sabão em pó.
Meu movimento da cama pro banheiro, do banheiro pra cama, arrastando dores que eu não poderia realmente descrever.
A necessidade terrível de um copo de chocolate quente, fumegante, pra escaldar a língua e expulsar o podre dos dentes, das gengivas, do estômago. E cravo, cravos pra mastigar e desafogar a garganta, recuperar minha voz desaparecida, minha voz morta, enterrada dentro de mim.
Às vezes, havia estrelas no céu que me assustavam. Eu as encarava e com o passar dos segundos ia vendo-as se perderem sem explicação. Não caíam nem sumiam atrás de nuvens, simplesmente iam diminuindo até fugirem de vez e, nem mesmo com os óculos, eu as conseguia ver.
A janela ficava sempre aberta. E mesmo quando tinha chuva brava, não fechava nem me afastava, tomava-a inteirinha, os pingos entrando pelos poros da pele, piorando meu estado, mas me alegrando em parte.
Um olhar semimorto no espelho.
A pele manchada de marrom, pontinhos escuros que cresciam de um dia pro outro. Meu corpo descamando. Descarnando.
Ninguém. Ninguém. Ninguém.
A comida acabava aos poucos. Eu comia tão mínimo, umas migalhas de manhã, que duravam até o anoitecer. Mas mesmo assim acabava, ainda que todo o meu dinheiro, o último que pude ajuntar no tempo em que trabalhava, estivesse todinho lá, empregado nela, na maldita comida que minava.
Acabava e restava somente água na torneira.
Ninguém cortou a água nem me despejou, mas cortaram a luz e o telefone.
Num dia muito difícil, até quis pedir ajuda. Mas não podia mais andar e gritando não adiantava, a voz se tornara tão mínima que sumia logo debaixo do barulho lá de fora. E era, inclusive, tempo de sons pesados: caminhões, buzinas, gritos, falares ríspidos, carnaval, heavy, grunge, mangue-beat, apitos, ônibus, aparelhos comuns à construção civil, rádios AM/FM o dia inteiro, televisores na Globo, no SBT, na MTV, a cidade, enfim, toda ela, lá fora, bem longe do meu alcance.
No último momento de lucidez – uma lucidez embaçada, é verdade, mas a última –, me lembrei de uns versos de uma canção de infância:

Havia um patinho que vivia a nadar
saiu de dentro d’água e se pôs a cantar:
quá quá quá quá quá quá quá quá quá...
lá vem a cozinheira com o seu facão na mão
o pobre do patinho foi parar lá no fogão:
tchu tchu tchu tchu tchu tchu tchu tchu tchu tchu...

Não sei se era da minha infância, não sei se era coisa vista ou ouvida de outrem e guardada dentro de mim. Mas tentei, com tanta força, tão irresponsável violência, me lembrar dos últimos versos que completavam a canção, que, sem querer, ou querendo demais lá no pântano desconhecido de mim, BUM!, tudo se arrebentou nas têmporas, e eu fui, num segundo e de uma só vez, todo todo pelos ares.


Állex Leilla

[1] Publicado na Revista Iararana (Salvador/BA) em 1998.

terça-feira, 12 de setembro de 2006

NAURO MACHADO, O Netuno do Maranhão


(foto da Chapada das Mesas, MA)

AMPULHETA

Eis que já te acossa
o despojo de tudo.
Teu tempo é por demais
saciedade.

(Gasta, podre maçã,
desfaz-se no chão idêntico.)

Eternidade,
usufruto do tempo:
eis que te devora
o ludíbrio de vida.

(Do Frustrado Órfico, 1963)


O PÃO DOS MORTOS

(Deixai que os mortos
enterrem seus mortos.)

Eu, por mais que faça,
desenterro a graça
dos que pedem paz.
Eu, que lhes nego - e ao osso,
o eterno repouso

(a eles, sombra da água
que em nada deságua
e só pedem que
lhes deixemos ser
branco esquecimento);

eu, que lhes sepulto
- duas vezes - o vulto,
dando-os a mim
e dando-lhes fim,
eu, por mais que faça:

dou-lhes pão e desgraça.

(Ouro Noturno, 1965)


MATILHA

Vocábulo onde me faço
ladrão de uma ladra loba:
pudesse ser eu o regaço
que se nutre da tua boca
crepuscular, ladra e loba,
loba faminta que ladra
por sobre a orgânica estopa
que me cobre, enterra e tapa!

(A Vigésima Jaula, 1974)


MASMORRA DIDÁTICA

Poesia: idade-média
descacando a pele
da criatura humana,
para deixá-lo em osso
até o final dos tempos.

Invenção de verbo,
a poesia fede
a solidão humana
escovando o hálito
todas as manhãs.

(Por não ter um dente
ou residir em boca,
o dia se eterniza
sem as nossas fezes
e a nossa saliva.)

Poesia: idade-média,
idade da pedra,
idade de Adão.
Teu mundo amanhece
diariamente.

(Masmorra Didática, 1979)

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

HILDA HILST, A Dama Rara do Profundo



ODE FRAGMENTÁRIA (1961)

(Heróicas)


Morremos sempre.
O que nos mata
São as coisas nascendo:
Hastes e raízes inventadas
E sem querer e por tudo se estendendo
Rondando a minha
Subindo vossa escada.
Presenças penetrando
Na sacada.

Invasões urdindo
Tramas lentas.

Insetos invisíveis
Nas muradas.

Eis o meu quarto agora:
Cinza e lava.
Eis-me nos quatro cantos
(Morte inglória)
Morrendo pelos olhos da memória.
Aproximam-se.
E libertos de presença da carne
Se entreolham.

O teu nascer constante
Traz castigo.
Os teus ressuscitares
Serão prantos.

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TRAJETÓRIA POÉTICA DO SER (I)
(1963-1966)

11.

Cavalo, halo de memória, guardo-te no peito
Sobre esta grande artéria
Fonte de vida e alento que sustenta
Amor de madurez e adolescência.

Cantando-te sou teu corpo e tua nudez.
E ombro a ombro seguimos a alameda
Casco de dor num caminho de sol
E labareda, indivisível água
Obrigando-me a ver o que tu vês.

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ROTEIRO DO SILÊNCIO
(1959)


Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.

Os amantes no quarto
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido
Quero que saibam:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo silêncio.

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SOBRE A TUA GRANDE FACE


Hoje te canto e depois no pó que hei de ser
Te cantarei de novo. E tantas vidas terei
Quantas me darás para o meu outra vez amanhecer
Tentando te buscar. Porque vives de mim, Sem Nome,
Sutilíssimo amado, relincho do infinito, e vivo
Porque sei de ti a tua fome, tua noite de ferrugem
Teus pasto que é o meu verso orvalhado de tintas
E de um verde negro teu casco e os areais
Onde me pisas fundo. Hoje te canto
E depois emudeço se te alcanço. E juntos
Vamos tingir o espaço. De luzes. De sangue.
De escarlate.

sábado, 2 de setembro de 2006

Jim Morrison, o Poeta-lagarto do Rock



Chacal, farejamos a caravana dos sobreviventes.
Ceifa sangrenta nos campos de batalha.
Nenhum cadáver sacia nosso magro estômago.
A fome põe-nos na pista do cheiro.
Estrangeiro, viajante,
olha-nos nos olhos e traduz
o horrível latido dos cães do passado.

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Ave marinha murmúrio marinho
Rumor de sismo
Incensório de fogos-fátuos
Clamor das vagas
Estrada em serpentina
Até aos subterrâneos chineses
Habitáculo do vento
Deus do luto

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Cure blindness with a whore´s spittle.

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(Jim Morrison, in The Lords in The News Creatures)

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