sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Marina Tsvetáieva (Caderno Russo I)



Negra como pupila, como pupila sugando


Negra como pupila, como pupila sugando
Luz – amo-te, noite aguçada.

Dá-me voz para cantar-te, ó promadre
Das canções, em cuja palma há a brida dos quatro ventos.

Clamando-te, glorificando-te, sou apenas
A concha, onde ainda não calou o oceano.

Noite! Já gastei meus olhos nas pupilas do homem!
Encinera-me, negro sol – noite!



9 de agosto de 1916

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Do Ciclo Versos a Blok


Na mão, um pássaro que cala


Na mão, um pássaro que cala,
Teu nome – pedra de gelo na fala.
Um movimento de lábios, só.
Teu nome – quatro sons.
Uma bola em vôo apanhada,
Um guizo na boca, de prata.

Um seixo, atirado num lago calmo,
soluça assim, como te aclamo.
Ao leve tropel de casco noturno
Alto teu nome responde.
E o gatilho a estalar soturno
Lembra-o, em nossa fonte.

Teu nome – ah, não consigo! –
Teu nome – um beijo no ouvido.
No gelo terno de pálpebras rígidas,
Da neve é o beijo no mundo.
É um gole de fonte, azul e frígido.
Em teu nome – o sono é profundo.



15 de abril de 1916

(traduções de Aurora Bernardini)

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Encontro


Vou chegar tarde ao encontro marcado,
cabelos já grisalhos. Sim, suponho
ter-me agarrado à primavera, enquanto
via você subir de sonho em sonho.

Vou carregar esse amargo – por largo
tempo e muitos lugares, de penedos
a praças (como Ofélia – sem lámurias)
por corpos e almas – e sem medos!

A mim, digo que viva; à terra, gire
com sangue no bosque e sangue corrente,
mesmo que o rosto de Ofélia me espie
por entre as relvas de cada corrente,

e, amorosa sedenta, encha a boca
de lodo – oh, haste de luz no metal!
Não chega este amor à altura do seu
amor ... Então, enterre-me no céu!

(tradução de Décio Pignatari)

3 comentários:

Livros & Literatura disse...

Parabéns pelo blog, Anderson.

Interessante, atual, abordagem com sutil inteligência e sensibilidade.
Uma fonte de pesquisa literária. Um abraço! Marcela Vieira.

"Quantas pessoas começaram uma nova era em suas vidas a partir da leitura de um livro..... "

(Henry David Thoreau)

Diogo Costa disse...

Magistral cara. Interessante como há várias camadas nessas poesias. Vou estudar aqui.

Abraço,

Diogo Costa.

ricardo aquino disse...

Que bom ter me dado com seu blogger quando estou à espera do livro CORRESPONDÊNCIA A TRÊS - VERÃO DE 1926 (Rilke . Tsvetáieva. Pasternak). Continue esse duro ofício de buscar e presentiar os outros com páginas repletas de poesias.


com distinção
ricardo aquino

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