domingo, 9 de janeiro de 2011

GIORGOS SEFÉRIS, Vento Sul




















VII



Vento sul


Funde-se o mar, no ocaso, a uma cordilheira.
A nossa esquerda sopra o vento sul e nos transtornam
essas lufadas que arrancam os ossos da carne.
Nossa casa entre pinhais e alfarrobeiras.
Grandes janelas. Grandes mesas
onde escrever as cartas que estes meses todos
te escrevemos, cartas que atiramos
por cima da distância a preencher.

Estrela da manhã, quando baixaste o olhar
foram nossas horas mais doces do que o bálsamo
na ferida, mais risonha do que a água
fria no palato, mais serena do que as asas do cisne.
Tomavas nossa vida em tua palma
Depois do amargo pão da terra estranha
se ficamos de noite frente ao muro branco
tua voz se acerca como esperança de fogo
e esse vento novamente afia
uma navalha em nossos nervos.

Cada um de nós te escreveu as mesmas coisas
e silencia cada um diante do outro
olhando, cada um, o mesmo mundo à parte
a sombra e a luz na cordilheira
e a ti.
Quem arrancará este pesar de nosso coração?

Ontem à noite uma tempestade e hoje
Pesa de novo o céu enfarruscado. Nossos pensamentos
como as agulhas de pinheiro da tempestade de ontem
se acumulam à porta da casa e em vão querem
erguer uma torre que se abate.

Em meio a esses países dizimados
sobre este cabo varrido pelo vento sul
com a cordilheira que te oculta à nossa frente,
quem levará em conta nosso empenho de esquecer?
Quem aceitará nossa oferenda, neste fim de outono?



(Giorgos Seféris – Estória Mítica 1933-1934 – Tradução José Paulo Paes)

2 comentários:

daniel disse...

Foi com grande prazer que descobri este seu blog, no acaso das sucessivas pesquisas, e tornou-se para mim uma verdadeira revelação.
Continuarei a seguir a sua poesia...

com os meus respeitosos cumprimentos, aqui, deste lado do Atlântico,
Daniel Sousa

Mar Becker disse...

Que maravilha ter entrado neste blogue. Ainda não tinha lido nada desse poeta, muito bom!

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