sábado, 25 de agosto de 2012

HISPANISMOS: Juan Larrea


















O MAR EM PESSOA



Eis aqui o mar erguido em um abrir e fechar de olhos
                                               [ de pastor.
Eis aqui o mar sem sonho com um grande medo de
                                               [ trevos em flor.
E em postura de terra submissa ao parecer
vão com suas lãs de evidência, sua nuvem e seu labor.
Sob a sombra de um olmo nunca há tempo a perder.

Crédula, esquisita, a escuridão sai ao meu encontro.
Meu semblante abriga a casa do pão que trago dentro
Cortado a golpe sobre um pássaro inseguro.
E assim me afasto sob a ação do piano
que me costura nas plantas precursoras do mar.
Um cervo do outono começa a lamber a lua da tua
                                                                  [ mão.
E agora à minha volta o mundo começa a se desnudar
Para morrer de árvores ao fundo dos meus olhos.

Meus cabelos se enchem de peixes de penumbra
e de esqueletos de navios forçados

Sem ir mais longe,
tu és fria como o machado que abate o silêncio
na luta entre a paisagem e seu golpe de vista.

Mas quando o céu exporta seus célebres pianistas
e a chuva o odor da minha pessoa,
como teu formoso coração se atraiçoa.




(Juan Larrea, tradução de C. Ronald)

sábado, 3 de março de 2012

Meus Melhores Fragmentos - Hilda Hilst (parte quatro)


I


Porque há desejo em mim tudo é cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.


(Hilda Hilst, Do Desejo, 1992)



IX

Amor chagado, de púrpura, de desejo
Pontilhado. Volto à seiva de cordas
Da guitarra, e recheio de sons o teu jazigo.
Volto empoeirada de vestígios, arvoredo de ouro
Do que fomos, gotas de sal na planície do olvido
Para reacender a tua fome.

Amor de sombras de ocasos e de ovelhas.
Volto como quem soma a vida inteira
A todos os outonos. Volto novíssima, incoerente
Cógnita
Como quem vê e escuta o cerne da semente
E da altura de dentro já lhe sabe o nome.

E reverdeço
No rosa de umas tangerinas
E nos azuis de todos os começos.


(Hilda Hilst, Amavisse, 1989)


XXXV


Ah, se eu soubesse de nuvens
Como te sei no hoje, morte minha,
Diria que me perseguem
Para escurecer
Essas caras de neve.
Diria que se detêm
Sobre a minha casa
Para ensombrar a alma. A minha.
E espalhadas
Diria que se avizinha
O cerco. A paliçada.
Que estou muda no além
Num sofrido perfil.
Nítida. Sozinha.

Se eu soubesse de nuvens
Como te sei
Não diria o que disse
Nem faria o poema. Olhava apenas.


(Hilda Hilst, Da Morte, Odes mínimas, 1980)

sábado, 28 de janeiro de 2012

Meus Melhores Fragmentos - Hilda Hilst (parte três)



















Enrodilhado. Capa.
E ao mesmo tempo
Úmida carapaça.
Enrodilhado

Silvando
À espera da graça.
À espera, Senhor
Da tua mordedura.

Perseguido
E perseguidor
Ando colado à terra.
Mas num salto, Senhor,
(a tua mão aberta
à minha espera)
Posso chegar ao alto.

Se me sei perseguido
Posso te amar, buscando.
Se não te sei comigo
(só sabendo longe)
Não saberia buscar
Esse que só se esconde.

Grande Perseguidor
Foge comigo.
E gozosos gozaremos
Uma única viagem.
O ouro de Kadosh
Se não te sabe amigo
Se esfarela nos ares.

O ouro de Kadosh
É ouro dividido.
(Porque se vem à minha mão
Antes de mim, é teu)
Grande Perseguidor
Me faz teu perseguido.

Sorver
Tua rutilante intimidade.
E Kadosh prisioneiro
Contente de seu cárcere.
Amar seu tempo derradeiro.
Kadosh, rútilo brilhante
Meeiro da tua linguagem.

Arder para a eternidade.
Kadosh, búzio-bandeira
Espiralada eloqüência
No topo da tua cidade.

Reinventar o Sem-Nome
Cem mil dias debruçado
No teu passo e travessia.

E ser
Muito mais do que o vento
À volta do teu segredo.
E ser muito mais do que o mar:

Ser inteiro chamamento
Ser convés e marinheiro.

Dentro de ti navegar.

Não ser livre. Repousar
Na tua garra
E madrugada certa de saber
Parte
De tua rara medula.

E não ser triste
Porque tua luz demora.
Ser quase o impossível:
Sobra clara, esquiva
Do mundo permissível
(Esse mundo de luto
Lucidez sem aurora
Lusfer e aparência
Sombra escura)

Ser de Kadosh contente.
Larva
Que a si mesmo se elabora.
E desejar tua asa
Teu sopro fremente, teu gozo

Se se fizer a hora.


(Hilda Hilst, Kadosh – 1973)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Meus Melhores Fragmentos - Hilda Hilst (parte dois)



















IV


_____________________


                                                        A Federico Garcia Lorca



Companheiro, morto desassombrado, rosácea ensolarada
Quem senão eu, te cantará primeiro. Quem senão eu
Pontilhada de chagas, eu que tanto te amei, eu
Que bebi da tua boca a fúria de umas águas
Eu, que mastiguei tuas conquistas e que depois chorei
Porque dizias: “amor de mis entrañas, viva muerte”.
Ah, se soubesses como ficou difícil a Poesia.
Triste garganta o nosso tempo, TRISTE TRISTE
E mais um tempo, nem será licito ao poeta ter memória
E cantar de repente: “os arados van e vên
                                      dende a Santiago a Belén”.
Os cardos, companheiro, a aspereza, o luto
A tua morte outra vez, a nossa morte, assim o mundo:
Deglutindo a palavra cada vez e cada vez mais fundo.
Que dor de te saber tão morto. Alguns dirão:
Mas está vivo, não vês? Está vivo! Se todos o celebram
Se tu cantas! ESTÁS MORTO. Sabes por quê?
                                     “El passado se pone
                                     su coraza de hierro
                                     y tapa sus oídos
                                     con algodón del viento.
                                     Nunca podrá arrancársele
                                     un secreto.”
E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos
Azuis, brancos e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!
Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados
De infância, o plexo aberto, exposto aos lobos. Irmão.
Companheiro. Que dor de te saber tão morto.


(Hilda Hilst, Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão – Poemas aos homens de nosso tempo – 1974)



XVII

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Os juncos afogados
Um cão ferido
As altas paliçadas
Devo achar a palavra
Companheira do grito.

Um risco n´água
Um pássaro aturdido
Entre o capim e a estrada

Um grande girassol
Explodindo entre as rodas

Imagens de mim
Na caminhada.



(Hilda Hilst, Cantares de Perda e Predileção – 1983)



I

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Pés burilados
Luz-alabastro
Mandou seu filho
Ser trespassado

Nos pés de carne
Nas mãos de carne
No peito vivo. De carne.

Pés burilados
Fino formão
Dedo alongado agarrando homens
Galáxias. Corpo de homem?
Não sei. Cuidado.

Vive do grito
De seus animais feridos
Vive do sangue
De poetas, de crianças

E do martírio de homens
Mulheres santas.

Temo que se aperceba
De umas misérias de mim
Ou de veladas grandezas.

Soberbas
De alguns neurônios que tenho
Tão ricos, tão carmesins.
Tem esfaimada fome
Do teu lado que lateja.

Se tenho a pedir, não peço.
Contente, eu mais lhe agradeço
Quanto maior a distância.
E só porisso uma dança, vezenquando
Se faz nos meus ossos velhos.

Cantando e dançando, digo:
Meu Deus, por tamanho esquecimento
Desta que sou, fiapo, da terra um cisco
Beijo-te pés e artelhos.

Pés burilados
Luz-alabastro
Mandou seu filho
Ser trespassado

Nos pés de carne
Nas mãos de carne
No peito vivo. De carne.

Cuidado.



(Hilda Hilst, Poemas Malditos, gozosos e devotos – 1984)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Meus Melhores Fragmentos - Hilda Hilst (parte um)



















XII



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Dia doze ... e eu não suportarei
o estado normal das cousas.
O ano que vem, não vou desejar
Felicidades a ninguém.

Nem bom natal, nem boas entradas.

Meus amigos sabem de tudo o que eu sei.
E continuam a viver sem interrupção,
apressadamente como no ato de amor.
São doidos e não percebem que amanhã
Cristina não virá.
Que amanhã Cristina vai morrer
porque ama a vida.

Amanhã serei corajosamente Cristina
Eu, amando todos os que sofrem.
Eu ... essência.

Mas os meus amigos, coitados,
não percebem.
Fazem filhos nascer, fazem tragédia.
Não sabem que o amor não é amor
e a natureza é um mito.

Não sabem de nada os meus amigos.
E não vou explicar
porque podem ficar sentidos.
São puros, vão morrer como anjos.
Vão morrer sem nada saber
daqueles dias perdidos.

Vão morrer sem saber que estão morrendo.



(Hilda Hilst, Presságios – 1950)





I


_____________________

Eu cantarei os humildes
os de língua travada
e olhos cegos
aqueles a quem o amor feriu
sem derrubar.

Cantarei o gesto
dos que pedem e não alcançam
a resignação dos santos
o sorriso velado e inútil
dos homens conformados.

Eu cantarei os humildes
o homem sem amigos
o amante sem esperança
de retorno.

Cantarei o grito
de escuta universal
e de mistério nunca desvendado.
Serei o caminho
a boca aberta
os braços em cruz
a forma.

Para mim
virão os homens desconhecidos.



(Hilda Hilst, Balada de Alzira – 1951)





XI


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Tenho pena
das mulheres que riem com os braços
e choram de mentira para os homens.
E descobrem o seio antes do convite
e morrem no prazer ... olhos fechados.

Tenho pena
do poeta feito para só ser pai ... e ser poeta.
E daqueles que dormem sobre o papel
à espera do vocábulo
e dos que fazem filhos por acaso
e dos doidos e do cão que passa

E de mim ... que espero a morte
na confusão e no medo.



(Hilda Hilst, Balada do Festival – 1955)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Nova Lei dos Dias
















pisado e remontado

de pedra
uma após outra
e outra

comer o barro
das horas
a cimentura dos dias

É tudo.


(Anderson Dantas, 27/12/2011)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

vida















UMA

          folha seca

                           que cai

          e flana

                           perdida


expletiva.

 
 
(Anderson Dantas, Ilha 22 Dezembro)

sábado, 5 de novembro de 2011

Renata Pallottini e o Cantar do Povo





















ESSE TRABALHO LIMPO

Esse trabalho limpo de aprontar
as verduras e os caldos
                                    e as carnes nos pratos
esse trabalho limpo de afastar
o capim do pé das árvores

esse esforço contínuo de tratar
as feridas das aves
e de juntar os ovos e contá-los
e de se preocupar porque não chove

isso arreda as loucuras aninhadas
na raiz dos cabelos e na nuca
e desfaz as canseiras do fundo dos olhos
e a dor tortuosa que há nas rugas
isso faz com que a gente não urine cianeto
e não cuspa mercúrio e não chore bromato
mas sim que tenha fome. Suspire, e tenha fome
e um macio cansaço na polpa do braço.

___________________________________________

NÃO É VERDADE

Não é verdade
não se pode ser que o Bem e o Mal
se equivalham.

Esta vontade áspera
de entender o passado
deve ter qualquer forma
qualquer significado.

Não gosto de sofrer
prefiro as festas.
Mas a vida é também o sangue
e a merda.
Não gosto de ver morrer
os agonizantes
mas a verdade é que eles só morreram
antes.

Não pode ser que tudo seja igual
que tanto faça.
Também eu gostaria de andar sobre as plumas,
mas este chão me queima as patas.


(Renata Pallottini - Reflexões sobre a Arte - livro Cantar Meu Povo, Massao Ohno, 1980)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Aos escritores de blogs, por C. Ronald









Pra mim, o virtual é o esgoto onde ratos intelectuais trafegam. Portanto, o que escrevem (e como escrevem) é um sintoma grave de fim da humanidade doente, pois não entenderam o passado e querem abortar um presente que não chegará ao futuro. O mundo continuará. O humano sobrevivente será transformado em SER que será a salvação pra tudo que produzimos de verdadeiro. Na virtualidade, qualquer imbecil (e como existem e resistem) poderá dizer que o queijo foi feito de pneu estourado, mas nunca falará do chiclete que sairá da sua boca para grudar em nosso sentido humano.


(C. Ronald, em Agulhadas - livro Bichos Procuram buracos em paredes brancas, 2011)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Carlos Nejar e a Árvore do Mundo

















Mudei de não mudar
(fragmento III)

Se perguntas onde fui,
devo dizer: o mar.
Estive sempre ali,
mesmo estando a mudar.

Foi ali que escrevi
tua pele, teu suor.
Ao tempo, seus faróis.
Não mudei de mudar.

2
O que mudou em mim
senão andar mudando
sem nunca mais mudar?
Quem mudará em mim,
se não sei mudar?

3
Ou me mudei. Sou outro.
Outra ventura, outra
virtude, cadência,
remota criatura.
Então que se apresente.
Seja tenaz, plausível
esse rosto invisível e áspero

Mudei. Soprava o mar.
Mudei de não mudar.


(Carlos Nejar, Breve História do Mundo)

(minha definição de poesia)





















a pedrapoesia
é matéria
não apreendida
de imediato

é o escuro mosto
d´oiro do vento
no rangido estriado

carne do sol
em pampa verde
e espírito luzido
          nunca caçada à noite

é a ave muda
esbatendo no símbolo
jóia viva
enterrada em dia claro.

pelo fogo.     pelo tempo.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

visão sete





















visão sete


disse: dado acaso
um passo
a outro
caminhando sobre
um jardim de espinhos

eterno retorno
a uma chaga antiga
sinal perdido
entre pétalas sonhadas

disse: ressonância & dor
agonia consumada


domingo, 4 de setembro de 2011

Boris Pasternak (caderno russo V)























DEFINIÇÃO de POESIA


Um risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, a folha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto-desafio.

Um doce ervilhal abandonado.
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas -
Geada no canteiro, tombado.

Tudo o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim uma estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.

Mormaço: como pranchas na água,
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E no entanto o universo está surdo.


(Boris Pasternak - 1917 - tradução de Haroldo de Campos)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

A Poética de Fernando Mendes Vianna















NOTURNO

Depois que os rádios param
e a boca dos homens se cala,
a noite canta, marulho de mar,
a escura música.

Dobrados os braços podres,
os brutos de aço dormem,
monstros amorfos da urbe.

O tempo se liberta
                         do relógio
e inunda o mundo.

Um denso vinho de silêncio
se espraia, fundo, pelas praias
da noite
          sem margens.


(Fernando Mendes Vianna, Proclamação do Barro, 1957 - 1964)

visão seis














visão seis

TUDO é lixo
revirado pela mão
de um Deus cansado

que o Demônio
carrega para si
como num dia de indulto

caçamos nossas fomes
feitos abutres
e o NOJO
foi arremessado na véspera.

domingo, 28 de agosto de 2011

Tristan Corbière (Le Crapaud Mélancolique)


















PAISAGEM MÁ



Praias de velhos ossos – a onda
Dobra: som a som ela estertora ...
- Paul pálido, onde a lua ronda
Buscando vermes, noite afora

- Calma de peste, onde a febre,
Como um duende danado, arde ...
- Erva fétida, onde a lebre
Foge, feito um bruxo covarde ...

- A Lavadeira branca lida
Na roupa dos mortos encardida,
Ao sol dos lobos ... – E singelo,

O sapo, cantor melancólico,
Envenena com sua cólica,
A própria casa, o cogumelo.



(Tristan Corbière, Amores amarelos, tradução de Marcos Antônio Siscar)



sábado, 27 de agosto de 2011

algumas mínimas















O desencantado, em um momento de contentamento o sente de forma muito mais potente do que o otimista, que vive abestalhado.


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Eu leio como quem respira afogado.

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Quando estiver embriagado (de vinho, de poesia, de virtude) a seu gosto, estende este estado ao máximo, forma suportável e momentânea do devir, não menos lamentável.

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O fogo, última arte da ilusão.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Barthes e os Fragmentos do Amor














A


(angústia)

     2. O psicótico vive no temor do colapso (contra o qual suas diversas psicoses não passariam de defesas). Mas no “temor clínico do colapso esconde-se o temor de um colapso que já foi experimentado (primitive agony) [ ... ] e há momentos em que um paciente necessita que lhe digam que o colapso que o atemoriza, minando assim sua vida, já aconteceu”. O mesmo vale, parece, para a angústia de amor: ela é o temor de um luto que já aconteceu, na origem mesma do amor, no momento mesmo em que fui seduzido. Seria preciso que alguém pudesse me dizer: “Não fique mais angustiado, você já o/a perdeu.”


M

(mutismo)

     2. Esta escuta fugidia, que só posso capturar com atraso, leva-me a um pensamento sórdido: profundamente empenhado em seduzir, em distrair, eu acreditava expor, ao falar, tesouros de engenhosidade, mas tais tesouros são apreciados com indiferença; dispendo minhas “qualidades” à toa: toda uma excitação de afetos, de doutrinas, de saberes, de delicadeza, todo o brilho do meu eu vem esmaecer-se, amortecer-se num espaço inerte, como se – pensamento culpável – minha qualidade excedesse a do objeto amado, como se eu estivesse à sua frente. Ora, a relação afetiva é uma máquina exata, a consciência, a precisão, no sentido musical, são-lhe fundamentais; o descompassado logo se mostra demais: minha palavra não é propriamente um dejeto, é mais precisamente algo que não se vendeu: aquilo que não se consome na hora (no movimento) e é destruído.


O

(obsceno)

     7. A obscenidade amorosa é extrema: nada pode acolhê-la, dar-lhe o valor forte de uma transgressão; a solidão do sujeito é tímida, privada de qualquer cenário: nenhum Bataille daria uma escrita a tal obsceno.
O texto amoroso (que mal chega a ser um texto) é feito de pequenos narcisismos, de mesquinharias psicológicas, não possui grandeza: ou sua grandeza (mas quem, socialmente, se apresenta para reconhecê-la?) é de não poder alcançar nenhuma grandeza do “reles materialismo”. É pois o momento impossível em que o obsceno pode realmente coincidir com a afirmação, o amém o limite da língua (todo o obsceno dizível como tal já não pode ser o último grau do obsceno: eu mesmo, ao dizê-lo, seja apenas através do cintilar de uma figura, estou recuperado).


R

(repercussão)


     1. O que repercute em mim é o que aprendo com meu corpo: algo de tênue e agudo desperta bruscamente este corpo que, nesse entretempo, dormitava no conhecimento racional de uma situação geral: a palavra, a imagem, o pensamento agem como uma chicotada. Meu corpo interior se põe a vibrar, como que sacudido por trombetas que respondem umas às outras e que se harmonizam: a incitação deixa rastros, os rastros se ampliam e tudo é (mais ou menos rapidamente) devastado. No imaginário amoroso, nada distingue a provocação mais fútil de um fato realmente conseqüente; o tempo é abalado para a frente (sobem-me à cabeça previsões catastróficas) e para trás (lembro-me com terror dos “precedentes”): a partir de um nada, todo um discurso da lembrança e da morte se erige e me domina: é o reino da memória, arma da repercussão – do “ressentimento”.



(Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes, tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar)

sobre a simultaneidade























sobre a simultaneidade

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    Ontem (inadvertidamente), recebi uma ligação de um senhor com um sotaque carregado. Por certo, não era brasileiro.
    Ele começou a falar e a falar, dizendo que soubera que eu pintava e ele era um artista plástico bastante prestigiado, havia nascido entre a Itália e a Ioguslávia. Tinha 88 anos, e fora um dos pioneiros a ensinar e a expor artes plásticas no Brasil, se estabelecendo em São Paulo, mas depois vindo morar em Santa Catarina.
    Então, disse-me que seu nome era Silvio Pléticos e que tinha interesse em conhecer pessoas que gostassem das artes, principalmente das artes plásticas. Bom, embora eu já tenha feito desenho artístico, nunca tive nenhum aprofundamento sobre essa arte.
    Soube mesmo naquele momento, que ele era um grande apaixonado pela Arte, como talvez seja o único empreendimento possível para suportar o fardo tacanho do existir, embora eu hoje, com 42 anos - por ceticismo e desencanto - não acredite muito em mais nada.
    Quem sabe possamos nos conhecer em breve, pessoalmente.

domingo, 31 de julho de 2011

visão cinco












visão cinco



EU se tivesse cor
seria vermelho

por mim pelos russos
pelo meu sangue

e brindaria com Iessiênin
o frio o inferno
no coágulo do tempo

égua rubra alisando as crinas

esmagados
nos tinidos dos seus cascos

o silêncio

a melancolia viva





(Anderson Dantas, 30/07/2011, por volta da meia-noite, Ilha de SC)

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