sexta-feira, 4 de setembro de 2009

anfiteatro




















(ao pai.
e tu, sendo pai
é o pai de todas as coisas)



EU SONHEI
em ti,
meu pai.

na penumbra
senti o hálito
espirilado
do fumo

não colhi a lenha
para acender
o fogo
de nosso gelo hirto

e para a casa velha
não apanhei
nenhum junco
carcomido por ratos

não catei
nenhum fruto
não icei balde
para o poço
e água morta

EU ME PERDI
meu pai
em cega furna
e expiação.


(Ilha de SC, 11h30)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Ave Lúcifer



ave, lúcifer

as maçãs
envolvem os corpos nus
nesse rio que corre
em veias mansas dentro de mim

anjos e arcanjos
não pousam neste éden infernal
e a flecha do selvagem
matou mil aves no ar

quieta, a serpente se enrola
nos seus pés
é lúcifer da floresta
que tenta me abraçar

vem amor
que um paraíso
num abraço amigo
sorrirá para nós sem ninguém nos ver

prometa
meu amor macio
como uma flor cheia de mel
pra te embriagar, sem ninguém nos ver

tragam uvas negras
tragam festas e flores
tragam copos e dores
tragam incensos odores

mas, tragam lúcifer pra mim
em uma bandeja pra mim

sábado, 29 de agosto de 2009

Inferno: STRINDBERG


VII
TRECHOS DE MEU DIÁRIO
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Leio um delicioso panfleto, A alegria de morrer, que me dá o desejo de deixar este mundo. Para explorar a fronteira entre a vida e a morte, deito-me na cama, destapo o frasco de cianureto de potássio, que desprende seu odor mortal. Ei-lo que se aproxima de mim, o homem da foice: é delicado e tem ares voluptuosos; mas, no último instante, sempre chega alguém ou acontece alguma coisa de imprevisto: o garçom do hotel sob um pretexto qualquer, uma vespa que entra pela janela.
As potências recusam-me a única alegria, e submeto-me diante de sua vontade.

Nos começos de Julho, o hotel se esvazia com os estudantes que partem em férias.
Eis por que a chegada de um estrangeiro, no quarto vizinho, excita-me a curiosidade. O desconhecido não fala nunca; parece sempre ocupado em escrever, por trás da divisória que nos separa. Numa atitude estranha, recua todas as vezes que eu aproximo minha cadeira da parede; repete meus movimentos, como se quisesse me irritar com isso.
A coisa continua por três dias. Depois, percebo que, quando vou me deitar, alguém se deita no quarto que está do lado de minha mesa; mas, estando deitado, ouço-o levantar-se e ir para o outro quarto, ocupando o leito vizinho do meu. Escuto-o estendido paralelamente a mim: folheia um livro, depois apaga a lâmpada, respira, vira de lado e dorme.
Um silêncio absoluto reina no quarto do lado oposto. Logo, ele ocupa ambos os quartos. É desagradável ser assediado pelos dois lados.

Só, inteiramente só, janto com o prato trazido numa bandeja a meu quarto, e como tão pouco que o garçom se compadece de mim. Há uma semana que não ouço minha própria voz, e, por falta de exercício, o som começa a desaparecer. Estou inteiramente sem dinheiro: fazem-me falta os cigarros e os selos postais.

Agora, sentado na poltrona, abro a Bíblia e leio ao acaso: “Não refletem nem consideram, nem têm o bom senso de dizer: Eu queimei no fogo metade desta madeira, e cozi pães sobre as brasas; cozi carnes e comi-as, e então de seu resto hei de fazer um ídolo? Hei de prostrar-me diante de uma árvore? Uma parte deste pau está já feita em cinza; sem embargo disso, o seu coração insensato adorou a outra parte, e ele não salvará a sua alma, dizendo: É sem dúvida uma mentira o que está na minha mão.
... Eis que diz o Senhor, que te remiu e que te formou no ventre da tua mãe: Eu sou o Senhor, que faço todas as coisas, que só por mim estendi os céus, e firmei a terra, sem que ninguém me ajudasse. Eu faço baldar os prognósticos dos adivinhos, e torno furiosos os agoureiros. Eu faço recuar os sábios, e converto sua ciência em loucura”.

(August Strindberg, Inferno)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Walt Whitman, fragmentos do mar e eu


XXII
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Tu mar! Também a ti me rendo – adivinho o teu sentido,
Da praia observo os teus dedos curvos e convidativos,
Creio que te recusas a regressar sem me seres em ti,
Devemos estar juntos algum tempo, dispo-me, leva-me depressa para longe
da terra,
Aconchega-me, suavemente, embala-me na tua sonolenta ondulação,
Bate-me com a tua amorosa água, posso retribuir-te.

Mar de grandes vagas espraiadas,
Mar de ampla e convulsiva respiração,
Mar do sal da vida e dos túmulos por cavar mas sempre abertos,
Mar que bramas e esculpes as tempestades, mar caprichoso e sublime
Fundo-me contigo, também sou de uma e de todas as fases.
Participante do fluxo e do refluxo sou, exalto o ódio e a reconciliação,
Glorifico os amantes e os que abraçados dormem.

Sou quem testemunha o amor ao próximo,
(Posso enumerar os objetos da casa e omitir a casa que os contém?)

Não sou apenas o poeta da bondade, reconheço que também sou
o poeta da maldade.

Que arrebatamento é este sobre a virtude e o vício?
O mal impele-me e impele-me o resgate do mal, permaneço indiferente,
O meu caminho não é o caminho de quem descobre nem de quem o recusa.
Rego as raízes de tudo o que cresce.



(Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

BORGES: Pampa e a Vida Inteira




AO HORIZONTE DE UM SUBÚRBIO
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Pampa:
Avisto tua amplidão que afunda os subúrbios,
estou me dessangrando em teus poentes.

Pampa:
Posso ouvir-te nas tenazes violas sentenciosas,
e nos altos bem-te-vis e no ruído cansado
dos carros de bois que vêm do verão.

Pampa:
O espaço de um pátio colorado me basta
para te sentir meu.

Pampa:
Eu sei que te cortam
trilha e atalhos e o vento que te muda.
Pampa sofrido e macho que estás nos céus,
não sei se és a morte. Sei que estás em meu peito.





MINHA VIDA INTEIRA
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Aqui outra vez, os lábios memoráveis, único e semelhante
a vós.
Persisti outra vez na aproximação da ventura e na intimidade
do sofrimento.
Cruzei o mar.
Conheci muitas terras; vi uma mulher e dois ou três homens.
Amei uma menina altiva e branca, de uma hispânica quietude.
Vi um arrabalde infinito onde se cumpre uma insaciada
imortalidade de poentes.
Saboreei numerosas palavras.
Acredito profundamente que isso é tudo e que não verei nem
farei coisas novas.
Acredito que minhas jornadas e minhas noites se igualam em
pobreza e riqueza aos de Deus e aos de todos os
homens.




(Jorge Luis Borges, Lua Defronte, 1925)

sábado, 4 de julho de 2009

CARLOS NEJAR: Ensaios de Fogo


Revelações
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1.

Os animais, como as palavras, não mentem. Os homens, sim.
Mas nalgum recanto, suas palavras os desvelam. Não calam.
Querem a revelação.
O animal possui o mesmo instinto nostálgico dos vocábulos.
Se os símbolos ocultam coisas, só as palavras as dizem.
E sem dizer, são cintos postos na gaveta das rochas.
Tendem a apodrecer. Por inanição, inércia.
Sob a fluvial ferrugem.


2.

A memória é um animal solto sobre o coração.
Que também conhece inércia, apodrecimento.
Sem palavras.



Alegoria
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2.

O relógio é a medida do homem. Mas também objeto concreto da morte.
Como não entrelaçar esse silêncio cósmico de tempo a tempo, que as
palavras pendulam?
Não conhecemos ainda sequer a orla da casa bordada por esta agulha
de magnéticos naufrágios.




(Carlos Nejar, Editora Escrituras)

terça-feira, 21 de abril de 2009

TU, tão negra



TU, tão negra
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À Giovana


Tu, tão negra
que te moves
como o tigre na colina
que serpeias o corpo
num bailado nu
vestal andrajoso da carne.

tu, parreiral roxo
negras frutas uvas dos seios
entre um baixio
de pássaros e o mistério das furnas

entre cordames de fogo
e a forja redentora das águas

Tu, tão negra
entre teu samba & teu jazz
canta o alvoroço dos vagalhões
e freme no silêncio de uma concha.

redemoinho e espelho
afogada em espumas de vento
e a violência plural das dores jorrantes

tardes que o outono vem trazendo
e marcando com pegadas
nas areias onde os peixes fisgam luares

Tu, tão negra
que te moves
para dentro do meu sonho

ardor andarilho, busca marinha
mádidas frescuras
princípio de precipício

criança, bailarina e pujante mulher


EU, tão negro dentro do meu sono.


(Anderson Dantas, 18/04/2009, Ilha de SC)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Vícios Sentidos



Vícios Sentidos
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1.
na primeira noite,
nenhum cheiro.
nenhum pó.
e quatrocentas celas
abriram-se no núcleo.


2.
Hércules e Onfale
vencida carícia,
nadam entre fogos
e depois sumiram


3.
minha visão
é o martelar
de cem
cavalos cegos.


4.
quer dizer
que nem sempre
passos vão a caminho de.
grácil cruel inútil


5.
Tato.
um bailado mímico
entre o esqueleto
e o girar
que tomba ao fundo.


6.
ver os dedos
como lentos e espessos
cardumes
nem molhados
nem algas.


7.
sétimo sentido
areia e asa
aço vidro e vigias
entrelaçados nós
todos patéticos.




(Anderson Dantas, Ilha de SC)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

GARCIA LORCA: O Poeta contra a tirania



[O CANTO QUER SER LUZ]


O canto quer ser luz.
No escuro o canto tem
fios de fósforo e lua.
A luz não sabe o que quer.
Em seus limites de opala,
encontra-se consigo mesma
e volta.



BACO


VERDE rumor intacto.
A figueira me estende os braços.

Como uma pantera, sua sombra
espreita a minha lírica sombra

A lua conta os cachorros
Equivoca-se e começa de novo.

Ontem, amanhã, negro e verde,
rondas meu cerco de lauréis.

Quem como eu te quereria,
se me mudasse o coração?

... E a figueira grita para mim e avança
terrível e multiplicada.




VÊNUS

Assim te vi


A jovem morta
na concha da cama,
despida de flor e brisa
surgia na luz perene.

Ficava o mundo,
lírio de algodão e sombra,
assomado às vidraças,
vendo o trânsito infinito.

A jovem morta
surcava o amor por dentro.
Entre a espuma dos lençóis
perdia-se a sua cabeleira.




DESPEDIDA


Se eu morrer,
deixai o balcão aberto.

O menino chupa laranjas.
(Do meu balcão eu o vejo.)

O segador sega o trigo.
(Do meu balcão eu o sinto.)

Se eu morrer,
deixai o balcão aberto!




Federico GARCIA LORCA – Canções

domingo, 26 de outubro de 2008

TODA MULHER



82.

nós que nos amávamos tanto
hoje estamos tão longe
sem rima, sem sono
nem lembro
de como eu te achava estranho

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165.


ele prefere as nórdicas
as ricas, as putas
as filhas das tias
letradas, peitudas
alunas da puc
solteiras, taradas
mulheres pudicas
peludas, escravas
as boas de cama
mulatas, mineiras
as freiras da itália
escocesas, peladas
as bem mal-amadas
aquelas que dizem te amo
e mais nada

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178.

toda mulher tem um homem que se foi
um homem que a deixou por outra
um homem que a deixou por um câncer
um homem que nem mesmo a notou
um homem que a deixou por um ideal
um homem que sumiu num temporal
um homem que não passou de dois drinques
toda mulher tem um homem que se foi
um homem que foi pego em flagrante
um homem que prometeu um brilhante
um homem que saiu para jogar
toda mulher tem um homem
que esqueceu de voltar


(Martha Medeiros)


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