sábado, 5 de setembro de 2009
O FALCÃO, por HOPKINS
THE WINDHOVER
Eis que avistei esta manhã o amado da manhã, delfim do
reino
da luz-do-dia , Falcão arrebatado pela aurora
mosqueada, em seu cavalgar
No ar encapelado que, sob ele, firme se alisa, e ao galgar
Tanta altura, como se eleva espirilando, preso às rédeas de
uma asa ondulante,
Em seu êxtase! E então lá vai, lá vai balouçante
Qual pé de patim macio desliza em arco retesado; o
arremesso, o planar
Afrontam a ventania. Meu coração escondido, em sigilo,
Batia pelo pássaro – o alcance, a mestria daquilo!
Beleza bruta, bravura, ação, oh! altanaria, plumas,
amplidão –
Aqui concentrai-vos! E a fagulha que então de ti irromper,
um bilhão
De vezes mais amorável, mais temível, Ó meu paladino!
Nem surpreende: ao arar paciente, o arado lá sob o sulco
contínuo
Faísca; e o borralho azul-pálido, ah! meu tesouro,
Ao tombar atrita-se, e abre-se em talhos vermelho-e-ouro.
(Gerard Manley Hopkins, 1844-1889)
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
anfiteatro
EU SONHEI
em ti,
meu pai.
na penumbra
senti o hálito
espirilado
do fumo
não colhi a lenha
para acender
o fogo
de nosso gelo hirto
e para a casa velha
não apanhei
nenhum junco
carcomido por ratos
não catei
nenhum fruto
não icei balde
para o poço
e água morta
EU ME PERDI
meu pai
em cega furna
e expiação.
(Ilha de SC, 11h30)
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Ave Lúcifer
ave, lúcifer
as maçãs
envolvem os corpos nus
nesse rio que corre
em veias mansas dentro de mim
anjos e arcanjos
não pousam neste éden infernal
e a flecha do selvagem
matou mil aves no ar
quieta, a serpente se enrola
nos seus pés
é lúcifer da floresta
que tenta me abraçar
vem amor
que um paraíso
num abraço amigo
sorrirá para nós sem ninguém nos ver
prometa
meu amor macio
como uma flor cheia de mel
pra te embriagar, sem ninguém nos ver
tragam uvas negras
tragam festas e flores
tragam copos e dores
tragam incensos odores
mas, tragam lúcifer pra mim
em uma bandeja pra mim
sábado, 29 de agosto de 2009
Inferno: STRINDBERG

TRECHOS DE MEU DIÁRIO
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Leio um delicioso panfleto, A alegria de morrer, que me dá o desejo de deixar este mundo. Para explorar a fronteira entre a vida e a morte, deito-me na cama, destapo o frasco de cianureto de potássio, que desprende seu odor mortal. Ei-lo que se aproxima de mim, o homem da foice: é delicado e tem ares voluptuosos; mas, no último instante, sempre chega alguém ou acontece alguma coisa de imprevisto: o garçom do hotel sob um pretexto qualquer, uma vespa que entra pela janela.
As potências recusam-me a única alegria, e submeto-me diante de sua vontade.
Nos começos de Julho, o hotel se esvazia com os estudantes que partem em férias.
Eis por que a chegada de um estrangeiro, no quarto vizinho, excita-me a curiosidade. O desconhecido não fala nunca; parece sempre ocupado em escrever, por trás da divisória que nos separa. Numa atitude estranha, recua todas as vezes que eu aproximo minha cadeira da parede; repete meus movimentos, como se quisesse me irritar com isso.
A coisa continua por três dias. Depois, percebo que, quando vou me deitar, alguém se deita no quarto que está do lado de minha mesa; mas, estando deitado, ouço-o levantar-se e ir para o outro quarto, ocupando o leito vizinho do meu. Escuto-o estendido paralelamente a mim: folheia um livro, depois apaga a lâmpada, respira, vira de lado e dorme.
Um silêncio absoluto reina no quarto do lado oposto. Logo, ele ocupa ambos os quartos. É desagradável ser assediado pelos dois lados.
Só, inteiramente só, janto com o prato trazido numa bandeja a meu quarto, e como tão pouco que o garçom se compadece de mim. Há uma semana que não ouço minha própria voz, e, por falta de exercício, o som começa a desaparecer. Estou inteiramente sem dinheiro: fazem-me falta os cigarros e os selos postais.
Agora, sentado na poltrona, abro a Bíblia e leio ao acaso: “Não refletem nem consideram, nem têm o bom senso de dizer: Eu queimei no fogo metade desta madeira, e cozi pães sobre as brasas; cozi carnes e comi-as, e então de seu resto hei de fazer um ídolo? Hei de prostrar-me diante de uma árvore? Uma parte deste pau está já feita em cinza; sem embargo disso, o seu coração insensato adorou a outra parte, e ele não salvará a sua alma, dizendo: É sem dúvida uma mentira o que está na minha mão.
... Eis que diz o Senhor, que te remiu e que te formou no ventre da tua mãe: Eu sou o Senhor, que faço todas as coisas, que só por mim estendi os céus, e firmei a terra, sem que ninguém me ajudasse. Eu faço baldar os prognósticos dos adivinhos, e torno furiosos os agoureiros. Eu faço recuar os sábios, e converto sua ciência em loucura”.
(August Strindberg, Inferno)
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Walt Whitman, fragmentos do mar e eu

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Tu mar! Também a ti me rendo – adivinho o teu sentido,
Da praia observo os teus dedos curvos e convidativos,
Creio que te recusas a regressar sem me seres em ti,
Devemos estar juntos algum tempo, dispo-me, leva-me depressa para longe
da terra,
Aconchega-me, suavemente, embala-me na tua sonolenta ondulação,
Bate-me com a tua amorosa água, posso retribuir-te.
Mar de grandes vagas espraiadas,
Mar de ampla e convulsiva respiração,
Mar do sal da vida e dos túmulos por cavar mas sempre abertos,
Mar que bramas e esculpes as tempestades, mar caprichoso e sublime
Fundo-me contigo, também sou de uma e de todas as fases.
Participante do fluxo e do refluxo sou, exalto o ódio e a reconciliação,
Glorifico os amantes e os que abraçados dormem.
Sou quem testemunha o amor ao próximo,
(Posso enumerar os objetos da casa e omitir a casa que os contém?)
Não sou apenas o poeta da bondade, reconheço que também sou
o poeta da maldade.
Que arrebatamento é este sobre a virtude e o vício?
O mal impele-me e impele-me o resgate do mal, permaneço indiferente,
O meu caminho não é o caminho de quem descobre nem de quem o recusa.
Rego as raízes de tudo o que cresce.
(Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo)
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
BORGES: Pampa e a Vida Inteira

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Pampa:
Avisto tua amplidão que afunda os subúrbios,
estou me dessangrando em teus poentes.
Pampa:
Posso ouvir-te nas tenazes violas sentenciosas,
e nos altos bem-te-vis e no ruído cansado
dos carros de bois que vêm do verão.
Pampa:
O espaço de um pátio colorado me basta
para te sentir meu.
Pampa:
Eu sei que te cortam
trilha e atalhos e o vento que te muda.
Pampa sofrido e macho que estás nos céus,
não sei se és a morte. Sei que estás em meu peito.
MINHA VIDA INTEIRA
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Aqui outra vez, os lábios memoráveis, único e semelhante
a vós.
Persisti outra vez na aproximação da ventura e na intimidade
do sofrimento.
Cruzei o mar.
Conheci muitas terras; vi uma mulher e dois ou três homens.
Amei uma menina altiva e branca, de uma hispânica quietude.
Vi um arrabalde infinito onde se cumpre uma insaciada
imortalidade de poentes.
Saboreei numerosas palavras.
Acredito profundamente que isso é tudo e que não verei nem
farei coisas novas.
Acredito que minhas jornadas e minhas noites se igualam em
pobreza e riqueza aos de Deus e aos de todos os
homens.
(Jorge Luis Borges, Lua Defronte, 1925)
sábado, 4 de julho de 2009
CARLOS NEJAR: Ensaios de Fogo

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1.
Os animais, como as palavras, não mentem. Os homens, sim.
Mas nalgum recanto, suas palavras os desvelam. Não calam.
Querem a revelação.
O animal possui o mesmo instinto nostálgico dos vocábulos.
Se os símbolos ocultam coisas, só as palavras as dizem.
E sem dizer, são cintos postos na gaveta das rochas.
Tendem a apodrecer. Por inanição, inércia.
Sob a fluvial ferrugem.
2.
A memória é um animal solto sobre o coração.
Que também conhece inércia, apodrecimento.
Sem palavras.
Alegoria
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2.
O relógio é a medida do homem. Mas também objeto concreto da morte.
Como não entrelaçar esse silêncio cósmico de tempo a tempo, que as
palavras pendulam?
Não conhecemos ainda sequer a orla da casa bordada por esta agulha
de magnéticos naufrágios.
(Carlos Nejar, Editora Escrituras)
terça-feira, 21 de abril de 2009
TU, tão negra

TU, tão negra
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À Giovana
Tu, tão negra
que te moves
como o tigre na colina
que serpeias o corpo
num bailado nu
vestal andrajoso da carne.
tu, parreiral roxo
negras frutas uvas dos seios
entre um baixio
de pássaros e o mistério das furnas
entre cordames de fogo
e a forja redentora das águas
Tu, tão negra
entre teu samba & teu jazz
canta o alvoroço dos vagalhões
e freme no silêncio de uma concha.
redemoinho e espelho
afogada em espumas de vento
e a violência plural das dores jorrantes
tardes que o outono vem trazendo
e marcando com pegadas
nas areias onde os peixes fisgam luares
Tu, tão negra
que te moves
para dentro do meu sonho
ardor andarilho, busca marinha
mádidas frescuras
princípio de precipício
criança, bailarina e pujante mulher
EU, tão negro dentro do meu sono.
(Anderson Dantas, 18/04/2009, Ilha de SC)
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Vícios Sentidos

Vícios Sentidos
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1.
na primeira noite,
nenhum cheiro.
nenhum pó.
e quatrocentas celas
abriram-se no núcleo.
2.
Hércules e Onfale
vencida carícia,
nadam entre fogos
e depois sumiram
3.
minha visão
é o martelar
de cem
cavalos cegos.
4.
quer dizer
que nem sempre
passos vão a caminho de.
grácil cruel inútil
5.
Tato.
um bailado mímico
entre o esqueleto
e o girar
que tomba ao fundo.
6.
ver os dedos
como lentos e espessos
cardumes
nem molhados
nem algas.
7.
sétimo sentido
areia e asa
aço vidro e vigias
entrelaçados nós
todos patéticos.
(Anderson Dantas, Ilha de SC)
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
GARCIA LORCA: O Poeta contra a tirania

[O CANTO QUER SER LUZ]
O canto quer ser luz.
No escuro o canto tem
fios de fósforo e lua.
A luz não sabe o que quer.
Em seus limites de opala,
encontra-se consigo mesma
e volta.
BACO
VERDE rumor intacto.
A figueira me estende os braços.
Como uma pantera, sua sombra
espreita a minha lírica sombra
A lua conta os cachorros
Equivoca-se e começa de novo.
Ontem, amanhã, negro e verde,
rondas meu cerco de lauréis.
Quem como eu te quereria,
se me mudasse o coração?
... E a figueira grita para mim e avança
terrível e multiplicada.
VÊNUS
Assim te vi
A jovem morta
na concha da cama,
despida de flor e brisa
surgia na luz perene.
Ficava o mundo,
lírio de algodão e sombra,
assomado às vidraças,
vendo o trânsito infinito.
A jovem morta
surcava o amor por dentro.
Entre a espuma dos lençóis
perdia-se a sua cabeleira.
DESPEDIDA
Se eu morrer,
deixai o balcão aberto.
O menino chupa laranjas.
(Do meu balcão eu o vejo.)
O segador sega o trigo.
(Do meu balcão eu o sinto.)
Se eu morrer,
deixai o balcão aberto!
Federico GARCIA LORCA – Canções
domingo, 26 de outubro de 2008
TODA MULHER

82.
nós que nos amávamos tanto
hoje estamos tão longe
sem rima, sem sono
nem lembro
de como eu te achava estranho
_________________________
165.
ele prefere as nórdicas
as ricas, as putas
as filhas das tias
letradas, peitudas
alunas da puc
solteiras, taradas
mulheres pudicas
peludas, escravas
as boas de cama
mulatas, mineiras
as freiras da itália
escocesas, peladas
as bem mal-amadas
aquelas que dizem te amo
e mais nada
________________________
178.
toda mulher tem um homem que se foi
um homem que a deixou por outra
um homem que a deixou por um câncer
um homem que nem mesmo a notou
um homem que a deixou por um ideal
um homem que sumiu num temporal
um homem que não passou de dois drinques
toda mulher tem um homem que se foi
um homem que foi pego em flagrante
um homem que prometeu um brilhante
um homem que saiu para jogar
toda mulher tem um homem
que esqueceu de voltar
(Martha Medeiros)
sexta-feira, 11 de julho de 2008
O velho Buk e o amor
como ser um grande escritor
você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.
e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.
apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja
e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana
e vença
se possível.
aprender a vencer é difícil -
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.
e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.
não exagere no exercício.
durma até o meio-dia.
evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.
lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).
e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada -
um gosto precoce de morte não é necessariamente
uma coisa má.
fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente -
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição
todo este esgoto.
fique com a cerveja.
a cerveja é o sangue contínuo.
uma amante contínua.
arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela
bata na máquina
bata forte
faça disso um combate de pesos pesados
faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.
se você pensa que eles ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está
sem mulheres
sem comida
sem esperança
então você não está pronto.
beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
(Charles Bukowski, in O amor é um cão dos diabos)
sábado, 14 de junho de 2008
O objeto-fetiche

Em vez de auditivo ou cinestésico, o suporte de trabalho pode ser visual ou tátil. Neste caso, as possiblidades são infinitas.
Posso, por exemplo, começar com um objeto, natural ou artificial, que me represente ou "me interpele" e, depois, entrar em relação direta, visual, tátil ou verbal com este símbolo exterior de meu ser interior.
Posso falar com uma flor, um raminho, uma pedra, ou ainda com um ancinho ou uma terrina e expressar-lhe o que sinto ... e, depois, eventualmente, responder em seu lugar.
Joceline: - Escolhi esta velha roda de carrinho de mão que encontrei no galpão porque ela me lembrou imediatamente a liberdade, mas também a solidez ... Gosto de sua madeira marcada pelo tempo.
Terapeuta: - Você pode falar-lhe diretamente, em vez de falar dela para mim ou descrevê-la?
Joceline: - Eu gosto de você porque você teve uma vida bem cheia ... Você enfrentou obstáculos, sofreu, um dos seus raios está quebrado ... mas seu cubo central continua inteiro!... Sua madeira está apodrecendo ... e, no entanto, dá vida ao musgo ...
Terapeuta: - A roda poderia responder e falar?
Joceline - Sim! É verdade, já estou velha. Não sou mais rutilante como antes ... Mas esta pintura com que me cobriram em minha juventude não era eu verdadeiramente ... Me pintaram para atrair o jardineiro ... Mas isso não o impediu de me negligenciar! Ele acabou por me trocar por um carrinho mais moderno ... com um pneu oco, todo estufado de ar ... e se foi com ele ... (ela chora) ... Não importa! Segui meu caminho ... Ele me usou, mas não me amava verdadeiramente ... Agora sou livre ... Estou separada do corpo do carrinho, mas posso viajar sem parar" E, apesar da minha idade, ainda posso interessar as pessoas (ela chora de novo).
(Gestalt, Serge e Anne Ginger)
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Caio: pescador de sentidos

Mergulho II
Na primeira noite, ele sonhou que o navio começara a afundar. As pessoas corriam desorientadas de um lado para outro no tombadilho, sem lhe dar atenção. Finalmente conseguiu segurar o braço de um marinheiro e disse que não sabia nadar. O marinheiro olhou bem para ele antes de responder, sacudindo os ombros: “Ou você aprende ou morre”. Acordou quando a água chegava a seus tornozelos.
Na segunda noite, ele sonhou que o navio continuava afundando. As pessoas corriam de outro para um lado, e depois o braço, e depois o olhar, o marinheiro repetindo que ele ou aprendia a nadar ou morria. Quando a água alcançava quase a sua cintura, ele pensou que talvez pudesse a aprender a nadar. Mas acordou antes de descobrir.
Na terceira noite, o navio afundou.
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Nos poços
Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.
(Caio Fernando Abreu, in Pedras de Calcutá e O Ovo Apunhalado)
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
CADERNO EXPRESSIONISTA três

O chapéu voa da cabeça do cidadão
Em todos os ares retumba-se gritaria.
Caem os telhadores e se despedaçam
E nas costas – lê-se – sobe a maré.
A tempestade chegou, saltam à terra
Mares selvagens que esmagam largos diques.
A maioria das pessoas tem coriza.
Os trens precipitam-se das pontes.
(Jakob Van Hoddis, 1911)
PROGRAMA
Não queremos poesia,
Queremos mágicas, artifícios,
Procuramos tapar na existência fatais vazios
E apesar de imenso esforço, uma atrofia.
Mas o que sabem vocês outros da secreta elevação,
Dos sagrados e histéricos soluços da garganta a chorar,
Quando, consumidos pelo haxixe da alma em imersão,
Beijamos o primeiro degrau, para além de cujo limiar
Os deuses moram?
(Wilhelm Klemm, 1915)
O PASSEIO
Tu, esses quartos
Fixos e as áridas ruas
E o rubro sol das casas,
A infame repugnância de todos
Os livros há muito já folheados –
Não os agüento mais.
Vem, precisamos sair da cidade
Para muito longe.
Vamos deitar-nos em
Suave gramado.
Ameaçadores e tão abandonados,
Contra o absurdamente grande,
Mortalmente azul, brilhante céu,
Levantaremos mãos choradas
E encantados,
Descarnados, apáticos olhos.
(Alfred Lichtenstein, 1913)
* Traduções de Claudia Cavalcanti.
domingo, 27 de janeiro de 2008
CADERNO EXPRESSIONISTA dois: Gottfried Benn

A boca de uma moça que há muito jazia em meio aos juncos
parecia toda ruída.
Quando abriram o peito, o esôfago era só buracos.
Acabaram achando num recanto embaixo do diafragma
um ninho de ratos jovens.
Uma das irmãzinhas pequenas morrera.
Os outros viviam do fígado e dos rins,
bebiam sangue frio e tinham
passado ali uma bela juventude.
E bela e pronta foi também a morte deles:
foram jogados todos juntos na água.
Ah, como os focinhinhos guinchavam!
(Gottfried Benn, tradução de Mario Luiz Frungillo e Luís Gonçales de Camargo)
NOIVA DE NEGRO
A nuca loura de uma mulher branca
repousava sobre uma almofada de sangue escuro.
O sol lhe maltratava os cabelos,
lambera longamente as coxas claras
e se ajoelhara junto dos seios, mais escuros,
ainda não desfigurados por vícios e partos.
Um negro ao seu lado: olhos e fronte
arrebentados por um coice de um cavalo. Havia
enfiado dois de seu imundo pé esquerdo
dentro da orelha branca e pequena dela.
Mas ela estava deitada e dormia como uma noiva:
às portas da felicidade do primeiro amor
o sangue quente e jovem na expectativa
de muitas viagens ao céu.
Até que lhe
e lhe atirassem um avental púrpura de sangue morto
à volta dos quadris.
REQUIEM
Em cada mesa dois. Mulheres e homens entre-
cruzados. Sem tormento. E próximos e nus.
O peito esquartejado. O crânio aberto. O ventre
pela última vez agora a dar à luz.
Do cérebro aos testículos, cada um três malgas rentes.
E o templo de Deus e o estábulo infernal
agora peito a peito no chão da cuba, os dentes
a arreganhar prò Gólgota e a queda original.
O resto nos caixões. Tantos recém-nascidos:
cabelos de mulher, um peito de miúdo,
pernas de homem. De dois amantes prostituídos,
qual vindo de um só ventre, vi que ali estava tudo.
(tradução de Vasco Graça Moura)
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
CADERNO EXPRESSIONISTA: Georg Trakl

A alma silencia o azul da primavera.
Entre a úmida ramagem do ocaso,
freme a fronte dos amantes.
A cruz verdeja! Em escuro colóquio
conheceram-se homem e mulher.
No muro esquálido
o solitário vaga com seus astros.
Nas sendas do bosque, ao clarão da lua,
afundou na mata
de esquecidas caças; olhar do azul
irrompe das rochas em ruínas.
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DER SCHLAF
Malditos venenos escuros,
sono branco!
Este insólito jardim
de árvores crepusculares
cheio de cobras, borboletas noturnas,
aranhas, morcegos.
Forasteiro! Tua sombra errante
na tarde rubra,
um negro corsário
em mar de aflição e sargaço.
Esvoaçam brancas aves na beira da noite,
sobre cidades cindidas
de aço.
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KLAGE
Sono e morte, as águias sombrias
rondam-me a fronte a noite inteira:
a áurea imagem do homem
engole-a a onda fria
da eternidade. Em recifes medonhos
rompe-se o corpo purpúreo.
E queixa-se a voz escura
sobre o mar.
Irmã de imensa melancolia,
olha: um barco assustado naufraga
sob estrelas,
na face calada da noite.
(Georg Trakl, tradução de Marco Lucchesi, 1990)
sábado, 12 de janeiro de 2008
Non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere

1. não rir, não lamentar,
nem amaldiçoar, mas compreender.
(SPINOZA)
2. links.
linkar Lourenço, o cheiro do ralo.
Ernest Becker, Nietzsche,
Kierkegaard, eu
e outros jogos de armar.
3. Lourenço não gosta da noiva, nem dele, nem de ninguém.
presume-se que, quem não gosta de ninguém, não teme a
morte, nem mesmo se for uma facada no coração.
perdeu. dois balaços no peito.
4. sinto-me livre para fracassar.
5. mas, se não teme morrer, o que o torna
tão angustiado? a ausência? solidão?
talvez o nervo da angústia seja a perda do pai
morto na guerra (duvidosa e fantasiosa)
sua tentativa patética e simbólica
de reconstruí-lo.
6. Muitos morrem demasiado tarde e alguns
demasiado cedo. Ainda soa estranha a doutrina:
“Morre a tempo”!
Morre a tempo: é o que ensina Zaratustra.
Sem dúvida, quem nunca vive a tempo, como iria
morrer a tempo? Antes não tivesse nascido! – É assim
que aconselho os supérfluos.
7. Quem é Paula Braun? (que bela bunda!)
8. A INVEJA DO PÊNIS
A verdadeira ameaça que a mãe representa passa a ser
vinculada à sua evidente corporalidade. Seus órgãos genitais são
usados como um conveniente foco para a obsessão da criança
com o problema da corporalidade. Se a mãe é uma deusa da luz,
é também uma bruxa das trevas. A criança vê a ligação da mãe
com a terra, seus secretos processos corporais que a prendem à
natureza: o seio com seu misterioso leite viscoso, os odores e o
sangue menstruais, a quase contínua imersão da mãe produtiva
em sua corporalidade, e não menos – algo a que a criança é
muito sensível – o caráter muitas vezes neurótico e irremediável
dessa imersão.
9. A inveja do pênis, então, surge do fato de que os órgãos genitais
da mãe foram separados de seu corpo com uma focalização do
problema de degradação e vulnerabilidade. Bernard Brodsky
observa, sobre sua paciente: “Sua concepção da mulher como
fecal estimulara enormemente a sua inveja do pênis, já que o
pênis vigorosamente ereto era o antônimo das fezes mortas,
inertes”.
10. HUMANOS TOTAIS E HUMANOS PARCIAIS
É simplesmente o seguinte: de que adianta falar de “desfrutar
a nossa plena humanidade”, - como insiste Maslow,
acompanhado de tantos outros – se a “plena humanidade”
significa o desajuste primário em relação ao mundo? Se você se
livrar de sua couraça neurótica de quatro camadas, a armadura
que cobre a mentira caracterológica sobre a vida, como poderá
falar de “desfrutar” essa vitória de Pirro? A pessoa abre mão
de algo restritivo e ilusório, é verdade, mas apenas para se ver
face a face com algo ainda mais horrível: o desespero
autêntico. Plena humanidade significa pleno medo e pleno
tremor, pelo menos uma parte das horas em que o indivíduo
está acordado. Quando você faz com que uma pessoa surja
para a vida, longe de suas dependências, de sua segurança
automática, obtida ao abrigo do poder de outrem, que alegria
poderá prometer a essa pessoa, portadora do fardo de sua
solidão?
11. O tormento de Kierkegaard era o resultado direto de ver o
mundo tal como é na realidade em relação à sua situação
como criatura. A prisão do caráter da pessoa é
trabalhosamente construída para negar uma coisa, e apenas
uma coisa: a sua condição de criatura. Isso é o terror. Uma
vez admitido que é uma criatura que defeca, você convida o
oceano primitivo da angústia animal a desaguar sobre você.
Mas isso é mais que do que angústia da criatura, é também a
angústia do homem, a angústia que resulta do paradoxo
humano de que o homem é um animal cônscio de sua
limitação animal. A angústia é o resultado da percepção da
verdade de nossa condição. O que significa ser um animal
consciente de si mesmo? A idéia é absurda, se não for
monstruosa. Significa saber que se é alimento para os vermes.
Este é o terror: ter surgido do nada, ter um nome, consciência
de si mesmo, profundos sentimentos íntimos, uma torturante
ânsia íntima pela vida e pela auto-expressão – e, apesar de
tudo isso, morrer. Parece uma mistificação, que é o motivo
pelo qual certo tipo de homem cultural se rebela abertamente
contra a idéia de Deus. Que tipo de divindade iria criar um
alimento para vermes tão complexo e caprichoso? Divindades
cínicas, diziam os gregos, divindades que usam os tormentos
do homem para se divertirem.
12. Aquele que é educado pelo pavor (angústia) é educado pela
possibilidade (...) Quando essa pessoa, portanto, sai da escola
da possibilidade e sabe, com uma perfeição maior do que
aquela com que uma criança sabe o alfabeto, que não exige da
vida absolutamente nada e que o terror, a perdição e o
aniquilamento são vizinhos de todos os homens, e aprendeu a
lucrativa lição que cada terror que cause alarme poderá, no
momento seguinte, tornar-se uma realidade, irá interpretar a
realidade de maneira diferente. (...)
13. a vida é dura.
domingo, 6 de janeiro de 2008
Outros Palimpsestos (O Amor Duplo)
Inventei umas asas para voar, e vôo.
Enxofre e rosa em meus lábios.
Chuva de flechas e violinos.
Tarde-caída arroxeada e enlutada na praia,
os meus olhos ainda claros mirando serenos.
Noite. Insuportável de me ver. Olhos profundos
e selváticos, pêlos eriçados e um rugido n´alma.
O que me fascina é este espírito livre de lobo.
E nos madrigais cintilo coberto de sangue das caçadas.
Chuva de orvalhos e uivos. Pavor.
Carne aberta e quente, vulvas úmidas e olorosas,
azulidades e sombras, amor às duas amantes morenas.
E um rastro de límpido rio guarda as cavernas
rubro-róseas das voracidades gementes das feras.
No meu coração mora um sol morto. E um cavalo
sem ginete que me espera nas verdes tranças.
Enredado de recifes também lobo do mar eu sou,
triste em vão, às vezes mergulhado de estrelas.
E quando saem as duas pombas negras a cravarem-se
no meu peito, nunca me acham, nunca me têm.
E nesta taça brindada de cismas, que os cílios do bosque
são-me cúmplices, estraçalho os seus nus pescoços.
Àquela que se ergue com suas grandes tetas escuras
e a que mostra o caminho de pérola da nuca ao ventre.
Chuva sem vontade. Sem dor nem orquestra. Alheia.
E o que me persegue são borboletas malhadas de fogos,
minha eterna solidão de mar e lobo. Rosa e enxofre nos lábios.
__________________________________________
SERMO
Do que recrudesce da grama
úmida. morta.
Um cão azul lambe
o grosso filete
que inunda a visão dos umbrais.
Eu nunca-nascido-de-mim
com as chamas púrpuras em túmulos
doridos, ancião.
Eu senti o corte da lâmina anterior
a fronte se ergueu da seiva
de sangue da árvore agonizante.
Dintéis de ferro adormecidos
de pálpebras. As mãos desnudas
escorrendo pelo bosque violento
da cabeleira. Uma palavra metralhada
sem amor, arrancada da fina boca.
A asa molhada o sol esvoaçante
recolheram-se dentro da pelepenumbra
espessas grades até onde o coração
percebe, e treme. Apoiado nos joelhos
polimeria trovões eu-menino-desterrado
alquimista. vivo.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
Bertolt Brecht: combativo!

AOS QUE HESITAM
Você diz:
Nossa causa vai mal.
A escuridão aumenta. As forças diminuem.
Agora, depois que trabalhamos por tanto tempo
Estamos em situação pior que no início.
Mas o inimigo está aí, mais forte do que nunca.
Sua força parece ter crescido. Ficou com aparência de invencível.
Mas nós cometemos erros, não há como negar.
Nosso número se reduz. Nossas palavras de ordem
Estão em desordem. O inimigo
Distorceu muitas de nossas palavras
Até ficarem irreconhecíveis.
Daquilo que dissemos, o que é agora falso:
Tudo ou alguma coisa?
Com quem contamos ainda? Somos o que restou, lançados fora
Da corrente viva? Ficaremos para trás
Por ninguém compreendidos e a ninguém compreendendo?
Precisamos ter sorte?
Isto você pergunta. Não espere
Nenhuma resposta senão a sua.
___________________________________________________
A QUEIMA DE LIVROS
Quando o regime ordenou que fossem queimados publicamente
Os livros que continham saber pernicioso, e em toda parte
Fizeram bois arrastarem carros de livros
Para as pilhas em fogo, um poeta perseguido
Um dos melhores, estudando a lista dos livros queimados
Descobriu, horrorizado, que os seus
Haviam sido esquecidos. A cólera o fez correr
Célere até sua mesa, e escrever uma carta aos donos do poder.
Queimem-me! Escreveu com pena veloz. Queimem-me!
Não me façam uma coisa dessas! Não me deixem de lado! Eu não
Relatei sempre a verdade em meus livros? E agora tratam-me
Como um mentiroso! Eu lhes ordeno:
Queimem-me!
(Bertolt Brecht, tradução de Paulo César de Souza)
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
e.e. cummings: o mais vivo de todos nós

o ódio sopra uma bolha de desespero na
vastidão do sistema do mundo do universo e explode
- o medo enterra um amanhã sob o desgosto
e o ontem chega mais verde e jovem
o prazer e a dor são apenas aparências
(um a si se mostrando,a si se escondendo outro)
o único e verdadeiro valor da vida nenhum é
o amor faz a pequena diferença das coisas
e se aqui vier um homem para receber da senhora morte
o agora sem nunca e a primavera sem inverno?
ela tecerá esse espírito com os seus próprios dedos
e dar-lhe-á nada(se ele não cantar)
como há tanto mais do que o suficiente para nós os dois
querida. E se eu cantar tu és a minha voz,
___________________________________________
da mentira do não
ergue-se a verdade do sim
(apenas ela e quem
ilimitavelmente é)
fazendo os loucos compreender
(como um invernoso eu)que todos
os afazeres da mente não
se comparam a uma violeta
(e.e. cummings, tradução de Cecília Rego Pinheiro)
29
por que haverá de em cada de um parque
ânus se erguer alguma aspas estátua aspas para
provar que um herói é igual a qualquer basbaque
que teve medo de ousar responder “não?”
aspas cidadãos aspas poderiam em vez dis
so esquecer (errar é humano; perdoar,
divino)que se aspas o estado aspas diz
“mate” matar é um ato de amor cristão.
“Nada”, em 1944 D C
“pode se contrapor ao argumento da ne
cessidade militar” (generalíssimo e)
e o eco responde “não há defesa
contra a razão” (freud) – a gente paga a despesa
mas não abre a boca. A liberdade não é uma beleza?
(e.e. cummings, tradução de augusto de campos)
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
da idéia original sobre: uma carta talvez

não tem pecado.
mas apunhala
as vidraças
pelas vidra_
ças
e onde quieta
debruça seu pranto
molhante
o que temos de original para hoje?
engasga-se nos becos
as lamas de sempre
e depois chega
o sol
um ator fanfarrão
que abafa um sopro
e depois mais um.
e uma criança queda no lavatório.
babujado pela baba
asquerosa de
deus.
no pulso não mais trago
o relógio retardante
pois as rodas correram léguas
e só para encontrar um rosto desconhecido
e ausente
não eram mais pássaros
no dia seguinte
e nem chovia
e nem fazia sol
o vento lambeu pele e mais
vento
deitou seu murmúrio
como uma música
acariciada.
Deu para avistar
um arco que divisava
a cidade
e depois um arco
que parecia ser de um
violino
de um negro e suas notas
nesse espelho ainda havia
um cavalo febril
que embalava seus cascos
e ainda o mar
para que não falte esse
salgado gosto
na garganta
pelos telhados
lavou-se o pó
e a bosta dos pássaros
a bendita chuva.
a lã era um vasto velo
entre rebanho
e campos de algodão
e o arco
e uma miséria sem blues.
E depois, se bem
me
lembro
não houve depois
tudo estava perto,
molhado,
em poças, em cadafalsos
em poços
sem ajustes de corda, sem pecado.
Anderson Dantas, Ilha, 27 Dezembro 2007 (chove na cidade)_
domingo, 11 de novembro de 2007
PAUL ÉLUARD, Algumas das palavras (trechos)

Lâminas apunhalam lâminas
Vidros quebram vidros
Lâmpadas apagam lâmpadas.
Tantos laços quebrados.
A flecha e a ferida
O olho e a luz
A ascensão e a cabeça.
Invisível no silêncio.
_________________________________
Vi o meu melhor amigo
Abrir nas ruas da cidade
Em todas as ruas uma noite
O extenso túnel do seu desgosto
E oferecer a
Todas as mulheres
Uma rosa privilegiada
Uma rosa de orvalho
Igual à embriaguez de ter sede
Humildemente lhes pedia
Que aceitassem
Esse pequeno miosótis
Rosa resplandecente e ridícula
Na sua mão inteligente
Na sua mão em flor
O medo a opressão a miséria
__________________________________
14.
Párias a morte a terra e a fealdade
Dos nossos inimigos tem a cor
Monótona da nossa noite
Havemos de vencer.
__________________________________
Méditative et seule
La forme dês caresses
Qu´elle a rêvées
_________________________________
Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trêmulos de tão semelhantes serem
E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria
E esse fogo nu que me pesa
Torna a minha força suave e dura
Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.
(Paul Éluard, tradução de Antonio Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge)
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
eu, monolito
sexta-feira, 20 de julho de 2007
domingo, 10 de junho de 2007
Ivan (Angelo), o Terrível

Transparências:
Transparências:
Transparências:
Transparências:
vitral vivo
visões triplexas
a forma informa
o choc do choque
vitríolo no vértice
verso e anverso
a força deforma
o ai do pai
vertigem
o olho deságua
o bago do olho
a face desfaz-se
no ventre da filha
na coxa na concha
o fio desfia
o pã da pancada
vislumbres
no cocho das coxas
(o pai desespai)
a uva da vulva
vitral decúbito
reflexos de flechas
o peito desfeito
o oh do homem
vara a vidragem
na racha roxa
o fecho desfecho
o hi do hímen
viragem
debaixo do cóccix
a filha desfolha
a fila do falo
vértice vertigem
nas duas feridas
a fila desfila
a fala do falo
volta voltagem
no basso no braço
a mama desmama
o tim do tímpano
ventríloquo informe
e daí o complexo
o preso desprezo
o nome da mãe
vislumbres dos idos
de lasso cabaço
o torque retorce
o au do pau
nos vidros e vividos
na baça vidraça
o laço desenlace
o rito do grito
Ivan Angelo, in A Casa de Vidro
quinta-feira, 7 de junho de 2007
QUANDO LYA ESCREVIA

hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.
Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.
Lya Luft, A Sentinela
sexta-feira, 25 de maio de 2007
sábado, 17 de março de 2007
WILLIAM BLAKE: Visionário e Satanista

Ah, Girassol
Ah, Girassol! giras no tédio do tempo
Do sol contando os passos
Buscas o dourado e doce campo
Luminoso rumo dos peregrinos
Tradução de Alberto Marsicano.
Manhã
Para achar a estrada do oeste
E ir pelos portais da ira
Eu me apresso.
Suave clemência me guia.
Com doce e penitente lamento
Vejo o romper do dia.
A guerra de sabres e espadas
Em lágrimas orvalhadas
Dissolve-se.
O sol, livre do medo,
Em pranto grato e meigo
Sobe no céu.
Tradução de Regina de Barros Carvalho
Uma Árvore de Veneno
Zanguei-me com meu amigo:
A ira cessou, eu a digo.
Com o inimigo zanguei-me:
A ira cresceu, eu calei-me.
E a reguei de alma sombria
Com meu pranto noite e dia;
E a expus ao sol de gentis
Risos e falsos ardis.
E cresceu noite e manhã,
Dando luzente maçã;
Ao ver o brilho que tinha,
E sabendo que era minha,
Veio o inimigo ao pomar
Após a noite tombar.
Bem cedo o vi, com agrado,
Ao pé da árvore estirado.
Tradução de Paulo Vizioli
domingo, 25 de fevereiro de 2007
Suicídio
domingo, 21 de janeiro de 2007
Anna Akhmátova (Caderno Russo III)

RÉQUIEM: UM CICLO DE POEMAS
(1935-1940)
RÉQUIEM
Não, não foi sob um céu estrangeiro,
nem ao abrigo de asas estrangeiras –
eu estava bem no meio de meu povo,
lá onde o meu povo infelizmente estava.
PRÓLOGO
Houve um tempo em que só sorriam
os mortos, felizes em seu repouso.
E como um apêndice supérfluo, balançava
Leningrado, pendurada às suas prisões.
E quando, enlouquecidos pelo sofrimento,
os regimentos de condenados iam embora,
para eles as locomotivas cantavam
sua aguda canção de despedida.
As estrelas da morte pairavam sobe nós
e a Rússia inocente torcia-se de dor
sob as botas ensangüentadas
e os pneus das Marias Pretas.
EPÍLOGO
Aprendi como os rostos se desfazem,
como o pavor dardeja sob as pálpebras,
como a dor sulca a tabuinha do rosto
como seus rugosos caracteres cuneiformes,
como os cachos negros ou cinzentos
de um dia para o outro se prateiam,
como em lábios submissos o sorriso fenece
e, com um risinho seco, como se treme de medo.
E não é só por mim que rezo,
mas por todas as que estiveram lá comigo,
no frio selvagem, no tórrido mês de julho,
em frente à muralha rubra e cega.
sexta-feira, 29 de dezembro de 2006
Aleksandr Púchkin (Caderno Russo II)

INVOCAÇÃO
Ah! se é que, quando a repousar
À noite se acham os viventes.
E escorrem raios de luar
Nos túmulos dos mortos entes,
Ah! se é que, então, de fato, ali
Se esgota cada sepultura,
Minha voz Leila ora conjura:
A mim, amada, estou aqui!
Surge, visão do meu amor,
Como eras antes da partida:
Dia hibernal, frio e palor,
Mudada pela última lida.
Vem como estrela, imploro a ti,
Ou sopro, ou som mal perceptível,
Ou como aparição terrível,
Tanto me faz: estou aqui!
Invoco-te, mas não por ver
Vituperar quem, desumano,
Causou a amada me morrer,
Ou por alçar da morte o arcano,
Ou por que, alguma vez, senti
Dúvida ... mas, saudoso estando,
Digo que estou te amando,
Que sou teu todo: estou aqui!
1830
sexta-feira, 1 de dezembro de 2006
Marina Tsvetáieva (Caderno Russo I)

Negra como pupila, como pupila sugando
Negra como pupila, como pupila sugando
Luz – amo-te, noite aguçada.
Dá-me voz para cantar-te, ó promadre
Das canções, em cuja palma há a brida dos quatro ventos.
Clamando-te, glorificando-te, sou apenas
A concha, onde ainda não calou o oceano.
Noite! Já gastei meus olhos nas pupilas do homem!
Encinera-me, negro sol – noite!
9 de agosto de 1916
Do Ciclo Versos a Blok
Na mão, um pássaro que cala
Na mão, um pássaro que cala,
Teu nome – pedra de gelo na fala.
Um movimento de lábios, só.
Teu nome – quatro sons.
Uma bola em vôo apanhada,
Um guizo na boca, de prata.
Um seixo, atirado num lago calmo,
soluça assim, como te aclamo.
Ao leve tropel de casco noturno
Alto teu nome responde.
E o gatilho a estalar soturno
Lembra-o, em nossa fonte.
Teu nome – ah, não consigo! –
Teu nome – um beijo no ouvido.
No gelo terno de pálpebras rígidas,
Da neve é o beijo no mundo.
É um gole de fonte, azul e frígido.
Em teu nome – o sono é profundo.
15 de abril de 1916
(traduções de Aurora Bernardini)
_______________________________________________
Encontro
Vou chegar tarde ao encontro marcado,
cabelos já grisalhos. Sim, suponho
ter-me agarrado à primavera, enquanto
via você subir de sonho em sonho.
Vou carregar esse amargo – por largo
tempo e muitos lugares, de penedos
a praças (como Ofélia – sem lámurias)
por corpos e almas – e sem medos!
A mim, digo que viva; à terra, gire
com sangue no bosque e sangue corrente,
mesmo que o rosto de Ofélia me espie
por entre as relvas de cada corrente,
e, amorosa sedenta, encha a boca
de lodo – oh, haste de luz no metal!
Não chega este amor à altura do seu
amor ... Então, enterre-me no céu!
(tradução de Décio Pignatari)
domingo, 26 de novembro de 2006
Ambiente Poético VI
terça-feira, 14 de novembro de 2006
Ambiente Poético V
Vestiu apenas os pés
com uma fina pele negra
e embrenhou-se no bosque noctívago
entrecortada por nus impulsos
e flamando suas mazelas & vergastas
malsãs voragens de SANGUE
(Anderson Dantas, do livro Cavalos do Inferno)
domingo, 12 de novembro de 2006
Ambiente Poético IV

BARCOS ANCORADOS
(no momento da visão de um quadro)
Ó flecha marinha que no murmúrio se assenta!
É qual um arco distendido, adormecido sobre uma voz
onírica, clamante, embebida de sutil lume se ornamenta!...
É como um festejo de cores que o esgrimista pule
com um marejo nos olhos, faróis intensos e silentes
que vem despejar espelhos calmos e límpidos
em nossas dores, adeja à sala estreita em brancor
de nossa fronte, esta sabedoria inflamada, contente,
este fluxo latejante purpúreo e soberano e ah!
Gloriosas e voluptuosas crinas ondeantes!...
(Anderson Dantas, do livro O Amor Duplo e o Desespero das Águas)
quinta-feira, 9 de novembro de 2006
Ambiente Poético III

ANJO
(extrato)
Sem seu corpo ou maciez
Fui lançado às escarpas, sem mudez
Sem música, no vermelho das lágrimas
Foi quando o atirador de facas
me convidou para no circo
rolar sobre as feridas
E eu não pus nenhuma máscara
eu ria sobre meu túmulo
que apodrecia dentro de mim
E quando Satã soprou
seu vômito negro, eu estava
de saída para encontrar Pandora
E ela me puxou pra si
e me beijou as axilas
e cheirou minha alma de sete facas
Cravado de espinhos eu subi -
Ao monte. e morri. e nunca acordado
despi a bainha de meu jorro
Lá de cima eu fui.
Lá embaixo no inferno que suporto
Lá discípulo de sempre. ANJO.
Anderson Dantas, escritos esparsos, 2006.
Location:Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.
sábado, 4 de novembro de 2006
Ambiente Poético II

deita água na minha fronte.
e bebe.
desta fonte aqui onde
a carne molhada são papoulas.
isso.
papoulas mergulhadas.
veja isto. um poema.
se parece conosco minha criança querida
THE SLEEPERS ELM
AH, NÃO. NÃO.
parece assim que a vida é uma porcaria.
Sylvia Plath então, que horror. que horror.
deita água em minha fronte.
e deita.
isso.
não entendes? LAUTRÉAMONT-LOHENGRIN-LAFORGUE?
lábio língua labor.
que abismo de lábios que alar de línguas?
não entendes? escute
esquece isto.
vem. matar a sede das madrugadas.
passar o toque da seda
nas reentrâncias insabidas
olhos transidos êxtases coloridos
trator das unhas viajadas de carne
acompanha meus passos, não os do homem.
os do menino. do caprídeo. do longe.
que ao final deste percorrido, mundéu.
vasta sentinela de cabeleiras douradas
que poço eu sou que fundura tanta
que fundo eu sou poçura quanta
meu amor, diga-me sopre-me uns versos ...
eu não sei. não sei.
destas tuas cousas assim de poço.
água imunda eu acho.
cacho de frutas podres. às vezes doce?
doçura triste posso cantar?
miar? acho que minhas dores a Ti
parecem miados?
oh, como me deixas? traste, arraste
que vida! que vida!
(aperta as mãozinhas delicadas
de encontro ao rosto e chora
demoradamente)
devia ser uma blasfêmia MESMO
o pranto da mulher
que altura que baixeza
estas lágrimas de lodo & ouro
estas pupilas de rubi & vidro
estás zangado comigo não estás?
juro, te farei o melhor,
o que quiseres, me arrastarei
serei o mosaico e a cor buscada
a rajadas de vento furioso & grito
juro, te darei o meu pior,
os meus negrumes pintalgados
de açoite e lama-monstra
mas não te afastas e não te alastras
como o mar poesiatua NUNCAMAIS
POESIATUA assim é que me MATAS
ficaremos os dois em silêncio, que tal?
cataremos conchinhas arrancaremos
asinhas e anteninhas de rouxinol e besouro
mas, não mais cousas de dentro, te peço
deita água em minha fronte.
me come.
Te deleita.
amanhã carne molhada.
isso. bebe.
papoulas de sangue.
menino ...
mundéu. olhos de seda. poço.
Anderson Dantas, escritos esparsos, 2006.
Location:Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.
quinta-feira, 2 de novembro de 2006
Ambiente Poético I

tantas jóias tontas tonturas tonterias
já rubi sangue vivo vermelhidão sim, jaspe e olhar
negro e escuridão tundras travas trevas troando
e olhar-réptil-esverdeado esmeralda até na garganta
girafas de ouro peixes de prata barcos de bronze
uns lábios de cobre acobreadas visões de deus doido
e abaixo umas pétalas de turmalina e vidro encerado
todas elas já falei muito que lumes pérfidos que.
e muito. cheio do saco. dos minerais. das gentes.
mas topázio?
topázio não.
vês?!
que jóia de palavra
topázio.
e agora que alegria em minhas
vísceras
topázio.
e agora
topázio isto topázio aquilo
topázio
que sonoridade! que som libera
que tigre libertário!
com as garras arranhando
as orquídeas e a oquidão
topázio tigre tantálico titã touro torneado que altura teu nome teu som vejam ouçam T-O-P-Á-Z-I-O separem seus quartos suas coalhadas leitosas-amarelentas nada NADA MAIS será como antes umas feridentas pintinhas nos olhos oleosos NADA como TOPÁZIO e topázio para salvar o mundo sem chances sem rumos sem beiras sem estradas e a cegueira do verme por baixo beijando beijando nada nada no esgoto sem riqueza somente a santidade topázio topázio negro topázio branco topázio de janelas feridas de dentes circunvoantes nas orelhas do lince lince (outra grande santidade!) vem vai voa cai quebra topázio terrume torrada carne e pesado afã vai vem para os tentáculos de titânio tensão brutal carne de pedra e raridade. bela palavra.
Anderson Dantas, escritos esparsos, 2006.
Location:Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.
quinta-feira, 26 de outubro de 2006
CORTÁZAR, O esmagamento das gotas

O esmagamento das gotas
Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore. Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada do cair e aniquilar-se. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.
domingo, 22 de outubro de 2006
ARTAUD, Carta ao Papa

Carta ao Papa
O confessionário não é você, oh Papa, somos nós; entenda-nos e que os católicos nos entendam.
Em nome da Pátria, em nome da Família, você promove a venda das almas, a livre trituração dos corpos.
Temos, entre nós e nossas almas, suficientes caminhos para percorrer, suficientes distâncias para que neles se interponham os teus sacerdotes vacilantes e esse amontoado de doutrinas afoitas das quais se nutrem todos os castrados do liberalismo mundial.
Teu Deus católico e cristão que, como todos os demais deuses, concebeu todo o mal:
1º. Você o enfiou no bolso.
2º. Nada temos a fazer com teus cânones, índex, pecado, confessionário, padralhada, nós pensamos em outra guerra, guerra contra você, Papa, cachorro.
Aqui o espírito se confessa para o espírito.
De ponta a ponta do teu carnaval romano, o que triunfa é o ódio sobre as verdades imediatas da alma, sobre estas chamas que chegam a consumir o espírito. Não existem Deus, Bíblia. Evangelho; não existem palavras que possam deter o espírito.
Nós não estamos no mundo, oh Papa confinado no mundo; nem a terra nem Deus falam de você.
O mundo é o abismo da alma. Papa caquético. Papa alheio à alma, deixe-nos nadar em nossos corpos, deixe nossas almas em nossas almas, não precisamos do teu facão de claridades.
(Antonin Artaud, tradução de Cláudio Willer)
Mais dos BEATS (uivos, de repente)

ESTOU FAZENDO MINETE NUMA BELEZA de mulher; é verão, estamos num quarto de sobrado que-não-sei-onde-fica, mas é perto da rua de Bunker Hill do Corcel Branco Indo para o Leste, onde, na noite anterior, andamos procurando um lugar escondido e escuro para trepar, na sombra enluarada de uma casa que puxava a nossa cama aberta, ou veículo; mas, depois de começar, percebendo que não era tão escuro assim e lá dentro da casa das tristes e quase imperceptíveis janelas vermelhas talvez nos estivessem vendo (alusões a Pauline Cole e eu, rindo na macia escuridão oral) – não sou rico, nem pobre ou feliz em matéria de amores. Agora estamos num quarto, de dia, e ela está sentada num banquinho que lembra o de ferro vermelho de Irene; e eu, de joelhos, gemendo diante dela, que retesa o corpo para trás, em êxtase, enquanto chupo e fodo – de repente me dou conta que um grupo de homens aglomerados no telhado da casa vizinha pode enxergar tudo, mas eles fingem que nem estão olhando no momento (passada a paixão, terminada a cegueira) em que levanto os olhos: no quarto há grandes janelas duplas que dão para todo o telhado – além disso, do outro lado do beco, uma mulher ficou dando risadas toda a manhã – vagamente, durante o ato, cheguei a pensar que fosse porque tinha nos visto, mas não me importei – No entanto, agora, ela ri enquanto me viro com malícia para todos os lados, em busca de possíveis observadores suspeitos, ali no quarto da eternidade com minha beldade nua –
(Book of dreams, Jack Kerouac)
_________________________________________
PARA JACK KEROUAC
Há alguns anos atrás, eu sonhava com panquecas em um lugar onde não havia nem papel higiênico.
Eu me queixei disso a Jack Kerouac por escrito.
Em resposta recebi uma carta falando de uma nova receita para panquecas conhecida, por coincidência, como HUNGRY JACK.
Ele não estava zombando de mim porque acabo de ver na TV um comercial que anuncia justamente esta marca, HUNGRY JACK.
Gostaria de aproveitar a ocasião para louvar este homem por sua honestidade e grande capacidade de observação.
_________________________________________
VIDE
O buraco negro vazio
Onde mamãe fala do frio
E eu não rio
Meu corpo vibrava
Um elefante dormia
Levaram minha mala e disseram que eu não girava
O que é que há com o meu rabo
Em Paris, eu tinha um rabo sem igual
Quando judeu me achava um intelectual
_________________________________________
TEORIAS NOTURNAS
Teorias noturnas desaparecem em atos de adultério.
A luz do dia se infiltra e os malabaristas filipinos
[somem.
O amigo do dia substitui o bandido da noite.
Nenhum papel a desempenhar. Aqui atos de
[de bravura valem pouco.
Vendo o obelisco em plena luz do dia.
Nenhum punho pela janela.
(Carl Solomon, em De repente, acidentes)
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Estão sentados numa cama baixa, coberta de seda branca. A garota abre as calças dele com dedos delicados e puxa fora seu peru, que é pequeno e duro. Como uma pérola, uma gota de lubrificante brilha em sua ponta. Ela acaricia a cabeça gentilmente: - Tire as roupas, Johnny! – Ele se despe com movimentos rápidos e seguros e fica nu de frente para ela, com o pau pulsando. Ela faz um gesto para que ele se vire, e ele pirueta pelo quarto, parodiando uma modelo, com a mão na cintura. Ela tira a blusa. Os seios são altos e pequenos, com bicos eretos. Tira suas calcinhas. Os pêlos púbicos são negros e brilhantes. Ele se senta a seu lado e estende a mão em direção ao seio. Ela detém as mãos dele.
- Querido, eu quero rodear você – sussurra ela.
- Não. Agora não.
- Por favor, eu quero.
- Está bem. Vou lavar a bunda!
- Não, deixe que eu lavo!
- Oh, esqueça, não está suja.
- Está, sim. Vamos, Johnny, venha!
Ela o leva até o banheiro. – Tudo bem, abaixe-se. – Ele cai de joelhos e se inclina para a frente, com o queixo no tapete do banheiro. – Por Alá – diz ele. Olha para trás e sorri para ela. Ela lava o cu dele com sabonete e água quente, enfiando o dedo bem dentro.
- Dói?
- Nãããããããão.
- Vamos, meu bem. – Ela o guia até o quarto de dormir. Ele se deita na cama de costas e joga as pernas por cima da cabeça, apertando os cotovelos por trás dos joelhos. Ela se ajoelha e acaricia a base de suas coxas, as bolas, correndo o dedo pela fenda eterna. Afasta as nádegas, inclina-se e começa a lamber o ânus, movendo a cabeça em círculos lentos. Pressiona as bordas do cu, lambendo mais fundo e mais fundo. Ele fecha os olhos e grunhe. Ela lambe a fenda eterna. As bolas pequenas e tesas... uma grande pérola aparece na ponta de seu pau circuncidado. Sua boca se fecha sobre a cabeça. Ela chupa ritmadamente para cima e para baixo, parando na subida e movendo a cabeça em volta num círculo. A garota brinca gentilmente com as bolas dele e desliza o dedo médio dentro do seu cu. Quando desce chupando até a raiz do membro, ela belisca sua próstata zombeteiramente. E o jovem sorri e peida. Ela está chupando o pau dele freneticamente. O corpo do garoto começa a se contrair, dobra-se em direção ao queixo. E cada vez a contração é mais prolongada. – Uiiiiii! grita ele, com todos os músculos tensos e o corpo inteiro, se esforçando para descarregar-se através do pau. Ela engole o esperma, que lhe enche a boca em jatos grandes e quentes. Ele deixa os pés caírem sobre a cama. Arqueia as costas e boceja.
(William Burroughs, in The naked lunch, trecho do texto A festa anual de A. J.)
quarta-feira, 11 de outubro de 2006
BAUDELAIRE: O Patrono do Mal

A DESTRUIÇÃO
Sem cessar ao meu lado o Demônio se agita,
E nada ao meu redor como um ar impalpável;
Eu o levo aos meus pulmões, onde ele arde e crepita,
Inflando-os de um desejo eterno e condenável.
Às vezes, ao saber do amor que a Arte me inspira,
Assume a forma da mulher que eu vejo em sonhos,
E, qual Tartufo afeito às tramas da mentira,
Acostuma-me a boca aos seus filtros medonhos.
Ele assim me conduz, alquebrado e ofegante,
Já dos olhos de Deus afinal tão distante,
Às planícies do Tédio, infindas e desertas,
E lança-me ao olhar imerso em confusão
Trajes imundos e feridas entreabertas
- O aparato sangrento e atroz da Destruição!
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PROJÉTEIS E MEU CORAÇÃO A NU
O que é criado pelo espírito é mais vivo que a matéria.
O amor é o gosto de prostituir-se. Mesmo o prazer mais puro pode sempre conduzir a isso.
Que é a arte? Prostituição.
O amor pode provir de um sentimento generoso - o gosto de prostituir-se - mas logo é corrompido pelo gosto de propriedade.
O caráter profundo de algumas expressões vulgares: buracos que gerações sucessivas de formigas escavaram.
PROJÉTEIS, SUGESTÕES
O homem de letras também movimenta capitais e faz-nos desfrutar de uma certa ginástica do intelecto.
Amamos tanto mais as mulheres quanto mais estranhas elas nos parecem. Gostar de mulheres inteligentes e um prazer de pederasta. Por isso que a bestialidade exclui a pederastia.
O sentido do ridículo pode não excluir a caridade, mas isso é raro.
Da mulher. Ares.
Ares encantadores, que são fonte de beleza:
o ar saturado, o ar dominador
0 ar aborrecido, o ar voluntarioso,
o ar esgazeado, o ar perverso,
o ar indecente, o ar doentio,
o ar frio, o ar felino, misto de infantilidade,
o ar introvertido, de langor e de malícia.
MEU CORAÇÃO A NU
A mulher e o oposto do Dândi.
Deve pois nos causar repulsa.
A mulher tem fome e quer comer - sede, e quer beber.
No cio, quer ser comida.
Que glória!
A mulher é natural, isto é abominável.
Por isso mesmo ela é sempre vulgar, ou seja o contrário do Dândi.
Tornar-se um homem útil sempre me pareceu algo de muito detestável.
POLÍTICA
É por não ser ambicioso que não tenho convicções, como as entendem as pessoas do meu século.
Não há em mim qualquer base para uma convicção.
Há sempre uma certa covardia ou moleza nas pessoas de bem.
Só os aventureiros em convicções. De quê - De que têm de vencer. Por isso, vencem.
Por que eu venceria, se não tenho vontade de tentar?
Impérios esplendorosos podem assentar no crime, e nobres religiões em imposturas.
É preciso trabalhar, e se não for por gosto pelo menos por desespero; até porque, bem vistas as coisas, trabalhar é menos tedioso do que se divertir.
Imenso nojo dos cartazes.
O poeta, o padre e o soldado são a única coisa que ainda há de grandioso entre os homens: O homem que entoa o seu canto, o que abençoa, o que sacrifica e se sacrifica. O resto é feito para o chicote.
terça-feira, 3 de outubro de 2006
Orides Fontela: A Teia do Silêncio

PEDRA
A pedra é transparente:
o silêncio se vê
em sua densidade.
(Clara textura e verbo
definitivo e íntegro
a pedra silencia).
O verbo é transparente:
o silêncio o contém
em pura eternidade.
(Transposição, 1966-1967)
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O GATO
Na casa
inefavelmente
circulam olhos
de ouro
vibre ( em ouro) a
volúpia
o escuro tenso
vulto do deus sutil
indecifrado
na casa
o imperecível mito
se aconchega
quente (macio) ei-lo
em nossos braços:
visitante de um tempo sacro (ou de um não tempo).
(Helianto, 1973)
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NUDEZ
Ainda há maior nudez: barreira
ininterrupta do silêncio
guardando em si a evidência das formas.
Ainda há maior nudez: evidência
sem mais sinais
exata em sua luz interna.
Ainda há maior nudez: a luz
infinda simplicidade
sem apoio além de si mesma.
(Alba, 1983)
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ÁGUAS
amargas
cobrem o
barco
as águas
salobras
trazem
o dilúvio, o naufrágio, o necessário
batismo.
Através do
silêncio
cai a
água
filtra-se
através do ser
a inextinguível
água
do silêncio.
(Rosácea, 1986)
sexta-feira, 29 de setembro de 2006
Ezra Pound: scabrous arse-hole

(fragmentos do Canto XV)
O melífluo, deitado em glucose,
o pomposo em rama de algodão
com um pivete como as gorduras em Grasse,
o eminente escabroso olho do cu, cagando moscas,
retumbando com imperialismo,
urinol último, estrumeira, charco de mijo sem cloaca,
...... r menos tumultuoso, ....... Episcopus
...... sis,
de cabeça para baixo, atarraxada na lavadura,
as pernas oscilando e postulentas,
um protector de partes clerical suspenso para trás sobre
[o umbigo
o preservativo cheio de baratas,
tatuagens em volta do ânus,
e um círculo de damas jogadoras de golfe em roda dele.
os violentos corajosos
cortando-se com facas,
os covardes incitadores à violência
..... n e ....... h comidos por gorgulhos,
........ ll como um aborto inchado,
a besta das cem patas, USURA
e a lavadura cheia de mesureiros,
fazendo vénias aos senhores do sítio,
explicando as vantagens dele,
e os laudatores temporis acti
raclamando que a me ... costumava ser mais preta e mais rica
e os fabianos exigindo a petrificação da putrefação,
por uma caca nova em losangos,
os conservadores cavaqueando,
distinguiam-se por polainas de carne humana de bairro de lata.
e os apadrinhados num grandioso círculo,
lamentando-se de insuficiente atenção,
a procura sem fim, contraprotesto pelo folar que não veio
o litigioso,
um suor verde de fel, os proprietários das notícias, ... s
o anónimo
(tradução de Luísa MLQ Campos e Daniel Pearlman)
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FIGURA DE DANÇA
- para as bodas em Cananéia -
De olhos escuros,
Ó mulher de meus sonhos,
De sândalo e marfim,
Não há nenhuma igual entre as dançarinas,
Nenhuma com pés rápidos.
Não te encontrarei nas tendas
Na escuridão amortecida.
Não te encontrarei junto à nascente
Entre as mulheres com seus cântaros.
Como um renovo sob a cortiça são teus braços;
Tua face é como um rio com luzes.
Alvas como a amêndoa são tuas espáduas;
Como amêndoas recentes desnudadas da casca.
Não te defendem com eunucos
Nem com barras de cobre.
Ouro-turquesa e prata estão no lugar do teu repouso.
Uma escura veste, com fios de ouro em frisos
Colheste ao teu redor,
Ó Nathat-Ikanaie, "Árvore-ao-pé-do-rio."
Como um regato entre o junco são tuas mãos sobre mim;
Teus dedos ma gélida corrente.
Tuas servas são tão alvas como seixos.
Ah! sua música ao teu redor.
Não há nenhuma igual entre as dançarinas,
Nenhuma com pés rápidos.
(tradução de Augusto de Campos)






